Percursos musicais em torno de Hieronymus Bosch nos Dias da Música em Belém

Castigos, culpas e graças divinas são os fios condutores de uma programação musical em forma de tríptico que tem este sábado a sua primeira etapa com o Festival Jovem, e que continua nos próximos dias 26 a 29. Oito sugestões para orientar as escolhas do leitor.

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Tentações de Santo Antão, do pintor holandês Hieronymus Bosch Rui Gaudêncio

O Festival Jovem, que decorre ao longo deste sábado no Centro Cultural de Belém (CCB) com a participação de cinco orquestras sinfónicas e de quatro escolas de música da área metropolitana de Lisboa, será a primeira etapa da 12.ª edição dos Dias da Música, cujo modelo de programação traz este ano várias novidades. Os concertos serão em menor número, mas em contrapartida deixaram-se de lado as temáticas demasiado abrangentes nas quais parece caber quase tudo para se optar por um percurso narrativo que envolve várias artes e ramos do conhecimento e que se estende também à restante programação do CCB nos meses de Abril e Maio.

O ponto de partida é o fantástico e perturbante universo do tríptico As Tentações de Santo Antão, de Hieronymus Bosch (ca. 1450-1516), um dos mais preciosos tesouros que hoje se guardam no Museu Nacional de Arte Antiga e uma das obras emblemáticas do visionário pintor holandês. Castigos, Culpas e Graças Divinas, “festival em forma de tríptico”, constitui assim o mote para a série de concertos que irão ter lugar entre os dias 26 e 29 de Abril, e que estará também presente nas propostas dos jovens músicos que tocam este sábado no CCB.

Nalguns casos, a temática proposta constituiu um desafio à imaginação, noutros, apenas um pretexto, mas no seu conjunto os percursos musicais são múltiplos e enquadráveis num mesmo fio narrativo. Na estrutura do programa, cada dia corresponde a um dos painéis do tríptico de Bosch. Depois da alusão à expulsão do Paraíso (com a oratória A Criação, de Haydn, no dia 26), seguem-se O Inferno e os Castigos, correspondente ao painel da esquerda (dia 27); Pecados e tentações terrenas, painel central (dia 28); e As graças divinas e a reconquista do Paraíso, painel da direita (dia 29). Ao longo desta viagem, poderemos revisitar obras do cânone da música ocidental, mas também repertórios raramente interpretados (ou mesmo desconhecidos) em Portugal. Aqui ficam algumas escolhas.

Festival Jovem
Danças Macabras
Orquestra Sinfónica Ensemble, Raúl da Costa (piano), Cesário Costa (direcção musical).
Dia 21, às 17h.
Criada em 2014, a Orquestra Sinfónica Ensemble reúne alunos das escolas de música do ensino particular e cooperativo e do ensino artístico especializado seleccionados entre mais de 300 candidatos. Com direcção musical de Cesário Costa, este agrupamento apresenta no Festival Jovem dos Dias da Música um programa sugestivo e ambicioso dedicado às Danças Macabras. Dele fazem parte o poema sinfónico Uma Noite no Monte Calvo, de Mussorgski, no qual se evoca um ritual de bruxas em vésperas do dia de S. João; e as exuberantes Danças Macabras de Liszt e de Saint-Säens. O jovem pianista Raúl da Costa será solista na virtuosística obra de Liszt. Com a participação de mais quatro orquestras sinfónicas e de várias escolas de música, o Festival Jovem constituiu uma óptima oportunidade para verificar o salto qualitativo que o ensino da música em Portugal tem dado nos últimos anos.

A Criação, de Haydn
Orquestra de Câmara Portuguesa, coro Voces Caelestes, Carla Caramujo, Thomas Allen, Peter Kellner, Ana Quintans, Wolfgang Holzmair (solistas), Pedro Carneiro (direcção).
Dia 26, às 21h.
Com um conjunto de solistas de alto nível, a Orquestra de Câmara Portuguesa (OCP), dirigida por Pedro Carneiro, interpreta a oratória A Criação, uma das obras mais admiradas de Haydn. Inspirada na Bíblia (Génesis e Salmos) e no Paraíso Perdido, de Milton, constitui uma extraordinária viagem musical entre o caos e a ordem, evocadora da criação do mundo, onde a tradição da oratória handeliana se cruza com o estilo sinfónico do compositor austríaco. Trata-se de uma aposta artística de peso que surge na sequência do sólido percurso que a OCP vem construindo desde 2007, mas que corre um perigo iminente. Conforme Pedro Carneiro declarou recentemente à Lusa, este poderá ser o último concerto da OCP, já que esta não foi abrangida pelo Programa de Apoio Sustentado às Artes (2018-2021). O concerto da Jovem Orquestra Portuguesa, ligada ao mesmo projecto, no Festival Jovem poderá igualmente ser o derradeiro pelos mesmos motivos.

A Trilogia das Barcas
Textos de Gil Vicente, música de Fernando Lapa. Sara Barros Leitão (adaptação, actriz), João Castro (actor), Toy Ensemble. 
Dia 27, às 19h30; dia 28, às 19h; dia 29, às 18h.
A Trilogia das Barcas, de Gil Vicente, composta pelo Auto da Barca do Inferno, pelo Auto da Barca do Purgatório e pelo Auto da Barca da Glória (apresentados em dias sucessivos), serve de base a um novo projecto, cujo resultado desperta grande curiosidade. A actriz Sara Barros Leitão (também responsável pela adaptação dos textos) e o actor João Castro darão voz às diferentes personagens, o compositor Fernando Lapa escreveu a música e o Toy Ensemble será responsável pela interpretação instrumental. A música e a dança eram elementos essenciais nas peças que Gil Vicente compôs para a corte e no teatro renascentista em geral, existindo vários estudos numa perspectiva histórica sobre esses repertórios musicais, frequentemente mencionados nas próprias peças teatrais. Mas uma releitura contemporânea constitui também um desafio aliciante.

Caim, ou O Primeiro Homicídio, de Alessandro Scarlatti
Ludovice Ensemble, Carlo Vistoli, Eduarda Melo, Fernando Guimarães, Joana Seara, Pascal Bertin, Hugo Oliveira (cantores), Miguel Jalôto (direcção). 
Dia 28, às 19h.
A oratória Caim, ou o primeiro homicídio, com música de Alessandro Scarlatti e libreto do cardeal Pietro Ottoboni, eminente mecenas da música e das artes, foi estreada em Veneza em 1706, constituindo uma das mais notáveis criações do grande compositor italiano. As gravações de Fabio Biondi (1993) e René Jacobs (1998) trouxeram de volta aos melómanos do nosso tempo, após mais de dois séculos de esquecimento, esta partitura de grande riqueza e poder dramático inspirada na trágica história de Caim e Abel, narrada no Livro do Génesis. O Ludovice Ensemble, dirigido por Miguel Jalôto, e um conjunto de solistas com créditos firmados na música barroca darão a ouvir pela primeira vez em Portugal esta obra de Alessandro Scarlatti, na qual Deus e Lúcifer também têm voz.

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Ludovice Ensemble Tomás Monteiro

O Concerto dentro de um ovo: música flamenga no tempo de Bosch
Orlando Consort. 
Dia 28, às 19h.
Criado em 1988, o Orlando Consort é um agrupamento vocal masculino especializado na música dos séculos XII a XV, tendo igualmente colaborado em projectos na área do repertório contemporâneo e do jazz. Os programas temáticos são habituais na sua carreira, pelo que a sua participação nos Dias da Música não podia deixar de reflectir essa tendência. A cidade holandesa de Hertogenbosch, onde Bosch passou a maior parte da vida, e os compositores que aí trabalharam (dos quais se destaca Pierre de La Rue) ditam uma parte das escolhas musicais, as quais incluem também peças de Isaac, Ockeghem e Josquin des Prez. O título do programa – O concerto dentro de um ovo – remete para um quadro que se encontra no Palais des Beaux Arts, em Lille, que se julga ser uma cópia de um trabalho perdido de Bosch. Sentado dentro de um ovo, um grupo de “músicos tolos” dá um concerto, interpretando aparentemente uma peça de Thomas Crecquillon.

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The Orlando Consort dr

Veneza e os limites da moralidade
Os Músicos do Tejo, Clint van der Linde, Arthur Filemon, Frederico Projecto e outros (cantores), Luísa Cruz (narradora), Marcos Magalhães (direcção). 
Dia 28, às 21h.
Os Músicos do Tejo propõe com este programa trazer para a ribalta muitos dos elementos “revolucionários” da época renascentista, tendo como principal palco a cidade de Veneza. Conforme Marcos Magalhães e Pedro Braga Falcão escrevem nas notas de apresentação do projecto, “a sua independência pelos mares, a sua liberdade e libertinagem, o seu fervor carnavalesco tão longe dos dogmas de Roma são factores que deram ensejo a novos modelos de exploração artística e literária.” Mais do que na relação texto-música, aposta-se neste espectáculo na relação contexto-música através das obras de compositores como Monteverdi, Orlando di Lasso, Stradella, Cipriano de Rore, acompanhadas pela leitura dramatizada de textos da época com narração de Luísa Cruz.

A reconquista do Paraíso
Das Paradies und die Peri, op. 50, de Schumann
Orquestra XXI, Coro Gulbenkian, Dinis Sousa (direcção). 
Dia 29, às 19h.
Apesar de ser uma das mais belas obras de Schumann, Das Paradies und die Peri, para coro, solistas e orquestra, raramente faz parte das temporadas de concertos. A meio caminho entre a ópera e o ciclo de canções, trata-se de uma oratória inspirada pelo poema de Thomas Moore, Lalla-Rookh, no qual se conta a história de uma bela criatura, Peri, que é expulsa do Paraíso. Para regressar terá de encontrar na Terra aquilo que é mais querido aos deuses. Uma rara oportunidade para ouvir esta expressiva e imaginativa composição, seleccionada pelo maestro Dinis Sousa para a mais recente digressão da Orquestra XXI, um projecto que desde 2013 reúne jovens músicos portugueses residentes no estrangeiro.

Sete Pecados Mortais e as Quatro Últimas Etapas
La Reverdie. 
Dia 29, às 18h.
O ensemble La Reverdie é uma das grandes referências na interpretação da música da Idade Média, contando com uma notável discografia. Ao longo da sua carreira, este grupo italiano fundado em 1986 por dois pares de irmãs (Claudia e Livia Caffagni; Elisabetta e Ella de Mircovich) apresentou-se várias vezes no Festival Internacional de Música da Póvoa de Varzim e noutros festivais portugueses, mas nunca actuou em Lisboa. Para além da qualidade artística, o seu êxito deve-se também aos fascinantes programas temáticos que constrói. Nestes Dias da Música propõe um percurso pela música dos séculos XIII e XIV, que parte do quadro Os Sete Pecados Mortais, de Bosch, até chegar ao círculo do Paraíso, e que inclui trechos musicais anónimos e composições de Guillaume de Machaut, Tommaso da Celano e Roberto Padoin.

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La Reverdie dr