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Megafone

Dividir para conquistar ou o estado da informação nos dias de hoje

Também não buscamos contínua e persistentemente informação de qualidade. Ao aceitarmos a televisão (das 19h às 23h) e as publicações mais populares como fonte quase exclusiva de informação, ficamos à mercê de certos grupos de comunicação

Todos queremos e fazemos por ser únicos, irrepetíveis, seres auto-suficientes e auto-determinados que conhecem o mundo o suficiente para fugirem à normalidade. Essa normalidade, característica repugnante que fere a sociedade e a nivela por baixo, mas só os outros (claro!). Essa normalidade que é o obstáculo à real evolução da espécie, à paz no mundo, à sustentabilidade das energias alternativas, ao fim da explorações animais, ao fim da fome e da guerra, a tantas outras coisas presentes nos últimos discursos da Miss Universo.

É que nós, enquanto espécimes únicos, já ultrapassámos o Facebook, o Vine e o Snapchat (tendo a certeza certezinha que a rede do Zuckerberg vai ter o mesmo fim, real de uma e anunciado da outra), andamos pelo Instagram a ver e a mostrar o mundo como ele é (os filtros só ajudam, não têm mal nenhum, nem desvirtuam a nossa visão, especialmente em modo selfie). Sim, porque não somos como “eles”… não somos meramente normais, temos a nossa identidade!

Ironias e sectarismos de Geração X, Y e Z à parte, bem como as suas motivações pessoais e profissionais, está na altura de concordar que são estas três faixas etárias que têm o futuro nas mãos, que têm de conhecer e saber bem para poder agir melhor, numa altura em que o excesso de informação se configura mais como factor de distracção do que de transferência de conhecimento, especialmente para quem não souber fazer a recolha, consulta e selecção.

À distância, as guerras na Síria e nos países onde anda o ISIS, a migração e massacre dos rohingya, a relação da Coreia do Norte com a do Sul e os EUA, as eleições em Cuba, na Turquia, os défices democráticos na América Latina e em meia África e até o Brexit são temas que conhecemos e que somos capazes de discutir como os comentadores profissionais discutem as “novelas futebolísticas” (que, com ou sem VAR, são sempre polémicas e sem conclusão à vista), mas sem que possamos atestar quanto à qualidade e grau de confiança nas fontes em que nos baseamos. O facto é que não temos fontes amplas e fidedignas de informação no mainstream.

Não temos fontes que, repetidamente, não estejam sujeitas às pressões orçamentais que lhes permitam noticiar, discutir, argumentar livremente sobre os temas que realmente podem influenciar e “empurrar o mundo” para a frente e com conhecimento de causa; rapidamente  e por falta de tempo de antena em horário nobre — esquecemos as três centenas de raparigas raptadas pelo Boko Haram, como esquecemos os Panama Papers e a Mossack Fonseca, não porque tal não seja interessante e importante, mas porque não serve exactamente o propósito de quem os noticia (o caso dos Panama Papers é gritante, até porque havia jornalistas portugueses no International Consortium of Investigative Journalists, o grande responsável pela investigação) e acabam por deixar de ser foco de investigação e acompanhamento; por acaso (ou não), houve poucas ou nenhumas referências ao anúncio do fecho da empresa, feito há pouco mais de um mês.

O facto é que, por consequência, também não buscamos contínua e persistentemente informação de qualidade. Ao aceitarmos a televisão (das 19h às 23h) e as publicações mais populares (formato papel e Internet) como fonte quase exclusiva de informação, ficamos à mercê de grupos de comunicação que encerram em si o ciclo de informação e publicidade, estreitando o mais possível o espectro noticioso e informativo do que nos apresentam.

Por isto mesmo é que se tornam possíveis os fenómenos de condicionamento da opinião pública — onde são exemplos maiores a eleição presidencial americana de 2017 ou o referendo que originou o processo de saída do Reino Unido da União Europeia —porque estas plataformas, tal como o YouTube ou o Spotify, aparentam ser agentes de democratização, mas são precisamente o oposto, devido aos algoritmos que as regem e dão grande ênfase aos conteúdos que geram mais acessos — ora pela simples popularidade gerada pela cultura urbana, ora pela presença permanente de conteúdos pagos.

Por isso também é que se discutem ad eternum os meandros e bastidores do futebol, sem se investir um tempo relevante (e útil) a falar do desporto em si, havendo cada vez mais quem saiba quantos penalties foram marcados injustamente (ou ficaram por marcar) do que como se joga o jogo, qual é a táctica e por aí fora. Já nem falo de outros desportos. Bem, muito menos de outras actividades socioculturais.

A visão actual até é distópica, mas não é desesperada; pelo contrário, tem a mudança ao nosso alcance. Basta consultar a página Wikipedia: Current Events para ter a certeza que há soluções, em permanente mudança e evolução. Indo por aí fora, temos o The Intercept, o FiveThirtyEight, entre vários outros, olhando permanentemente para o futuro e para a mudança de paradigma que tem de ocorrer e que já é hoje objecto de alguns projectos, como o Civil, plataforma baseada em tecnologia blockchain e que será um mercado aberto de conteúdos para jornalistas e cidadãos.

Há 1001 meios e iniciativas para sermos nós mesmos, mas, é mesmo verdade, isso dá trabalho, é incómodo, obriga-nos a sair da zona de conforto e a procurar alternativas que nos obriguem a questionar, a aprender e reaprender, no sentido que Alvin Toffler explicou tão bem: “Os iliterados do séc. XXI não serão os que não sabem ler, mas sim o que não souberem aprender, desaprender e reaprender.” Somos únicos, certamente, mas estaremos tão isolados e divididos, ao ponto de sermos tão fáceis de condicionar e conquistar? Não pode ser. Não pode, mesmo.