Opinião

As figurinhas tristes (ou não) que fazemos com o vinho

A saúde não é só orgânica e o vinho, além de ajudar a exaltar o prazer da mesa, pode ter outras dimensões metafísicas: alegrar-nos e fazer-nos esquecer, nem que seja por pouco tempo, as dificuldades e os maus pensamentos.

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Anda um vídeo na Internet com uma neurocientista a embebedar-se e a explicar ao mesmo tempo os efeitos nefastos do vinho no nosso cérebro. É um vídeo engraçado, mas desnecessário. Até mesmo Pasteur, que considerava o vinho a mais sã das bebidas, se dispensava do óbvio: o vinho tem álcool e o álcool é tóxico. Queima, mata. Quando ouvimos os defensores dos ditos vinhos naturais falar no mal que os sulfitos fazem até dá vontade de rir. Então e o álcool? 

O vinho, simplificando, é uma bebida tóxica. Na verdade, é tão tóxica como quase tudo o que bebemos e comemos, se o fizermos em excesso. A questão essencial é esta: excesso. Na medida certa, há milhares de outros médicos e cientistas que nos garantem que o vinho faz bem aos olhos, à pele, à inteligência, ao desempenho sexual e a tudo o que se possa imaginar. Acima da dose, faz mal também a tudo. Fará?
A saúde não é só orgânica e o vinho, além de ajudar a exaltar o prazer da mesa, pode ter outras dimensões metafísicas: alegrar-nos e fazer-nos esquecer, nem que seja por pouco tempo, as dificuldades e os maus pensamentos. Não, não estou a defender o alcoolismo. Estou a defender o vinho, a dar-lhe mais uma hipótese neste tempo tão asséptico e tão politicamente correcto.

Uma bebedeira, simples como a da neurocientista do vídeo, basta para percebermos o extraordinário efeito do vinho. Os seus resultados variam de pessoa para pessoa, já se sabe. Somos todos diferentes. Eu tinha um tio que não podia beber acima da conta. Era certo e sagrado que arranjava confusão. Tinha “mau vinho”. Já o meu pai era o oposto. Ficava ainda mais cordato do que já era e, chegado a casa, dava-lhe para rezar. Numa ou noutra vez, dizia que tinha avistado Nossa Senhora de Fátima pelo caminho. 

A mim, dá-me para chorar. Não no fim de linha. Só me embebedei a sério duas vezes na vida e em ambas acabei no hospital. Excesso de juventude. Numa delas, exagerei no rum e na Coca-Cola, mistura que nunca mais quis experimentar. Na outra devo ter exagerado em tudo. 

A bebedeira não é uma coisa boa, vamos admitir. Só interessa para o currículo. Do que eu gosto é da antecâmara da embriaguez. Daquele momento, e desses já tive muitos, em que ainda temos o domínio da situação e em que tudo ganha um outro sentido. É nessa altura que pensamos a sério nas pessoas de quem gostamos, que decidimos ir em frente com o projecto sempre adiado (como fazer a viagem da nossa vida), que deixamos de temer os obstáculos e perdemos os medos que não nos deixam viver em plenitude. É o momento do sonho, da paz e do amor. 

O autor italiano Edmondo de Amicis (1846-1908) escreveu um livro, a partir de uma conferência que fez em Turim, em 1880, no qual explica muito bem as repercussões do vinho na inteligência, na imaginação e nos sentimentos dos bebedores. Chama-se “Os efeitos psicológicos do vinho”. Descontadas as circunstâncias da época, é um livro que detalha com minúcia e alguma graça a progressão da embriaguez e as suas consequências, como “aquela alteração crescente dos sentimentos e das ideias, aquela contínua sucessão de diversos estados de consciência (…), da serenidade tranquila que se segue aos primeiros tragos à exaltação ardente e tumultuosa dos últimos brindes”. 

Até nos deixarmos vencer pelo vinho e pelo sono, todos nós passamos por momentos de alegria, euforia, paixão, introspecção, tristeza. Eu, pelo menos, revejo-me nesta sequência. Por vezes, após a tristeza, retorna a alegria e a euforia — e com elas me deito. Essas são as melhores noites de copos. Mas, por regra, o que acaba por ficar é o momento da saudade — e a saudade é triste. É quando me aproximo das lágrimas.
Vinho e saudade andam de mãos dadas. Aliás, um dos mercados importantes para os produtores de vinho é o chamado “mercado da saudade”, formado pelas comunidades de emigrantes. Mas não é bem desta saudade que estou a falar. É das “saudades” que o vinho desperta. 

O poeta amarantino Teixeira de Pascoaes concebia a “Saudade” como uma conexão entre a Lembrança e a Esperança, uma espécie de sincretismo sentimental: a lembrança associada ao passado e a esperança projectada no futuro. A primeira representa a face espiritual e dorida e a segunda é o elemento activo e criador. Nesta concepção, a saudade não tem o mesmo significado de melancolia ou nostalgia. A melancolia, como sublinha Eduardo Lourenço, “visa o passado como definitivamente passado e, a esse título, é a primeira e mais aguda expressão da temporalidade, aquela que a lírica universal jamais se cansará de evocar”; a nostalgia “fixa-se num passado determinado, num lugar, num momento, objecto de desejo fora do nosso alcance, mas ainda real ou imaginariamente recuperável”. A saudade, como sentimento-ideia, tem algo de melancolia e de nostalgia, mas é mais labiríntica. 

Vendo bem, o sentimento de tristeza que sinto em certas noites de copos ou quando bebo um vinho que me traz memórias gostosas é mais melancolia. A minha “saudade” projecta-se quase sempre apenas no passado e no que já não é recuperável: as vivências rurais, os familiares e os amigos já desaparecidos, o tempo da inocência (a verdadeira felicidade) ou apenas o vinho que nos ficou na memória para sempre. O pouco de criativo que possa existir neste sentimento é a vontade de estar ligado à terra, de produzir uvas e vinho, por tributo e em memória da vivência agrícola que, enquanto adolescente, construí junto da minha mãe, mesmo quando retirar água do poço com um “gravano” para regar a horta, arrancar batatas ou desbastar um campo de nabiças era um castigo. O melhor era sempre a merenda comida no campo, com o pão cozido em forno de lenha, as azeitonas, o presunto, a chouriça de sangue seca, a omelete de salpicão. Hoje, até do que não gostava de fazer, sinto saudade. Bom, é melhor parar por aqui, para não ficar melancólico.