Marcelo, Macron e Costa lembram La Lys com os olhos no futuro

Nos cem anos da batalha que conduziu ao “maior luto militar” desde Alcácer Quibir, os presidentes português e francês e o primeiro-ministro luso falaram da importância da solidariedade europeia para a manutenção da paz.

Cem anos depois, a homenagem aos mortos na batalha de La Lys
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Cem anos depois, a homenagem aos mortos na batalha de La Lys LUSA/PASCAL ROSSIGNOL / POOL

Evocar “o maior luto militar” português desde Alcácer Quibir com os olhos na paz e no futuro da Europa foi o que fizeram ontem os Presidentes da República de Portugal e França e o primeiro-ministro luso, na homenagem aos portugueses mortos na Batalha de La Lys. Não foi em vão, mas a favor dos valores europeus, vincou Marcelo Rebelo de Sousa, na cerimónia no cemitério militar de Richebourg, no norte de França.

Emmanuel Macron apontou aquele cemitério como “um símbolo de amizade e de solidariedade europeia e não de rancor nacionalista”, manifestando o desejo de que “nunca mais um europeu seja obrigado a tomar as armas e a matar o seu vizinho”.

“Cem anos depois, o contraste entre a Europa de 1918, traumatizada por quatro anos de uma guerra até então incomparável e amputada da sua juventude, e a Europa de 2018, democrática, em paz há mais de 70 anos, deve exaltar as nossas convicções, as nossas ambições europeias. Não podemos habituar-nos a esta Europa em que vivemos como se não fosse o fruto do que construímos no tempo e o fruto do sangue vertido”, defendeu.

Macron advertiu que essas lições devem ser recordadas “num momento em que a Europa duvida de si mesma” e em que “os seus povos exprimem o medo do futuro colocando-se nas mãos de dirigentes que se alimentam da angústia”. “A Europa deve ser objecto de reformas, trabalhamos nisso e trabalhamos em estreita colaboração com Portugal em muitos projectos da maior importância. Trabalhamos com o conjunto dos nossos aliados”, acrescentou, terminando o discurso com um “Viva Portugal, viva a França e viva a amizade entre Portugal e a França”.

Para Marcelo Rebelo de Sousa, a homenagem constituiu uma “reparação histórica”: “Fez parte da lógica da ditadura apagar a história da Grande Guerra uma vez que ela nasceu largamente de um movimento militar crítico com a situação vivida em Portugal e que não guardou uma boa memória da Grande Guerra e, por isso, em décadas essa memória não foi devidamente prestigiada respeitada e até mesmo contada”, considerou.

Nesse sentido, disse esperar que seja possível, em Novembro, quando se celebra o fim da Primeira Guerra Mundial, “recuperar-se uma tradição que é a homenagem junto do monumento dos heróis da Grande Guerra na Avenida da Liberdade [em Lisboa], com uma grande homenagem militar”.

Mais tarde, em frente ao Monumento aos Mortos portugueses em La Couture, o primeiro-ministro evocou “a paz e a reconciliação entre os povos europeus”. António Costa afirmou, em francês, que é preciso olhar para o futuro tendo em conta “os erros do passado” e lembrou que “os portugueses sofreram no corpo e na alma a violência” da Primeira Guerra Mundial.

“Cem anos depois, celebramos a paz e a reconciliação entre os povos europeus e a sua vontade de construirmos juntos um futuro comum”, afirmou, sublinhando “o profundo reconhecimento” pela presença do presidente francês. António Costa ainda lembrou que “Portugal comprometeu-se a contribuir para a paz” e que respondeu afirmativamente quando a França pediu soldados para a República Centro-Africana, depois dos atentados que sofreu.