Não há indicação para reforço da vacina, mas DGS não exclui possibilidade no futuro

Directora-geral da Saúde diz que é natural que existam grupos a estudar futuras alterações aos esquemas vacinais. No actual surto, 80% dos doentes tinham as duas doses de vacina. Especialistas não concordam com obrigatoriedade da vacinação.

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Reuters/KAROLY ARVAI

Não há neste momento indicação nem evidência científica para que seja feito um reforço da vacina do sarampo. Uma realidade que pode mudar, admitiu esta terça-feira a directora-geral da Saúde, Graça Freitas, numa audição pública na comissão parlamentar de Saúde, onde vários especialistas estão a ser ouvidos sobre o surto de sarampo e a vacinação.

“Não está escrito em nenhum artigo científico, até à data, que se devem fazer reforços da vacina contra o sarampo. Claro que isto vai mudar. Estou certa que neste momento está muita gente a estudar a necessidade ou não de voltar ou de fazer pelo menos um reforço contra o sarampo. Mas à data não há evidência científica que deva ser feito”, afirmou a directora-geral da Saúde, Graça Freitas, referindo que Portugal vive uma situação nova em que se passou da imunidade natural, provocada pelo vírus que estava em circulação, para uma imunidade garantida pela vacina e já sem vírus a circular no país.

Já no final da audição, Graça Freitas voltou a ser questionada pelos jornalistas sobre possíveis alterações ao Programa Nacional de Vacinação (PNV). A responsável reforçou que não existe conhecimento científico que o recomende. “A única coisa que nos resta fazer é esperar pela ciência, pelos estudos e pela evidência e obviamente se houver indicação para isso, nós e os países da Europa, faremos a necessária adaptação. Mas à data não há nenhum estudo que indique e que diga que devemos fazer uma nova dose para o sarampo. O esquema de Portugal e dos outros países está perfeitamente actualizado. São duas doses da vacina que se recomendam.”

Tal como não está em cima da mesa aumentar o tempo entre a primeira dose e a segunda dose da vacina. O esquema recomendado é uma dose aos 12 meses e outra aos cinco anos. Mas também neste caso, a directora-geral da Saúde disse estarem atentos a todas as evidências científicas que possam surgir e caso necessário o PNV será adaptado.

O que acontece neste surto é diferente do do ano passado. Atinge só adultos jovens e 80% das pessoas estavam vacinadas com duas doses. Desenvolveram uma forma modificada da doença, não transmitem e estão a sofrer uma forma de sarampo leve”, disse a directora-geral aos deputados durante a audição pública requerida pelo PCP e PS.

Posição semelhante à que alguns especialistas ouvidos pelo PÚBLICO também transmitiram, salientando que a ausência do vírus a circular no país limitou a memória do sistema imunitário. “Verifica-se que os adultos jovens, como deixámos de ter a doença na natureza, foram perdendo anticorpos. Não quer dizer que tenham perdido imunidade”, acrescentou Graça Freitas.

Esta mensagem foi reforçada pelo presidente do Instituto Nacional Dr. Ricardo Jorge. “Anticorpos mais baixos não é perda de imunidade. É uma questão natural não havendo contacto com o vírus. As pessoas desenvolveram formas de sarampo atenuadas e menos transmissíveis e não desenvolveram casos complicados”, salientou Fernando Almeida, explicando que o sarampo não está erradicado no mundo, o que permite o surgimento de casos.

Qual foi o caso zero?

Os últimos casos de sarampo em Portugal foram importados. Ou seja, resultaram de pessoas que se infectaram noutros países, mas que acabaram por ter sintomas em Portugal. Sobre o actual surto, que infectou até ao momento 86 pessoas sobretudo no norte do país, Graça Freitas explicou que ainda decorrem investigações para perceber qual o caso zero. “Estamos a seguir três linhagens. Há a dúvida se a linhagem do cidadão francês e a da jovem italiana se cruzaram. Ainda estamos a fazer tipagem.”

Os vários especialistas ouvidos até ao momento mostraram-se contra a obrigatoriedade da vacinação, defendendo mais campanhas de promoção e sensibilização junto de profissionais de saúde e população geral.

“Em relação à obrigatoriedade mantenho a mesma posição. Os serviços têm de fazer um esforço maior para verificar os boletins e todas as pessoas convidadas a vacinar no âmbito deste surto, vacinaram-se. Os serviços forneceram mais 20 mil doses além das previstas”, acrescentou Graça Freitas.

Também para o presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública, Ricardo Mexia, “a obrigatoriedade não é a questão certa”. A questão certa, apontou, “é assegurar que todos os que queiram se possam vacinar e isso passa pela acessibilidade”. As “questões dos horários, as rupturas de stock podem ser limitações, mas não são irresolúveis. É preciso promover a vacinação, que é um direito e um dever”.

Sobre o actual surto, o médico reforçou a ideia da mudança do “padrão imunológico da população”. “Estamos em terreno desconhecido. Não há experiência sobre isto. Isto é a altura em que se coloca a questão em cima da mesa. Urge perceber porque foram mais os profissionais afectados, e não os doentes que teriam o sistema imunitário menos forte, e porque são afectados tantos vacinados”, salientou. 

Vacinar para evitar surtos

Questionada sobre se não há nada que se possa fazer para evitar surtos, Graça Freitas afirmou que neste momento o que é possível fazer é vacinar e esperar que os surtos sejam como este. “As pessoas vacinadas, que eram a grande maioria, [tiveram] doença ligeira. É o chamado sarampo modificado. A outra grande vantagem é que as pessoas que tiveram este sarampo modificado não propagam doença a terceiros. Por enquanto este é o estado da epidemiologia. Estamos num período de transição epidemiológico, em que já não circula o vírus na natureza e a imunidade vacinal, como não há reforços naturais da doença, vai-se perdendo ao longo do tempo.”

Graça Freitas adiantou que não somos o único país com um surto como este. “Somos um dos países que tem o sarampo eliminado há mais tempo. É tal o sucesso da vacinação que depois produz estes fenómenos. Também em Portugal, como noutros países, temos obrigação de resolver os surtos e fazer estudos científicos que contribuam para o conhecimento a nível mundial. Vamos estudar as características deste surto para perceber a dinâmica do vírus, da doença”, explicou.