Tesla acusada de tentar silenciar acusações de racismo

Trabalhar para a Tesla não foi o que DeWitt Lambert esperava. Um e-mail tornado público indica que a empresa tentou comprar o silêncio do funcionário. Mas a construtora de carros eléctricos devolve as acusações e diz-se vítima de extorsão.

A Tesla não queria que a história de Lambert chegasse a mais pessoas
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A Tesla não queria que a história de Lambert chegasse a mais pessoas Reuters/THOMAS PETER

A Tesla está a ser acusada de pagar a um trabalhador negro para este se manter em silêncio sobre situações de racismo que o funcionário afirma ter sofrido na empresa. DeWitt Lambert foi contratado pela empresa em Junho de 2015, para trabalhar numa fábrica de automóveis em Freemont, EUA, mas o ano que passou na Tesla não foi o que esperava. Durante meses, diz, foi vítima de comentários racistas e de vídeos ofensivos.

Sem ajuda por parte dos supervisores, Lambert apresentou queixa em tribunal em 2016. A empresa, porém, não queria que o funcionário contasse a sua história a jornalistas. “Estamos dispostos a pagar ao Sr. Lambert, mas só se resolver este assunto sem que exista atenção da imprensa”, lê-se num e-mail, partilhado esta semana com o jornal britânico The  Guardian, onde os valores discutidos foram omitidos. A mensagem surge assinada por Todd Maron, responsável jurídico da Tesla, que sublinhava: "Se existir atenção da imprensa, não há acordo."

A Tesla confirma a existência do e-mail mas afirma que "não é uma tentativa de comprar o silêncio de um funcionário". Pelo contrário, a empresa diz que Maron estava a responder a um contacto do advogado de Lambert, Larry Organ, em que este pedia dinheiro a troco do silêncio do funcionário.

"O advogado do senhor Lambert disse que a Tesla tinha de pagar 950 mil dólares ao senhor Lambert ou ele viria a público contar a história à imprensa e apresentar um processo", diz ao PÚBLICO Dave Arnold, do gabinete de imprensa da Tesla.

"Essa exigência era mais que exagerada e totalmente injustificada, tendo em conta os factos, e equivalia a um acto de extorsão, pelo que o nosso advogado propôs um acordo que seria justo. No entanto, o advogado do senhor Lambert continuou a insistir no pagamento de 950 mil dólares, caso contrário provocariam uma tempestade mediática", acrescenta.

Ao PÚBLICO, o advogado de Lambert desmentiu essa versão dos factos: "Inicialmente, Maron parecia até ter remorsos. Estávamos a discutir uma forma de falar sobre o caso publicamente, porque o meu cliente tinha sido entrevistado por uma estação de televisão para uma peça sobre racismo," disse Larry Organ (que também não revela os valores discutidos). "A história já era pública, eles não queriam era mais atenção."

A peça televisiva, de que Lambert não desistiu, acabou por ser difundida no canal norte-americano NBC Bay Area, em Março de 2017, e motivou trabalhadores na mesma situação a exporem as suas histórias. Owen e Demetric Diaz, pai e filho, são exemplos de outros trabalhadores a processar a Tesla (a história foi contada recentemente numa entrevista à Bloomberg).

"Depois de a entrevista com o meu cliente ter sido publicada, a atitude da empresa mudou. Deixaram de pedir desculpa e passaram a atacar o meu cliente", disse o advogado.

A Tesla tem atravessado várias controvérsias nos últimos tempos. As autoridades norte-americanas têm-se queixado da dificuldade da empresa em partilhar informação sobre o recente acidente fatal com um carro autónomo Tesla Model X que vitimou Walter Huang, de 38 anos.

Num comunicado sobre o acidente do dia 23 de Março, a empresa frisa repetidamente que, apesar de o sistema estar em piloto automático, a culpa terá sido da vítima. “O condutor teve cerca de cinco segundos e 150 metros de vista desobstruída até à barreira de betão com que o carro colidiu, mas os registos do veículo mostram que não foi tomada nenhuma acção”, escreve a empresa, que nota que as mãos do condutor ainda não tinham sido detectadas no volante seis segundos antes da colisão. "O condutor automático não previne todos os acidentes, isso seria impossível, mas torna-os menos prováveis”, argumenta a Tesla.

A família da vítima tem tentado contestar essa informação publicamente, ao dizer que a empresa tinha informado Huang de que o “piloto automático não era perfeito”. A empresa oferece as suas condolências à família, mas escreve que “a razão por que as outras famílias [de condutores de teste da Tesla] não estão na televisão é que os seus entes queridos ainda estão vivos.”

A família de Joshua Brown, a primeira vítima mortal num acidente com carros autónomos, porém, já disse publicamente que não culpa a empresa e ressalva que “Joshua adorava a Tesla.”