Anatomia de um golo que deu a volta ao mundo

O pontapé de bicicleta de Cristiano Ronaldo no jogo entre o Real Madrid e a Juventus para a Liga dos Campeões é um portento. Um especialista em biomecânica e morfologia funcional explica porquê

O golo de bicicleta de Cristiano Ronaldo
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O golo de bicicleta de Cristiano Ronaldo LUSA/ANDREA DI MARCO
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O golo de bicicleta de Cristiano Ronaldo Reuters/ALBERTO LINGRIA
Buffon e Ronaldo
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Buffon e Ronaldo LUSA/ANDREA DI MARCO
O golo de bicicleta de Cristiano Ronaldo
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O golo de bicicleta de Cristiano Ronaldo LUSA/ALESSANDRO DI MARCO
Cristiano Ronaldo
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Cristiano Ronaldo LUSA/ANDREA DI MARCO

Nas palavras de Cristiano Ronaldo foi, “seguramente”, o seu melhor golo. Para a imprensa internacional foi “Um golo para a história”, “O golo com que sempre sonhou”, “Um golo de museu”, “Quiçá, um dos mais belos golos já vistos na Liga dos Campeões”, “O golo da sua vida”, “Uma obra-prima”, “Uma obra de arte”. Estas foram algumas das expressões utilizadas por diversos órgãos de comunicação social mundiais para descrever aquele que foi o primeiro golo marcado pelo internacional português num pontapé de bicicleta — o segundo do Real Madrid frente à Juventus (3-0), ontem, nos quartos-de-final da Champions. Mas se a beleza do movimento de Cristiano Ronaldo pode ser admirada por qualquer um, a dificuldade da sua execução talvez seja mais difícil de ser apreendida.

A pedido do PÚBLICO, António Veloso, director do Laboratório de Biomecânica e Morfologia Funcional da Faculdade de Motricidade Humana (FMH) da Universidade de Lisboa, tentou explicar o que faz o golo do Cristiano Ronaldo ser tão excepcional, ao ponto de ter levado os próprios adeptos do adversário presentes no estádio a aplaudirem o gesto técnico do português.

“Ao contrário de outras ocasiões, desta vez não é a potência do remate que impressiona, mas sim a impulsão”, começa por dizer António Veloso. E deve ter sido a percepção de que Cristiano Ronaldo foi capaz de se elevar acima dos padrões normais para os seres humanos que terá levado Manuel Jabois a escrever num artigo publicado no jornal espanhol El País o sugestivo título: “Cristiano, assim na área como no céu”.

Os valores variam alguns centímetros. Há quem aponte 2,23m, outros 2,38m. Segundo os espanhóis do jornal Marca, o português elevou o corpo (as costas) a 1,41m do relvado. Uma coisa é certa. Cristiano Ronaldo pontapeou a bola bem acima do seu 1,86m, a altura que consta no cartão do cidadão do madeirense. António Veloso arrisca mesmo um registo entre os 2,40m e os 2,50m. E é esta capacidade de rematar a bola num ponto tão elevado que torna o gesto do avançado tão extraordinário.

“Do ponto de vista de execução técnica, aquele tipo de impulsão é perfeito. Se analisarmos ao detalhe o movimento apercebemo-nos de que o Cristiano Ronaldo faz uma chamada parecida à que os atletas que competem no salto em altura fazem. Ele dá dois passos para a chamada e a impulsão é feita com a perna que faz o remate, que é a direita. Mas é a perna esquerda, a perna do balanço, combinada com o movimento do braço oposto (o direito) que maximiza a altura do salto, funcionando ambos como alavancas. É esta perna, que é primeiro lançada e depois travada no ar, que cria a energia mecânica que o eleva e lhe permite como que pairar”, detalha António Veloso.

“Com cerca de 85kg de peso e calculando que o centro de massa dele terá subido uns 60cm a 70cm com aquele salto, ele terá conseguido gerar cerca de 500 joules de energia mecânica ou, em termos de potência média de impulsão, perto de 1500 watts”, acrescentou.

Mas para este académico que, em 2006, dirigiu testes laboratoriais para a selecção portuguesa nos quais Cristiano Ronaldo já se destacava na velocidade e na impulsão, há mais aspectos notáveis naquele golo.

“Toda a movimentação do Cristiano Ronaldo naquele lance revela uma coordenação oculo-motora impressionante. Primeiro ele movimenta-se para a pequena área na expectativa de um eventual cabeceamento, mas depois apercebe-se da trajectória da bola, que é cruzada para trás. É nesse momento que ele toma a decisão de passar do cabeceamento para o remate de bicicleta. Tudo isto em instantes de segundo e sem nunca tirar o olhar da bola. Ele sabe que está numa zona central e enquadrado com a baliza e antecipa a acção de centro de Carvajal, o que mais do que capacidade física e técnica demonstra uma capacidade táctica e de leitura de jogo ímpar”, conclui António Veloso.

O resultado de tudo isto foi um golo que vai entrar para a história do futebol mundial, apontado por aquele que foi apelidado de “marciano”, autor de um golo do outro mundo.