A pintora daqueles animais aristocratas que lhe enchem o Instagram (e os cafés)

Num cruzamento entre a crise e o Largo do Rato, Catarina Rosa reencontrou a pintura. Anos depois nascia o Tail to Tail, projecto de pinturas hiperrealistas que juntam animais à tradição do retrato burguês e nobre, que o acaso levou aos cafés Nicolau e Amélia, mas também à La Paparrucha, para delícia do director de campanha de Trump, e às casas de particulares.

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Nuno Ferreira Santos
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Amélia Rui Gaudêncio

Sabe aquelas pinturas de um cão vestido como um lorde do século XVIII que começaram a aparecer nos cafés da moda de Lisboa? Ou de alguns dos restaurantes históricos da cidade? E que lhe surgem no feed do Instagram, como aquela cadela de cabelo de cor de unicórnio? Que rivalizam com os néones que dizem “Amélia”, com as panquecas coloridas do Nicolau ou com os clientes célebres de La Paparrucha? São fruto do projecto Tail to Tail, que a designer e pintora Catarina Rosa começou num cruzamento entre o sonho de adolescente, a crise da troika e o Largo do Rato.

Dois dos cafés mais trendy de Lisboa, tão visitados por portugueses quanto por turistas, tão fotografados quanto elogiados quanto aos seus lanches e brunches, têm a sua identidade cruzada com a do Tail do Tail. Mas poucos o sabem. Nicolau, um salsicha reluzente da Baixa, e Amélia, uma poodle elegante e vaidosa recém-chegada a Campo de Ourique, moram desde sempre nestes espaços que fazem parte de um lifestyle em que se come mesmo com os olhos. Puseram nas redes sociais de clientes e influencers o trabalho de Catarina Rosa, quadros hiperrealistas, antropomórficos e “um pouco surrealistas” em que os animais ganham uma dignidade desconcertante com as suas roupagens e pose tão nobres e a que chama economicamente “tails”.

O acaso, depois a necessidade e uma paixão antiga criaram o Tail to Tail, projecto que começou com encomendas de particulares, amigos e amigos de amigos e que dessa rede informal de passa-palavra a começou a colocar no circuito mais empresarial. “Queria ter seguido Pintura mas os meus pais acharam que eu teria de ter um patrono para ter um ordenado”, recorda no seu atelier na zona da Lapa. Acabou a estudar design no IADE. “Nunca mais pintei. Estava há dez anos a trabalhar em design gráfico, já tinha trabalhado em agências e na altura estava numa consultora onde era directora de marketing. Um dia, passei no Rato e vi o anúncio para aulas de pintura.” Foi aí que encontrou o mestre Vítor, de 80 anos, e foi devolvida à pintura. O cão de um amigo, perfeito e amado nas suas imperfeições, e os exercícios do mestre Vítor seriam o passo seguinte.

“Dava-me sempre umas paisagens, umas naturezas mortas, umas senhoras a passear à beira da água. Perguntei-lhe se podia escolher um tema - uma amiga de infância tinha uma pintura gigante à entrada de casa que era um cão vestido de senhora. Quando estava à espera dela, para irmos sair à noite, por exemplo, ficava ali horas a pensar ‘é só um cão’ e achava graça ao protagonismo do cão naquela casa tão linda.” O tema surgiu a par do aniversário do amigo que tinha um Boston Terrier hermafrodita, sem um olho e com insuficiência cardíaca. Pintou-o “vestido à Camões”.

Pouco depois um amigo viu aquele que seria o primeiro "tail" e encomendou um do “seu Boris". "Outro amigo pediu outro da sua cadela Sancha." Entretanto, surgiu a crise, entrou a troika e foi despedida. Criou uma imagem, um logo, no Instagram começaram a subir os seguidores, e num curso do Centro de Emprego uma amiga fê-la chegar às comemorações do 40.º aniversário do restaurante Laurentina – O Rei do Bacalhau. Pintou um bacalhau de manto, ceptro, coroa e ar sobranceiro. Outra amiga ligou-a ao dono do argentino La Paparrucha e a sua vaca homónima está nas paredes a chamar a atenção de futebolistas ou do director de campanha digital de Donald Trump, Brad Parscale, que se fotografou orgulhosamente com a Paparrucha de Catarina Rosa.

Quando a Fugas a visitou no seu atelier, terminava um de vários leões que já pintou a pedido de particulares, prendas de amigos ou familiares - alguns com inevitável temática sportinguista. A meio da conversa, entra em cena Olívia, a sua Boston Terrier de um ano, que simboliza agora aquilo de que mais gosta no seu trabalho. E que vem sobretudo do que faz para particulares, quando há um referente real, um amigo com patas, asas ou cascos. “O que acho mais interessante é a relação com os animais. Que é uma coisa que eu não tinha”, admite. “Aconteceu muitas vezes ir entregar quadros e as pessoas começarem a chorar. Tinha curiosidade de conhecer esta relação e acho que só comecei a honrar o que faço quando percebi o que sou capaz de dar às pessoas. Achava que o que eu fazia não era arte, não é nada de inovador. Isto é técnica e paciência”, diz sobre a minúcia milimétrica de cada pelo, escama ou brilho de jóia destes retratos de família alargada.

Há outras pessoas que fazem este tipo de trabalho, recorda, nomeadamente o belga Thierry Poncelet, “que faz restauro e que compra pinturas antigas e lhes põe cabeças de cães - a da casa da minha amiga era dele”. Mas o que “é importante é a reacção das pessoas ao recebê-las. As pessoas vêm o animal retratado e honrado”. Os clientes como a Elements Jewelry procuram-na também para ir procurar emoções - no Dia da Mãe, criou mães-patas, mães-galinhas, mães-corujas ou mães-leoas com jóias de estimação. Outros procuram o insólito - como o programa de Herman José, Nelo & Idália, que pôs vários no cenário há dois anos. O “gingão” Nicolau e a Amélia surgiram através da agência de design que trabalhou as suas identidades, a Obvius Design. A Amélia tinha um perfil claro: “Altiva, espampanante e um bocadinho mais senhora, umas orelhas rosa”. Um terceiro membro da família, o primo Basílio, vai morar em breve no Campo das Cebolas.

O Tail to Tail é um projecto jovem, com cerca de ano e meio, e as suas criações, que contam a sua própria história, são infinitamente mais famosas do que a sua autoria e que tem seguido um caminho traçado pela circunstância. As perguntas chegam de todo o lado, as encomendas só se concretizam depois de discutido o preço destas pinturas, todas diferentes nos seus tamanhos, pesquisa e detalhe, todas iguais na tinta acrílica e junção de bichos e traje histórico. Com preços a partir dos 900 euros e uma execução média de três semanas, tem pinturas em casas do Chiado ou de São Paulo, no Brasil.

Os seus “tails” têm uma dignidade inerente, mas nunca têm mãos. Só luvas. “Não posso pôr mãos de pessoas, o que é demasiado surreal, nem de animal, porque faz-me sempre lembrar o E.T. misturado com os peluches - parece que o animal está mascarado.” E não está, porque o vestido azul de Amélia com as suas pérolas e camafeu ao pescoço não é uma máscara, é mesmo a roupa da nova coqueluche dos cafés de Lisboa.

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