Editorial

Pensar antes de experimentar

Os valores humanistas da Europa, aplicados no quadro europeu, serão o que nos poderá distinguir e de alguma forma proteger de um futuro sem regras.

Portugal vai começar a testar veículos sem condutor. É uma notícia de saudar, porque coloca o país na linha da frente de uma tecnologia que se vai impor muito rapidamente — e poucas inovações tecnológicas terão aplicações tão objectivamente benéficas e tão facilmente aplicáveis. A transição para os veículos sem condutor é inevitável porque as melhorias que irão trazer são muito relevantes. A redução de acidentes será muito acentuada, a eficiência nas estradas será muito maior e será também de esperar uma redução de poluição.

É importante notar que este é um dos casos em que o período de transição será o mais dramático: enquanto circularem nas estradas carros sem condutor e carros com condutor, o potencial de acidentes é muito maior. A máquina pode comunicar com outras máquinas, mas não pode comunicar nem antever os comportamentos dos imprevisíveis humanos. Mas nenhum destes aspectos positivos deve distrair-nos do essencial: fazer estes testes sem acautelar os riscos é não só desastrado como muito perigoso. E aqui entra o papel dos legisladores e dos agentes políticos, que não entendem o que está em causa.  

Quem verifica a programação destes veículos, para garantir que cumprem normas éticas de segurança que protegem o elemento humano? Quem valida os seguros necessários para estes veículos e quem se responsabiliza por acidentes? E quem dá a cara em caso de falha no sistema? Quem assegura a privacidade dos muitos dados gerados pelo sistema? Quem previne e se responsabiliza em caso de pirataria?

Acima de tudo, quem paga o custo dos milhares de desempregados que estas tecnologias vão implicar? Uma tecnologia de veículos autónomos que se imponha no prazo de uma década vai provocar desemprego em massa: condutores de veículos de mercadorias serão os primeiros, a seguir os motoristas de táxi e plataformas similares, junto com os condutores de transportes públicos e restantes profissionais do meio. Quem assegura a formação dos profissionais que tenham reconversão e quem paga as reformas antecipadas e os subsídios de desemprego dos restantes? 

Seria bom acautelar tudo isto, antes de nos precipitarmos em experiências. Mas seria bom fazê-lo no quadro europeu, de forma sustentada, garantindo margem para inovação, mas também de protecção para os cidadãos que vão ficar para trás no caminho da evolução tecnológica. Os valores humanistas da Europa, aplicados no quadro europeu, serão o que nos poderá distinguir e de alguma forma proteger de um futuro sem regras. 

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