Comentário

Quando Cuba era um “actor planetário”

O destino do regime de Maduro é hoje em dia o grande fantasma de Havana.

Cuba era uma ilha pequena para as ambições de Fidel. Do princípio ao fim, o percurso do castrismo está ligado a um desígnio internacionalista. A entrada dos seus guerrilheiros em Havana, no dia 1 de Janeiro de 1959, teve logo um largo impacto, na América Latina e no mundo. Anos mais tarde, com Angola, Cuba passará a ter um destino planetário.

Os “barbudos” traziam consigo uma marca nacionalista e anti-imperialista, mas também uma sedutora “estética revolucionária”. Emergiu o mito de Fidel e, a seguir, a transformação de Che Guevara num ícone crístico. Havana logo se tornou no destino predilecto das peregrinações revolucionárias: intelectuais, políticos e jornalistas de todo o mundo. Apesar da violência dos fuzilamentos que se seguiram à vitória, Fidel reivindicava, com sucesso, uma “democracia humanista”.

Na América Latina irrompia a mensagem de que a revolução era possível. Abria-se uma brecha entre o “modelo cubano” e a ortodoxia “fatalista” dos partidos comunistas. Um sociólogo marxista brasileiro, Emir Sader, afirmou que a influência da revolução cubana na América Latina foi maior do que a da revolução russa sobre a Europa. Passe o exagero. Mas nada será como dantes.

O exemplo cubano parecia dar uma resposta à ânsia de liberdade de quase toda a região. E Havana logo decidiu exportar a sua revolução, apoiando todos os movimentos guerrilheiros, existentes ou a criar. O Che inventará mais tarde uma palavra de ordem dirigida à Américas, Ásia e África: “Criar dois, três, muitos Vietnames.”

Fiasco nas Américas

A resposta americana, depois do fiasco da Baía dos Porcos (1961), foi a Aliança para o Progresso, de John Kennedy, um programa de desenvolvimento. Depois, os EUA passam a armar os aliados, a fomentar ditaduras militares: Brasil, Chile, Argentina...

As guerrilhas espalham-se um pouco por toda a parte, da Venezuela à Bolívia, da Colômbia à Guatemala. Mas o modelo “foquista” cubano — instalar um grupo guerrilheiro em meio camponês para, a seguir, levantar as massas — falha em toda a parte. A morte do Che na Bolívia consagra o fim do “foquismo”. Falham também as guerrilhas urbanas — os Tupamaros do Uruguai, os Montoneros (peronistas) da Argentina ou o MIR chileno. O grande sucesso será a Nicarágua após a queda da tirania da família Somoza, em 1979. Em contraponto, a experiência mais ambiciosa e trágica foi a do Chile de Allende — o socialismo em democracia.

Sucesso em Angola

O “destino planetário” do castrismo não se realizará nas Américas mas em Angola. A África esteve sempre no “radar” de Castro. Logo em 1961 enviou um barco com armas à Frente de Libertação Nacional da Argélia. Ajudou, com armas e conselheiros, o PAIGC na Guiné-Bissau. O Che esteve no Congo, em 1964, a tentar organizar uma guerrilha anárquica. Desistiu.

Em 1975 surge a oportunidade angolana. O MPLA, ainda antes da independência (11 de Novembro), expulsa de Luanda a UNITA e a FLNA. Esta contra-ataca pelo Norte, enquanto um coluna da UNITA, com tropas sul-africanas, avança pelo Sul. A situação é desesperada. Fidel acorre ao apelo de Agostinho Neto. Desencadeia a “Operação Carlota”, ainda em Novembro, uma gigantesca ponte aérea transportando armas e soldados, em aviões soviéticos. Luanda é salva. Até Abril de 1976, desembarcaram em Angola mais de 30 mil cubanos.

Mas a guerra civil reacende-se. Em 1987-88 tem lugar a maior batalha em África desde a I Guerra Mundial — a do Cuíto Cuanavale. O MPLA quer dominar o largo território controlado pela UNITA no Sul. Os sul-africanos não podem tolerar a sua presença. Entre Novembro de 1987 e Março de 1988, o MPLA e os cubanos enfrentam as forças da UNITA e da África do Sul, num combate “clássico”, com tanques, artilharia e aviação. O resultado é um impasse que acaba por favorecer Luanda. Para os sul-africanos é um fracasso com consequência: a independência da Namíbia.

A decisão da “Operação Carlota” foi cubana, não russa. É uma questão ainda polémica entre historiadores. Moscovo terá começado por se mostrar relutante. Mas Fidel não agiu como um peão de Moscovo. Sempre se mostrou capaz de escolher os seus terrenos de intervenção e de forçar a mão aos soviéticos. Cuba tinha um elevado interesse: estar, pela primeira vez, no centro de um processo político internacional (para a cena diplomática da crise, ver Tiago Moreira de Sá, Os Estados Unidos e a Descolonização de Angola, 2011).

É o auge internacional de Cuba, na véspera da queda do império soviético e do fim da ajuda económica. Castro inventou ainda outra tábua de salvação, Hugo Chávez, que promoveu a “revolucionário” e ajudou a criar o bloco bolivariano.

Controla a Venezuela e dela recebe o petróleo. O destino do regime de Maduro é hoje em dia o grande fantasma de Havana.