Nem tempo, nem motivação. Portugueses estão a fazer menos exercício

Portugueses estão entre os que menos se mexem. Justificam com falta de motivação e custos associados ao desporto. Mas até uma caminhada de 10 minutos seguidos está fora dos hábitos de 29% dos inquiridos. Nesta sexta-feira assinala-se o Dia Mundial da Actividade Física.

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Os homens fazem mais desporto do que as mulheres Nuno Ferreira Santos

Em 2010, 33% dos portugueses diziam fazer exercício físico ou desporto com alguma ou muita regularidade — entre uma a cinco vezes por semana. Em 2014, o número desceu para 28%. Actualmente, são 26%.

Na União Europeia (UE), pior do que Portugal, só a Hungria (24%), a Grécia (23%), a Roménia (19%) e a Bulgária (16%). As conclusões são do Eurobarómetro sobre desporto e actividade física, realizado de quatro em quatro anos e coordenado pela Direcção-Geral da Comunicação da Comissão Europeia. As entrevistas foram feitas a 28.031 pessoas, em todos os Estados-membros, em Dezembro de 2017. Em Portugal, foram inquiridas 1089.

O estudo define “exercício físico” como nadar, correr no parque, ir ao ginásio ou fazer qualquer outra actividade que tenha como propósito específico “fazer exercício”, num contexto desportivo. Andar de bicicleta ou fazer jardinagem, exemplifica o estudo, não entra neste cálculo.

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E assim, 74% dos portugueses explicam que “nunca” ou “raramente” fazem exercício físico ou praticam desporto. Um valor 14 pontos percentuais acima da média dos que na UE respondem o mesmo. É pior entre as mulheres (78%, contra 68% dos homens). Ainda assim, tanto as mulheres como os homens portugueses estão longe das médias dos seus pares europeus. Portugal é o 5.º país onde mais inquiridos mostram ser particularmente sedentários.

Nas conclusões do Eurobarómetro divulgado no final de Março explica-se ainda que o sedentarismo está generalizado a todo território da UE, o que indica que “a mensagem sobre a importância do desporto e da actividade física para a saúde e bem-estar individual ainda não chegou a todos os segmentos da população”.

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“Os níveis de participação são muito menores entre aqueles que têm níveis de educação mais baixos e entre aqueles que têm maiores dificuldades financeiras”, acrescenta o documento.

Em Portugal, quando se avalia a frequência de prática desportiva por idades são os homens entre os 15 e os 24 anos (62%) que mais dizem fazê-la com alguma regularidade. Os que menos se mexem são também homens — com mais de 55 anos.

Quanto a outro tipo de actividades físicas que não têm necessariamente um propósito de “fazer exercício”, como andar de bicicleta, dançar ou fazer jardinagem, o cenário é igualmente desanimador. Entre os portugueses, 79% respondem que nunca ou raramente as realizam. A média europeia é 56%. Em Portugal, o fosso entre homens e mulheres que reportam nunca ou raramente ocupar-se com estas actividades é o dobro da média europeia.

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Caminhamos pouco

“Este estudo representa uma das poucas oportunidades que temos para olhar para tendências na evolução da actividade física e da prática desportiva. Não há muitos inquéritos repetidos no tempo com as mesmas metodologias”, explica o director do Programa Nacional para a Promoção da Actividade Física, Pedro Teixeira.

O responsável adianta que o facto de estes números estarem “a piorar” é algo que “preocupa e reforça a necessidade de investir nesta área”. E assume: “O que estamos a fazer nos últimos anos em Portugal não está a funcionar. Há outras forças na sociedade que estão a encaminhar os portugueses para o sedentarismo.”

Caminhou pelo menos 10 minutos de seguida em algum dos sete dias que antecederam o inquérito? Foi uma das perguntas colocadas. A resposta de 29% dos 1089 portugueses inquiridos foi “não”. Entre todos os europeus, 15% responderam da mesma forma. Pior do que Portugal, neste campo, só o Chipre.

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Para Pedro Teixeira, esta questão é particularmente marcante. “Porque a marcha é a actividade física mais acessível e que as pessoas de qualquer idade podem fazer”, detalha.

Preocupa-o também a escassa utilização da mobilidade nos meios de transporte, em particular da bicicleta. Apesar de reconhecer que esta é uma “tendência actual das políticas de promoção da actividade física” e que “há coisas que estão a acontecer nas cidades que valorizam o seu uso”, ressalva que há “muito a fazer” ainda.

Apesar do cenário negativo, o responsável pelo programa de promoção da actividade física sublinha um “único” ponto positivo: somos dos que passam menos tempo sentados. Entre os inquiridos portugueses, 23% disseram que num dia normal estão sentados 2h30m ou menos (a média da União Europeia é 16%). Portugal está, de resto, entre os países onde mais inquiridos dizem passar menos horas sentados.

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Riscos para a saúde

Porque é que não fazemos mais exercício? Para 43% dos portugueses, o principal motivo é a falta de tempo. Uma justificação próxima da média europeia (40%). Mas para um terço é a falta de motivação que impede a prática de exercício regular. Só um quinto dos europeus dá esta resposta. A terceira razão mais comum para os portugueses tem a ver com o custo associado à prática de desporto.

Para quem o faz, ser mais saudável, melhorar a aptidão e a forma física e relaxar são as principais razões.

“Temos de reformular a nossa forma de ver a actividade física”, diz Pedro Teixeira. “As pessoas ainda a vêem como um exercício estruturado, num local... Temos de mudar essa mentalidade. Hoje em dia, o estar em pé, andar a pé, são formas muito importantes de termos uma população mais activa.”

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Pedro Teixeira lembra que a inactividade física “é um dos três principais factores de risco comportamentais para as doenças que mais custos de saúde têm”. “Relativamente àquilo que custaria investir na actividade física em relação aos ganhos que tem, é um dos investimentos mais eficientes que um país pode fazer.”

Já o professor de Educação Física, Alexandre Henriques, defende que “a carga laboral [dos portugueses] não permite conciliar” a prática desportiva. Para o professor, a solução também passa por motivar os mais novos para a prática do exercício físico desde cedo. “A nível escolar temos algum problema de desvalorização da actividade física”, conclui.