Crítica

O colonialismo desmembrado

Como nos precedentes filmes de Martel, tudo se passa um nível “teórico”. O filme, esse, nunca arrisca o desmembramento, nunca perde o controlo sobre a sua racionalidade.

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Com Zama, o cinema de Lucrécia Martel entra de forma explícita no domínio dos “estudos coloniais”. A primeira sequência, com o protagonista espanhol, representante da Coroa, a ser perseguido na praia pelas mulheres “nativas” que espiava, instaura o jogo: quem olha quem, quem, de facto, domina quem? E a partir daí o filme é a história do pobre Zama, colonizador de bom e ingénuo coração, personagem-metáfora, perdido nesse cruzamento de olhares que Martel exprime a cada enquadramento, rumo à dissolução ou — para sermos literais — ao desmembramento.

Como nos precedentes filmes de Martel, tudo se passa um nível muito “teórico”, quer dizer, em perfeita justaposição das imagens e das ideias que elas carregam. O filme, esse, nunca arrisca o desmembramento, nunca perde o controlo sobre a sua racionalidade nem sobre a sua “consciência histórica”, e é porventura por isso que, no seu olhar sobre o protagonista, a compaixão é sempre ultrapassada pela ironia, por uma distância reflectora e “exemplar”. Tudo é, portanto, completamente seguro, bem mais confortável do que provavelmente seria o propósito de Martel. E nada como acontecia no filme que mais vontade dá de aproximar deste, a derradeira e muito conradiana ficção de Chantal Akerman, A Loucura de Almayer, que de forma menos “legível” mostrava, mutatis mutandis, a mesma história, a do colonialismo a dissolver-se na atmosfera e na natureza colonizadas.