Crítica

A queda no precipício

Um romance composto de 36 parábolas que questionam o humano num dos momentos mais dramáticos da História: a II Guerra.

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Num território povoado pela culpa, um escritor faz uma proposta arriscada: entender o que levou seres humanos a estarem no lado do Mal. No capítulo que serve de preâmbulo, escreve: “...eu me proponho agora, nesta noite escura de Inverno, invadir o significado da Europa”. Nesta passagem, o “eu” narrativo confunde-se com o “eu” autoral. William T. Vollmann gosta de se intrometer no que escreve, ser personagem de uma ficção que não quer desligada da sua experiência do mundo. E o mundo, na obra de Vollmann, não surge separado da circunstância de quem escreve. Ou seja, do próprio Vollmann, 58 anos, natural de Los Angeles, Califórnia, um experimentalista que não gosta de palco, naturalmente provocador porque vive à margem do mundo literário, autor de 16 romances e 12 trabalhos de não ficção, entre a reportagem, a crónica e o ensaio. Todos de grande fôlego e resultado da apropriação do real por parte do autor.

Em Central Europa, vencedor do National Book Award em 2005, Vollmann torna mais rarefeitas as suas aparições e dedica-se a ficcionar as vidas de gente real, protagonistas da História da Europa naquele que é o momento seu mais negro: a II Guerra Mundial.

“O que terá um dia impelido milhões de balas, tripuladas e não-tripuladas por seres humanos, a entrar em acção? Vocês dizem a Alemanha. Eles dizem a Rússia. Todos estão de acordo que a culpa nunca poderia ter sido da Europa em si mesma, e muito menos da Europa Central...” A interpelação é da mesma voz antes de se entrar na teia de relações que caracterizou o século XX e teve como epicentro o conflito de 39-45. A cronologia de Central Europa percorre o antes e o depois desse momento. São mais de 900 páginas divididas em 36 histórias, ou parábolas, que ilustram um tempo: o da queda no precipício.

O escritor apresentaria Central Europa como uma “série de parábolas sobre europeus famosos, infames e anónimos, actores morais em tempo decisivos” e já no livro indaga: “existirá forma literária mais íntegra, mais justa, arriscar-me-ia eu a dizer, do que a parábola? Porque as suas muitas convenções tecem um pacto sagrado entre o leitor, que recebe a mistificação desejada numa dose equivalente a um bombom, e o escritor, cuja ausência lhe confere uma aura divina.”

Vollmann é um adepto deste pacto e eleva-o a uma das suas melhores formulações, convocando o leitor a entrar no jogo da ficção como se nunca saísse da realidade, num tom de conversa, informal, íntimo, explorando a metáfora, interrogando o lugar da arte em regimes totalitários, explorando a emoção sem recorrer a armadilhas fáceis. Sabe quem já o leu: Vollmann é de uma honestidade desarmante e com ela será capaz de afastar leitores menos resistentes. Não esperem facilidades. Por isso a convocatória é para que o acompanhemos no seu raciocínio, às vezes irónico, outras vezes nostálgico, ousado, pessimista, humanamente frágil, disposto a ceder, a querer ser certeiro a chegar a quem está mais distante, moral ou ideologicamente. Entender o outro. Para isso, parte de uma pergunta: — o que leva alguém a tomar uma posição?

E chama personagens de perfis e condições distintas para tentar chegar a motivações num momento extremo. Governantes, militares, pais e filhos, amantes, poetas e músicos, escritores, funcionários, camponeses, heróis e vilãos. Com eles, constrói a intimidade de forma a humanizar a criatura mais ignóbil. Entre essas figuras destacam-se o sonâmbulo (Hitler) e o realista (Estaline), o compositor russo Shostakovich, a poetisa Anna Akhmatova, o realizador Roman Karmen ou a activista Rosa Luxemburgo. Todos surgem em várias das parábolas, com múltiplas vozes narradoras, que compõem um romance tão vasto quanto ambicioso, com Vollmann a sulcar o paradoxo segundo o qual talvez a melhor forma e entender o real seja vê-lo com o filtro fantasioso. Isso aplica-se às personagens, com especial fulgor a Shostakovski, homem em conflito pessoal e político, casado com Nina, apaixonado por Elena. É o protagonista da mais longa e melhor das histórias de Central Europa, O Opus 110, o Oitavo Quarteto de Cordas, descrito como “o cadáver vivo da música”. São mais de cem páginas a acompanhar a vida e obra do compositor até 1975. Lá está o homem fechado em si mesmo, fechado como a Europa. E com ele, a pergunta: “Qual será a nota musical mais apta a expressar o sentimento de perda?” Uma sugestão: ponha-se o Opus 110 a tocar e leiam-se páginas de Central Europa. É uma região, um centro nevrálgico, um polvo em forma de um velho telefone, uma roda para discar números num aparelho que pode vibrar e trazer mensagens dilacerantes.