Entrevista

As tecnologias dão mais segurança aos consumidores de vinho

O Adegga WineMarket Porto 2018 decorre este sábado no Hotel Porto Palácio. Para que serve? André Ribeirinho, um dos líderes do projecto Adegga, responde: para proporcionar aos enófilos ou candidatos a enófilos uma experiência “diferente”.

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Nelson Garrido

O Adegga WineMarket (um projecto de André Ribeirinho, André Cid e Daniel Matos) regressa ao Porto com 50 produtores, 500 vinhos, espaço para estreantes como Álvaro Martinho (Mafarrico), Joana Santiago (Quinta de Santiago) ou Nuno Morais Vaz (Boina), oportunidades de cruzamento de comida criativa com vinhos, experiências de realidade virtual e zonas exclusivas onde se podem provar vinhos de topo. André Ribeirinho, um dos rostos do projecto, explica o que é esta mostra, revela o resultado das suas experiências nos WineMarket e fala das oportunidades que a Internet e as novas tecnologias proporcionam aos produtores e aos consumidores de vinho.

Com tantos acontecimentos em torno do vinho, desde eventos para os consumidores em geral até aos que se dedicam mais aos wine freaks, para que serve o Adegga WineMarket?

O Adegga serve para o tornar o vinho ainda mais próximo dos consumidores. Nós desenvolvemos um evento em que a ideia não é as pessoas irem lá porque sabem de vinho, é irem lá para descobrirem o vinho. Tudo o que nós fazemos no evento, sejam as nossas tecnologias, seja pela selecção de produtores, seja pela forma tão simples de comprar vinhos que estão em prova, tudo o que fazemos é pensado para o consumidor. É uma experiência global diferente dos outros eventos, em que as pessoas vão lá e provam os vinhos…

Mas os outros eventos também têm como principal foco o consumidor.

Claro que sim. A ideia deles é vender ao consumidor. O que nós fazemos é criar vários níveis dessa experiência. É raro um evento vender vinho, é raro enviar um email com todos os vinhos que as pessoas provaram no evento. Ou seja, o que nós fazemos é uma pré-selecção de produtores, não temos 400 mas 40 ou 50 em cada evento, e tentamos desenvolver uma experiência diferente.

Pela vossa experiência, atraem públicos novos ou os consumidores que gravitam em torno destes eventos são sempre os mesmos?

Não nos focamos nos detalhes técnicos do vinho, focamo-nos na experiência. É um tipo de coisa que as pessoas mais jovens claramente procuram. Ao mesmo tempo, temos a comunicação assente numa plataforma digital e também isso se ajusta aos comportamentos dos mais jovens, que assim se sentem mais próximos e mais atraídos pelo evento. Mas, claramente, o evento não é só para gente jovem.

PÚBLICO -
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Nelson Garrido

A tecnologia determina o público que vai ao Adegga WineMarket?

Existe na utilização de tecnologia uma apetência que claramente se ajusta às camadas mais jovens. 

Nos vossos eventos há muitos neófitos? Conseguem identificá-los?

Sim, claramente. O número de pessoas que repete os eventos que fazemos é elevado. Nós vemos as pessoas a evoluir na forma como comportam e descobrem o vinho. Uma das coisas que vemos é o preço médio quando se começa a comprar vinho e, cinco anos depois, com a aprendizagem, com a sensação de conforto que essa aprendizagem dá, com os produtores que conhecem, o preço aumenta claramente.

O que ganham os produtores por aparecem no vosso evento? Para lá de venderem vinho, claro…

No mundo em que vivemos, fazer o melhor vinho do mundo não é suficiente para o vender. É preciso fazer a sua promoção, é preciso fazer com que as pessoas o possam experimentar até que se identifiquem com o vinho, com o produtor, com o projecto. O Adegga claramente tem essa vantagem de não ser o maior evento do mundo, não é essa ideia: é ser um evento em que as pessoas conseguem um contacto directo com as pessoas que fazem o vinho. É isso que queremos fazer. O produtor vem ao Adegga e consegue mostrar o seu projecto a mais pessoas do que as que o podem ir visitar.

O consumo do vinho está associado a uma moda. Esta moda, pelo que conhecem, mantém-se, evolui, tem novos contornos?

Existe um à vontade em consumir vinho que não existia há 20 anos. As novas tecnologias permitiram às pessoas informar-se sobre os vinhos que querem consumir e, portanto, chegam a um restaurante e com mais facilidade pedem um vinho sem mais informação. As tecnologias dão-lhes mais segurança, dão-lhes mais hipóteses de descobrir vinhos de outra forma. Mas eu não vejo o vinho como uma moda. O vinho faz parte de uma cultura. Temos hoje em dia produtos que concorrem com o vinho, mas o vinho não está a desaparecer. As pessoas gostam de vinho. O nosso trabalho é fazer com que o vinho faça parte do seu dia-a-dia.

O Adegga acontece em Lisboa e no Porto. Conseguem detectar diferenças no perfil dos consumidores de cada uma destas cidades?

Claramente. O Porto e Lisboa são completamente diferentes e o que estamos a querer fazer é que o evento do Porto seja feito para as pessoas do Porto. É uma audiência de certa forma mais exigente pela proximidade que tem, por exemplo, aos produtores do Douro. É uma audiência que exige que a qualidade dos produtores seja de facto muito elevada. Isso nota-se relativamente a Lisboa, onde, se calhar, há uma audiência com um nível de estrangeiros mais elevada, que não são tão exigentes a esse nível mas que, por outro lado, querem uma maior variedade de vinhos.

O que levou um engenheiro (André é formado pelo Instituto Superior Técnico) a trocar algoritmos por taninos?

A ideia do Adegga surgiu de um livro que explicava como é que a Internet tinha mudado o mundo dos filmes e da música, com o iTunes, com o Netflix ou com a Amazon. Aquilo que me apercebi ao ler o livro é que o vinho tem muitas das características destes produtos. É um produto em que existe um número de referências infinito e a maior parte dos produtores de baixas produções têm dificuldades em chegar aos produtores. Foi daí que nasceu a ideia do Adegga: fazer com que esses produtores possam chegar a um mercado que quer comprar.

Nesta evolução definiu um gosto especial por um vinho, por um produtor ou por uma região? Ou é razoavelmente ecléctico?

Sou bastante ecléctico. Gosto de vinhos de todo o mundo, gosto de ser surpreendido por vinhos de regiões que não conheço e sou tão capaz de beber um clássico de Rioja como um vinho moderno da Califórnia e acabar a refeição com um Porto. Sempre com um Porto.