Corpos de soldados mortos na Guerra Civil espanhola começaram a ser exumados

Os restos mortais estão sepultados no Vale dos Caídos, monumento mandado construir por Franco e onde o ditador também está sepultado. A exumação é vista como uma vitória pelas famílias dos soldados.

Vale dos Caídos, a 50 quilómetros de Madrid
Foto
Vale dos Caídos, a 50 quilómetros de Madrid REUTERS/Paul Hanna

Os trabalhos iniciais de exumação dos corpos de quatro homens, mortos durante a Guerra Civil espanhola, começaram esta segunda-feira. Os corpos estão sepultados no Vale dos Caídos, um monumento franquista a 50 quilómetros de Madrid. A recuperação dos restos mortais marca o fim de uma longa batalha judicial entre as famílias dos soldados ali sepultados e as entidades que gerem o monumento.

Há pelo menos 33 mil soldados enterrados no mausoléu do Vale dos Caídos – todos eles vítimas da Guerra Civil Espanhola, conflito que opôs as forças leais ao general Franco às tropas republicanas espanholas. Também é no Vale dos Caídos que se encontra sepultado o corpo de Franco e de José Antonio Primo de Rivera, fundador do partido fascista Falange – o que o torna um local de culto para os movimentos de extrema-direita espanhóis.

O Património Nacional, entidade gestora do Vale dos Caídos, e o prior da abadia do recinto têm estado a atrasar a exumação dos corpos, que se arrasta desde 2012. As famílias de quatro soldados – dois deles franquistas, Juan Gonzaléz Moreno e Pedro Gil Calonge, e dois republicanos, Manuel e Antonio Lapeña –, só conseguiram levar a sua avante através de uma ordem judicial.

“Hoje abre-se um caminho importante é que muitas outras pessoas possam fazer o mesmo”, disse Purificación Lapeña, neta de Manuel Lapeña. O seu avô e o irmão, Antonio Lapeña, foram executados pelas forças franquistas e enterrados numa vala comum no Vale dos Caídos, onde estão também dezenas de milhares de corpos não identificados.  

“É um acontecimento histórico, e pela primeira vez a sociedade espanhola vai ser testemunho da entrada na maior vala do mundo, dentro do Estado de Direito. Se tudo correr bem, vai culminar num enterro digno, de acordo com as suas crenças e as suas religiões”, assinalou o advogado Eduardo Ranz que representa as quatro famílias envolvidas no processo, citado pelo El País.

Há pelo menos oito famílias com pedidos semelhantes em tribunal. E, como salienta o advogado, não é uma questão “nem de direita nem de esquerda”: “O que nos une a todos é o mesmo caminho, o humanitário. Primeiro disse-o um juiz, depois todos os partidos, que se mostraram a favor da exumação no Senado”, recorda. 

Só o responsável religioso pelo espaço, prior Santiago Cantera, é que não concordava. Alegando que não se trata de um cemitério público, mas religioso, opôs-se à recuperação dos restos mortais durante anos. Foi forçado a ceder. Os trabalhos preliminares de exumação começaram hoje, mas as famílias, que se juntaram à porta da Basílica, não puderam entrar no recinto. De acordo com fonte do Patrimonio Nacional, isso aconteceu porque a Basílica “encerra todas as segundas-feiras do ano”. “Sabiam perfeitamente que não podiam entrar. Nem que tivessem avisado com tempo. Hoje não há nenhuma exumação”, esclarece a entidade em comunicado. Os trabalhos iniciados hoje são para saber “como está a integridade estrutural da capela”. A instituição acrescenta ainda que esta fase preliminar é importante para que se possa proceder à exumação: “Os restos não estão arrumados em caixas, houve derrocadas, traslados, podem estar misturados uns com os outros e identifica-los é muito difícil. Se estiverem misturados há que pedir autorização às famílias dos outros.”

O monumento foi mandado construir por Franco, que liderou Espanha desde 1939 até à sua morte, em 1975. Para muitos espanhóis, o local é controverso, por ser visto como um monumento de celebração da vitória de Franco sobre as forças republicanas. Foram os prisioneiros republicanos, que se opuseram ao ditador, que foram forçados a construir o monumento.

Dadas as dificuldades, a neta de Lapeña diz que se dá “por feliz” se conseguir levar os seus familiares a Villarroya de la Sierra, em Saragoça, de onde são provenientes. “Quero sobretudo que se saiba a verdade. Não deviam estar ali, junto ao ditador, numa basílica, porque não eram crentes”, disse Purificación Lapeña, ao El País.