Editorial

Gaza desmedida

Sabe-se que o perpétuo ciclo de violência não vai cessar, até porque é isto que ambos os lados pretendem.

Os palestinianos tinham anunciado seis semanas de protestos pacíficos que deveriam culminar numa marcha sobre Israel. Mas não houve tempo sequer para respeitar a hora prevista para o início do protesto antes que tudo descambasse. Os protestos foram tudo menos pacíficos, com o Hamas a organizar a sua versão virulenta e Israel a responder com violência desmedida, como é timbre de Netanyahu. 

Não se sabe quantos mais vão morrer nestas seis semanas, mas sabe-se que o perpétuo ciclo de violência não vai cessar, até porque é isto que ambos os lados pretendem. Nenhum saberá viver sem o inimigo no horizonte e os poucos que acreditam na paz de um lado e do outro são empurrados para as franjas de um conflito sem fim à vista.

Estes confrontos que ainda ontem começaram são o reflexo directo da anunciada mudança da embaixada americana de Tel Aviv para Jerusalém – a Marcha do Retorno, assim se chama o protesto palestiniano, tem conclusão prevista para o dia a seguir à inauguração da embaixada. Não que o instável Médio Oriente precise de Trump, dos americanos ou sequer do estado judaico para se manter à beira da implosão. Mas esta é a visão que Trump tem para o Médio Oriente, uma visão a preto e branco em que os bons estão do lado de Jerusalém e os maus são os outros todos. 

É uma visão alimentada a dólares pelos grandes doadores como Sheldon DAdelson, um milionário dos casinos que ajudou a pagar a factura da campanha Trump e exigiu em troca a mudança da embaixada americana em Israel para Jerusalém. O presidente americano demorou, mas lá cumpriu, satisfazendo o desejo do magnata que se desloca recentemente a Israel e ainda em Dezembro visitou colonatos com Benjamin Netanyahu – outro político que beneficiou dos dólares de Adelson.

A verdade é que, neste caso, os palestinianos têm razão em criticar a mudança: sendo os EUA o único intermediário com peso suficiente para mediar qualquer negociação, o gesto coloca-o em oposição clara a um dos lados e impede uma relação de confiança necessária para que todos ganhem na mesa negocial. A questão é que Trump vê tudo como um jogo em que para um ganhar outro tem de perder, e o seu interesse em negociar é menos que zero. O que Trump quer é fazer proclamações grandiosas, de preferência daquelas que agradam aos seus banqueiros. E a oligarquia do capital em que se transformou a democracia americana lá segue feliz, regando mais um fogo com gasolina.