Fungo que está a matar salamandras europeias veio do Sudeste asiático

Fungo Batrachochytrium salamandrivorans veio da Ásia para a Europa em 2010, em espécies importadas.

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Salamandra-de-fogo infectada pelo fungo Batrachochytrium salamandrivorans, com lesões na pele Universidade de Gante

Em 2010, os voluntários da uma reserva natural perto da cidade de Maastricht, na Holanda, aperceberam-se de que se estava a passar algo estranho com a população da salamandra-de-fogo (Salamandra salamandra) da reserva. Os indivíduos desta espécie de anfíbios estavam a morrer misteriosamente e em grande quantidade. Três anos depois, um artigo científico revelava a causa da devastação: um novo fungo chamado Batrachochytrium salamandrivorans provocava úlceras na pele destes animais, matando-os.

Agora, um novo estudo publicado nesta quinta-feira na revista Science revela que esta doença pode ser originária do Sudeste asiático, e que a importação de espécies de anfíbios pode ter trazido o fungo para a Europa. Para já, o Batrachochytrium salamandrivorans só foi encontrado em salamandras e tritões da Holanda e Bélgica, mas nada impede a doença se propagar para outros países europeus. Além disso, o mercado de anfíbios pode levá-lo para os Estados Unidos, um novo território com várias espécies vulneráveis ao fungo.

“Quando uma doença anda por aí durante muito tempo, os animais desenvolvem resistência à doença. Com a globalização, há movimentos de humanos e de animais por todo o mundo, pondo os agentes patogénicos em contacto com [possíveis] hospedeiros que não tiveram oportunidade de desenvolver resistências. Em consequência, agentes patogénicos como o fungo Batrachochytrium salamandrivorans, que são trazidos para novos ambientes, podem rapidamente ameaçar de extinção muitas espécies”, explica An Martel, investigadora da Universidade de Gante, na Bélgica, citada num comunicado da sua universidade. A cientista é uma das autoras do artigo, cujo trabalho foi feito por uma equipa internacional.

A equipa analisou 5391 anfíbios selvagens de quatro continentes à procura de ADN do fungo, para tentar definir a sua geografia natural. Além disso, os investigadores expuseram ao fungo 35 espécies das três ordens de anfíbios – que compreendem os sapos e as rãs, por um lado, as salamandras e os tritões, por outro, e ainda os “Gymnophiona”, anfíbios parecidos com cobras – para avaliarem se eram todas susceptíveis à doença. Para isso, a investigação contou com cientistas que trabalham na Austrália, na Ásia, nos Estados Unidos e em vários países da Europa, incluindo Wouter Beukema, que está a fazer o doutoramento no Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (Cibio), da Universidade do Porto.

Os cientistas descobriram que só as espécies de salamandras e tritões eram susceptíveis a este fungo. Mas nesta ordem de anfíbios, a doença matou os indivíduos de 12 das 23 espécies, incluindo animais que vivem na América do Norte, onde para já ainda não há sinais do fungo.

Por outro lado, encontraram vestígios do ADN do fungo em três espécies de tritões da Tailândia, do Vietname e do Japão. O fungo foi ainda detectado num animal de uma das espécies asiáticas, morto há 150 anos, e conservado num museu. “Estas descobertas sugerem um endemismo antigo na Ásia e uma incursão recente na Europa”, lê-se no artigo, no qual se explica que aquelas três espécies poderão servir como reservatório natural do fungo, já que, apesar de ficarem doentes, não morrem da doença e podem curar-se.

“Dada distribuição global descontínua do Batrachochytrium salamandrivorans, a introdução na Europa a partir da Ásia deverá ter sido mediada por humanos”, escrevem os autores. A equipa encontrou o fungo em dois indivíduos de outra espécie de salamandra exportados para a Europa em 2010. No laboratório, os cientistas mostraram ainda que o fungo é facilmente transmitido entre espécies de salamandras e tritões. Finalmente, os autores escrevem no artigo que, entre 2001 e 2009, mais de 2,3 milhões animais da espécie de tritão “Cynops cyanurus” foram exportados da China para os Estados Unidos.

Todas estas informações servem para mostrar que o mercado destes animais poderá ser um veículo futuro para a exportação deste fungo para novas regiões do globo. “Há pouco a fazer para travar a propagação [do fungo] na Europa continental, além de impedir as pessoas de transportarem salamandras infectadas entre países”, defende Matthew Fisher, professor de epidemiologia de doenças causadas por fungos do Imperial College de Londres, no Reino Unido.

“Se o fungo chegar aos Estados Unidos, então milhões, se não milhares de milhões, de salamandras poderão morrer e poderá ocorrer a extinção de espécies”, prevê o investigador, que fez parte da equipa, citado pela agência Reuters.

Depois da quitridiomicose – a famosa doença provocada pelo fungo Batrachochytrium dendrobatidis, que tem estado a matar 30% das espécies de anfíbios em todo o mundo –, há agora esta segunda doença que pode dificultar ainda mais a sobrevivência destes animais. Ou como o próprio artigo defende: “As doenças infecciosas emergentes têm um papel importante na sexta extinção em massa que está a decorrer.”