Sobrevivente do Holocausto assassinada em Paris

Mireille Knoll, uma mulher judia de 85 anos, foi encontrada morta no seu apartamento, na sexta-feira passada. Autoridades acreditam que assassinato estará relacionado com questões religiosas, reacendendo o debate sobre o anti-semitismo em França.

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Mireille Knoll, de 85 anos, foi esfaqueada e carbonizada no seu apartamento, em Paris LUSA/UEJF
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Porta do apartamento da vítima no 11.º bairro parisiense Reuters/STAFF

O Ministério Público francês abriu uma investigação, esta segunda-feira, ao assassinato de Mireille Knoll, de 85 anos, sobrevivente do Holocausto. A procuradoria suspeita de um ataque anti-semita, tendo sido aberto um inquérito judicial pelo "assassinato devido à verdadeira ou suposta crença da vítima numa [determinada] religião", cita o jornal francês Le Monde.

O corpo de Mireille Knoll encontrava-se parcialmente carbonizado quando foi descoberto pela polícia e pelos bombeiros no seu apartamento situado no 11.º bairro parisiense. A autópsia revelou que a vítima foi esfaqueada pelo menos 11 vezes e uma análise forense ao apartamento mostrou ter sido ateado um incêndio em pelo menos cinco áreas diferentes da casa, avança o jornal Times  of Israel.

A Procuradoria de Paris exigiu a detenção provisória de um vizinho da vítima, de 27 anos, e de outro suspeito que seria o seu cúmplice, um sem-abrigo de 21 anos que se acredita ter estado presente no momento do crime. O primeiro suspeito tinha sido já acusado de agressão sexual e violação à filha menor da enfermeira da octogenária. Para a detenção do segundo suspeito, junto à Ópera da Bastilha, foi mobilizada a brigada de intervenção policial, tendo em conta que o jovem tinha sido já detido anteriormente por actos de violência, ameaça e roubo, segundo o Le Monde.

Os dois homens foram acusados de "homicídio voluntário" devido a questões religiosas, encontrando-se em prisão preventiva. De acordo com o depoimento do sem-abrigo, citado pelo jornal francês, este terá ouvido o alegado autor – o outro suspeito e vizinho de Mireille Knoll – a gritar "Allahu Akbar" enquanto cometia o crime.

Mireille Knoll sofria de Parkinson, pelo que se encontrava incapacitada devido à doença. O filho, Daniel Knoll, afirmou ao Le Monde que um dos suspeitos sob custódia, e vizinho da sua mãe, que o conhecia desde os sete anos de idade, não era visto há vários meses – depois de ter sido detido por acusações de agressão e violação sexual – tendo reaparecido no dia do assassinato. "Estamos em choque. Não entendo como alguém poderia matar uma mulher que não tem dinheiro e que mora num complexo de habitação social", disse Daniel Knoll. No entanto, os motivos que levaram ao assassinato estão por apurar, tendo em conta que as versões dos dois suspeitos sob custódia são contraditórias.

Sobrevivente de Vel 'd' Hiv

A octogenária era uma sobrevivente da rusga de Vel 'd'Hiv (Velódromo de Inverno de Paris, ou "La rafle du Vélodrome d'Hiver", em francês), operada pelas autoridades policiais em Julho de 1942 e que aprisionou milhares de judeus com vista à sua deportação para os campos de concentração, um episódio da história da Segunda Guerra Mundial revelador da colaboração francesa com o regime nazi, segundo avança o Le Monde.

A morte de Mireille Knoll provocou uma enorme mágoa na comunidade judaica, quase um ano após o assassinato, em Abril de 2017, de Sarah Halimi, uma mulher de 66 anos judia que foi espancada no seu apartamento e posteriormente atirada da janela, alegadamente por um vizinho muçulmano. O conselho representativo das instituições judaicas de França (CRIF, na sigla francesa) pede "total transparência" na investigação do caso de Mireille Knoll. O Presidente francês, Emmanuel Macron, denunciou o "crime terrível", de acordo com o Le Monde, e reafirmou a sua determinação na luta contra o anti-semitismo. O ministro do Interior, Gérard Collomb, tinha já expressado a sua "indignação" e "tristeza" e pediu que se investiguem os "motivos dos autores deste acto bárbaro, que faz lembrar as horas mais sombrias da nossa história", cita o mesmo jornal francês. "Atacar um judeu é atacar a França e os valores que constituem o próprio alicerce da nação", rematou.

O ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Jean-Yves Le Drian, que se encontra em visita oficial a Israel, afirmou, por sua vez, que é provável que o motivo do assassinato esteja relacionado com questões anti-semitas e reforçou a necessidade de combater o preconceito religioso, segundo o Times of Israel.

O CRIF anunciou, através da rede social Twitter, a organização de uma marcha para a próxima quarta-feira, 28 de Março, na Place de la Nation, em Paris, em memória de Mireille Knoll. Várias organizações, incluindo a Liga Internacional Contra o Racismo e Anti-semitismo e a SOS Racismo apelaram também à participação nesta manifestação.

Texto editado por Maria Paula Barreiros