Dono passou-lhe por cima com o carro. Provedora dos animais pede condenações exemplares

Numa só semana PSP registou um espancamento de um gato até à morte e um atropelamento mortal de um cão. Queixas apresentadas às autoridades subiram 20% entre 2016 e 2017.

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A provedora dos animais de Lisboa apela à aplicação de penas exemplares Manuel Roberto

A primeira vítima foi um cão, por cima do qual o condutor de um automóvel passou por cima repetidas vezes, até o matar. Era o seu próprio dono.

O caso passou-se na segunda-feira à noite, nos Olivais, em Lisboa, e quando o septuagenário foi interrogado pela PSP, depois de um vizinho seu ter chamado as autoridades, o homem confirmou o que tinha feito. Alegou que o animal se tinha soltado da trela, acabando por ser atropelado por desconhecidos ali perto da Rua Cidade de Bissau. E que foi para pôr fim ao seu sofrimento que resolveu enfiá-lo num saco e passar-lhe por cima várias vezes, assegurou.

Mas os agentes não depararam com quaisquer vestígios de atropelamento no local que indicou. O carro do septuagenário, pelo contrário, apresentava provas evidentes do que se tinha passado, tal como o pavimento do estacionamento em que acabou com a vida do cão. Depois pegou no saco e largou-o nas imediações da rotunda do relógio, numa berma.

Esta quinta-feira foi a vez de um morador de Marvila com cerca de 50 anos matar um gato à paulada. O sucedido foi denunciado não apenas às autoridades – que encontraram o bicho no caixote do lixo – mas também à provedora dos animais de Lisboa, Marisa Quaresma dos Reis, que se mostra chocada perante as duas situações. O gato pertenceria a uma namorada do indivíduo, que já foi identificado pela polícia. Já não seria a primeira vez que maltratava este animal. Ambos os casos serão agora investigados pelo Ministério Público, e os cadáveres sujeitos a necrópsia para determinar as exactas causas de morte.

Marisa Quaresma dos Reis insta as associações zoófilas a constituírem-se assistentes nestes dois processos, para poderem seguir as investigações das autoridades a par e passo. “Repudio veementemente qualquer acto de violência desta natureza. E apelo às autoridades judiciais para que apliquem penas exemplares, na eventualidade de se provar que os arguidos são mesmo culpados”, reage a provedora dos animais.

Desde 2014 que abandonar ou maltratar animais de companhia passou a ser crime em Portugal, muito embora só estejam previstas penas de cadeia para reincidentes, e não para quem é apanhado pela primeira vez a cometer este tipo de delitos.

Segundo dados do Relatório Anual de Segurança Interna, documento tornado público esta quinta-feira, o número de queixas apresentadas às autoridades por abandono ou maus tratos subiu 20% entre 2016 e 2017. Assim, enquanto em 2016 se registaram 1623 participações no ano passado esse número subiu para 1950. Ou seja, foram feitas mais 327 queixas. A maioria relacionou-se com maus tratos, mas houve 744 participações que tiveram como motivo o abandono.

Recordando estudos segundo os quais quem agride animais é também mais susceptível de agredir pessoas, Marisa Quaresma dos Reis apela ainda aos advogados que possam patrocinar as associações zoófilas nos processos-crime relativos a animais de companhia em regime pro-bono.