Opinião

Política e amizade não casam

Que Sócrates não será apagado da história do PS é evidente. Mas que, deste modo, pode não causar tantos estragos, foi o que a direcção do partido entendeu. E, com isto, Costa lança um aviso interno importante.

A desfiliação de José Sócrates era uma inevitabilidade. Apenas se não conhecia o timing, o qual não parecia, desde logo, substancialmente escolhido por ele, mas, sobretudo, pelo modo como o PS fosse reagindo ao longo do processo criminal que já leva anos.

Porque em política, em regra, não há coincidências, o que me parece mais interessante em todo este “folhetim” é perceber por que razão Carlos César, por certo combinado com António Costa, elevou o tom. Objectivamente, o que foi referido pelo Presidente do partido nada tem de extraordinário: é óbvio que, se e na medida em que se vierem a provar – daqui a largos anos – as acusações pendentes sobre um anterior Primeiro-Ministro e Secretário-Geral do PS, tal será sempre motivo de vergonha, revolta, desconforto para o partido, independentemente da designação mais ou menos simpática que se queira encontrar. Mas, se o processo já existe há anos, porquê este aumento de decibéis por parte de altos responsáveis do PS?

E a resposta julgo encontrar-se em Manuel Pinho, um independente próximo do PS, mas, assim mesmo, um não-militante. Alguém sobre quem agora existem também notícias na comunicação social de que, alegadamente, terá praticado ilícitos criminais. Tenho-me batido, aqui no PÚBLICO e em outros fóruns, pelo absoluto respeito pelo princípio da presunção da inocência e da recusa liminar de linchamentos em praça pública. Obviamente, mantenho-me fiel a esses princípios, por convicção e por profissão (de fé).

Todavia, a questão sobre a qual hoje gostaria de reflectir convosco é política e não jurídica. Bem andou António Costa ao instaurar um prudente “cordão sanitário” entre o “caso Sócrates” e o PS, proclamando um chavão pedido a César (o imperador e não o Presidente do partido): “à justiça o que é da justiça e à política o que é da política”. Nem outra deveria ser a sua posição, já que a mesma defendia, ao mesmo tempo, interesses de afirmação de imagem de estadista, numa altura em que ainda não tinha responsabilidades de Primeiro-Ministro e, por outro, limitava os danos colaterais que o processo sempre traria ao PS, prevenindo, na medida do possível, que o labéu de suspeição, qual mancha de azeite, atingisse todos os líderes socialistas. E bem andou ainda ao não embarcar, como infelizmente outros fizeram, na roda-viva de visitas a Évora, com inenarráveis comentários indignos de qualquer democrata que vive e respeita a separação e interdependência de poderes.

Que se visite um amigo na cadeia consta da Bíblia e tenho-o por um acto de grande humanismo. Mas não se devem confundir relações pessoais com a posição que se ocupa, detendo responsabilidades políticas e de condução dos assuntos do Estado. Ora, é mais que evidente que Sócrates era um embaraço para o PS. E António Costa é um político inteligente e pragmático, frio e racional nas suas análises, o que são excelentes qualidades para um Primeiro-Ministro. Podem não ser para um amigo, mas Costa nunca morreu de amores por Sócrates (e vice-versa) e é, efectivamente, o nosso líder do Governo. A oportunidade, como disse já, foram as suspeitas sobre Pinho, ministro de Sócrates que, não sendo filiado, abriu uma janela de oportunidade. E a direcção do PS aproveitou-a. Tão simples quanto isso. Conhecedor da personalidade de Sócrates, bastaria aumentar a pressão nas palavras e o antigo Secretário-Geral faria um favor a ambos, libertando-os de um “embaraço mútuo”. Costa respira mais aliviado, na certeza do sucesso político da estratégia que gizou desde o início. Doravante, Sócrates foi um ex-militante do PS, mas certo é que nunca se apagará da História que foi Secretário-Geral e o único Primeiro-Ministro do partido que lhe deu uma maioria absoluta.

A História não se apaga, como ela mesma nos demonstra. Mas as possibilidades de contaminação diminuem-se, como agora a direcção do PS fez. Não percebo tanto alarido. A política não é para amigos, mas um meio de, para além de servir o país, atingir o poder. Os partidos com aspiração a governar têm de ser assim, e aqui não vai qualquer juízo de valor envolvido. À política a frieza, racionalidade e calculismo necessários ao cumprimento dos seus nobres objectivos – base primeva da sua existência – ou tão-só da luta e conservação do poder, igualmente legítimas em democracia. À amizade a irracionalidade, a emoção, “as razões que a razão desconhece”.

Que Sócrates não será apagado da história do PS é evidente. Mas que, deste modo, pode não causar tantos estragos, foi o que a direcção do partido entendeu. E, com isto, Costa lança um aviso interno importante – válido também para qualquer outra formação política –: entendeu, como líder inteligente que é, que os eleitores estão mais atentos e que, chamemos-lhe “ética republicana” ou outra coisa qualquer, hipóteses de corrupção, tráfico de influência, peculato ou qualquer outro delito praticado no exercício de funções políticas começa a pagar-se caro. Já não era sem tempo. Afinal, parece que, embora timidamente – não sejamos ingénuos –, Portugal começa a aceitar “tolerância zero” com comportamentos como os que têm sido noticiados. Abramos garrafas de champanhe? Claro que não, tanto mais que esse líquido está caro. Mas, pelo menos, sabendo que em qualquer país do mundo haverá sempre actos que podem configurar crimes no exercício e por causa de funções políticas (e públicas, em geral), ao menos coloquemos a garrafa num frappé com generosa dose de gelo.