Militante do PS diz que fichas tinham informações “inverídicas” por “estratégia”

Afirma que inscreveu militantes em Penela para depois os transferir para a secção da Sé Nova, em Coimbra.

Protesto
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Enric Vives-Rubio

O membro do PS que terá entregado 52 fichas de inscrição de militantes aos dois ex-responsáveis do partido em Penela admitiu nesta quarta-feira em tribunal que nem todas as informações dos documentos estavam correctas. No julgamento em que são arguidos o ex-presidente da concelhia do PS de Penela, Renato França, e o antigo secretário coordenador da secção, Rui Horta, Fernando Pereira afirmou que as fichas continham informações “inverídicas” porque o próprio tinha uma estratégia para ganhar a secção do PS da Sé Nova, em Coimbra.

Fernando Pereira garante que lhe barraram a inscrição de militantes na Sé Nova pelo que, com o objectivo de os transferir mais tarde para ali, os inscreveu em Penela. “E porquê Penela?”, quis saber a procuradora do Ministério Público Vera Oliveira. Fernando Pereira referiu que era uma secção “pequena”, e que se localizava mais perto de Coimbra.

A transferência de militantes – que teria de ser pedida pelos próprios, mas que seria Fernando Pereira “a tratar” - não se chegou a concretizar porque o assunto chegou entretanto aos jornais e o próprio foi contactado pela Polícia Judiciária antes das eleições, contou. Ficou “quieto” para “proteger o partido”.

A secretária coordenadora da secção socialista da Sé Nova era então Cristina Martins, que denunciou a situação e que é assistente no actual processo. A militante era apoiante de Mário Ruivo, que disputou em 2012 a liderança da distrital com Pedro Coimbra, que por sua vez era apoiado por Fernando Pereira e pelos arguidos. Pedro Coimbra, que se mantém líder da distrital e é deputado no parlamento, levou a melhor.

Renato França e Rui Horta estão acusados de um crime de falsificação de documento na forma continuada. Segundo a acusação do MP, os arguidos falsearam 52 fichas de inscrição no PS, para influenciar as eleições para a distrital em 2012 e o acto de 2013, em que António José Seguro derrotou Aires Pedro. Nesses dois actos eleitorais, o arguidos terão introduzido boletins de voto nas urnas e forjado a assinatura de alguns desses militantes nos cadernos eleitorais. 

Sobre a discrepância entre as moradas apontadas nas fichas e as moradas verdadeiras, Fernando Pereira disse também “ter conhecimento” dessa situação, embora negue a autoria. Questionado pelo juiz Rodrigo Costa sobre quem teria providenciado as moradas falsas, Fernando Pereira respondeu que “há um grupo de pessoas próprio” para isso, apontando os nomes de Manuel Milagre e de André Oliveira (ex-dirigentes da JS de Coimbra). E prosseguiu: “Eles sabiam que tinham de pôr moradas de Penela”. 

Fernando Pereira foi ouvido apenas na qualidade de testemunha, uma vez que foi um dos 18 arguidos no processo mãe que envolvia várias concelhias do PS de Coimbra que aceitou a suspensão provisória proposta pelo Ministério Público, em 2016. Dessa lista fazem parte também André Oliveira e Manuel Milagre. 

No depoimento, o militante acrescentou que “não há dúvida” que Renato França sabia que os militantes estavam a ser inscritos em Penela para depois serem transferidos. Não conseguiu explicar o facto de constarem nos cadernos eleitorais de 2012 e 2013 assinaturas de alegados militantes que garantem não ter ido votar.

Fernando Pereira admitiu ter pagado quotas de camaradas seus, explicando que o fez com recurso a outro militante, António Rasteiro, porque “não tinha dinheiro” na altura. “Passado uma semana dei-lhe o dinheiro”. Os estatutos do PS exigiam as quotas em dia para poder votar.

Antes e depois de Pereira falar, passaram pela sala de audiência vários pretensos militantes do PS, que residem em Coimbra ou na Figueira da Foz, sendo que a grande maioria não tem qualquer ligação a Penela. Foram os próprios a confirmar várias incongruências nas fichas de inscrição, como moradas ou endereços de email falsos, e também a garantir que assinaturas nos cadernos eleitorais de 2012 e 2013 não era a deles. <_o3a_p>