Caminhos Portugueses de Santiago vão passar por um processo de certificação

Está em preparação uma candidatura de cerca de dois milhões de euros ao Programa Operacional de Cooperação Transfronteiriço Espanha-Portugal com o objectivo de resolver problemas crónicos. Importância do caminho português tem vindo a aumentar.

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FERNANDO VELUDO/ NFACTOS

No ano passado chegaram a Santiago de Compostela, na Galiza, cerca de 300 mil peregrinos oriundos de 179 países. E destes, “há uns 20% a 22% que chegam depois de fazerem os caminhos portugueses de Santiago”, o que é revelador da importância que Portugal já tem na emissão de peregrinos para aquele importante destino turístico. A informação foi deixada por Maria Nava Castro, directora da Axencia de Turismo de Galicia, no final de um encontro que reuniu os responsáveis de turismo da eurorregião Galicia-Norte de Portugal, que decorreu esta segunda-feira do terminal de Cruzeiros de Leixões. 

Foi nesse mesmo encontro que a vice-presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento da Região Norte (CCDR-N) assumiu a importância de as autoridades portuguesas se apressarem a fazer “o que lhes compete ser feito”, tanto em termos de coordenação como de certificação, sinalética, e só depois promoção e divulgação dos percursos. “Esta é uma área a que temos de dar prioridade e na região Norte estamos bastante sensibilizados para isto. Sabemos que há um problema de coordenação, da falta de um interlocutor, até, para chamar a si esta questão. Mas não podemos perder tempo, se queremos aproveitar este aumento de procura de turistas, e ter tudo pronto a tempo do Jacobeo, em 2021”, explicou a vice-presidente da CCDRN. Sem adiantar verbas concretas, Ester Silva apontou para os dois milhões de euros o valor global da candidatura que vai ser apresentada ao Programa Operacional de Cooperação Transfronteiriço Espanha-Portugal. 

O objectivo desta candidatura é financiar a certificação destes caminhos e a promoção de uma gestão coordenada que deixe definida as rotas principais, a sinalização harmonizada e a melhoria conjunta da recepção e hospitalidade dos peregrinos quer em estabelecimentos públicos quer em estabelecimentos privados. 

“Antes de trabalharmos na promoção de um produto, como pode ser o caminho Português de Santiago, temos de ter esse produto bem definido e trabalhado”, enquadrou Manuel Butler, director-Geral da Turespaña, a entidade nacional de turismo espanhol, sublinhando a importância de reuniões como a que teve lugar esta segunda-feira para definir essas estratégias. O objectivo final, esse, também já ficou delineado: promover uma candidatura conjunta do Caminho Português de Santiago a Património Mundial da Unesco, visando os responsáveis da eurorregião que esta seja “realmente uma candidatura ibérica”.

Ester Silva lembrou que o Caminho francês de Santiago já é Património da Humanidade “há muito tempo”. Maria Nava Castro salientou, porém, a perda de protagonismo a que tem vindo a ser remetido: “No passado, a quota de peregrinos que chegavam aos serviços a pedir a Compostela e que tinham utilizado o caminho francês era superior a 90%. Actualmente está nos 57%. O caminho português está a ganhar protagonismo”, contabilizou. 

O próximo ano jubilar compostelano - o ano santo, ou o Jacobeu, como lhe chamam os peregrinos, acontece de cada vez que o dia de Santiago (25 de Julho) calha a um domingo - é já no próximo ano de 2021, pelo que restam apenas três anos para fazer todo o trabalho necessário. Ester Silva revelou-se optimista, dizendo que na região Norte já há muito trabalho feito e há, sobretudo, vontade que tudo fique definido depois de resolvido o problema principal e que é, assegura, a falta de uma entidade que chame a si a coordenação de todo este problema. Essa entidade tem de ser o Ministério da Cultura e, segundo a vice-presidente da CCDRN, tem havido reuniões para sensibilizar o Governo para a importância deste tema.

Para além da questão dos caminhos de Santiago, há ainda outras áreas de trabalho, e de interesse, que merecem o empenho conjunto do norte de Portugal e da Galiza na valorização do património turístico. A reserva da biosfera Transfronteiriça Gerês/Xurés, a primeira reserva transfronteiriça da Península, é “um importante activo de que é necessário cuidar e preservar conjuntamente”, lê-se nas conclusões do encontro. Nele surgiu também a proposta de trabalhar conjuntamente na promoção das rotas do vinho, centradas no Alvarinho/Rias Baixas, assim como a apresentação de projectos conjuntos para a valorização turística do rio Lima ou do Rio Minho.

Os participantes concordaram, ainda, que a promoção internacional da eurorregião deveria ser feita através da marca “Dois países, um destino”.