#DeixaElaTrabalhar: as jornalistas de desporto estão a lutar contra o machismo

Várias jornalistas partilharam as suas experiências negativas no mundo do desporto, comparando os estádios a uma “jaula de leões” — mas sabem que o machismo vai mais longe: está presente nas ruas e nas redacções. E pedem respeito pelo seu trabalho.

Foto
Algumas das jornalistas que deram a voz pela causa no vídeo partilhado nas redes sociais DR

Insultos, tentativas de beijo, acusações de que não percebem nada de desporto, assédio. É esta a realidade denunciada por muitas jornalistas de desporto que, no Brasil, decidiram não continuar caladas para que possam fazer o seu trabalho em paz, lançando a campanha #DeixaElaTrabalhar. O grupo de jornalistas divulgou um vídeo neste domingo em que relatam a sua experiência e dizem que o machismo que paira no mundo do desporto deve ser combatido. “Até quando?”, perguntam.

Os casos são vários: há duas semanas, a repórter Renata Medeiros, da Rádio Gaúcha, foi insultada e agredida fisicamente na cidade brasileira de Porto Alegre, enquanto fazia a cobertura noticiosa de um jogo de futebol. Uns dias depois, a jornalista brasileira Bruna Dealtry, do canal televisivo Esporte Interativo, foi beijada à força por um adepto, no Rio de Janeiro. Em directo, disse que a atitude “não foi legal”, mas continuou com o seu trabalho.

Mais tarde, no Facebook, Dealtry partilhou a sua posição: “Sempre fui uma repórter que adora uma festa de torcida [claque]. Não me importo com banho de cerveja, torcedor pulando, pisando no meu pé (…). Mas hoje, senti na pele a sensação de impotência que muitas mulheres sentem em estádios, metros, ou até mesmo andando pela rua. Um beijo na boca, sem a minha permissão, enquanto eu exercia a minha profissão, que me deixou sem saber como agir e sem entender como alguém pode se sentir no direito de agir assim”. A jornalista diz ainda que o adepto não deve saber o quanto estudou e o quanto se esforçou para poder ser jornalista de desporto. “Mas pelo simples facto de ser uma mulher no meio de uma torcida, nada disso teve valor para ele. Se achou no direito de fazer o que fez”. “Sou repórter de futebol, sou mulher e mereço ser respeitada”, conclui.

É respeito que as jornalistas pedem. “A ideia é dar uma resposta aos assédios e às situações recentes da Bruna e da Renata, que é também um pouco a história de todas nós”, resume a jornalista Bibiana Bolson, na edição brasileira do El País, dizendo que o assédio trespassa os estádios e chega também às redacções e às redes sociais.

“Já aconteceu com todas nós”, ouve-se no vídeo partilhado nas redes sociais. “Só queremos trabalhar em paz”, dizem, pedindo para serem tratadas com dignidade: nos estádios, nas redacções, nas ruas. “Não é engraçadinho, e não é só machismo, é desrespeitoso. É nojento, é ofensivo, é uma violência” — e terminam: #DeixaElaTrabalhar.

Segundo o portal brasileiro UOL, a mensagem foi partilhada por vários clubes brasileiros e pela Confederação Brasileira de Futebol, tendo sido mostrada num ecrã gigante no estádio do Maracanã, numa partida entre o Fluminense e o Botafogo.

A jornalista da SporTV Bárbara Coelho diz ao UOL que já têm mais de 100 pessoas envolvidas na campanha, com mulheres não só do Brasil mas também do Chile, do Uruguai e da Argentina. Acredita que é uma caminhada com muito por percorrer. “Vários homens nos defendem sob o ponto de vista de que o ‘sexo frágil’ merece protecção por causa de uma suposta ‘fragilidade’, não por igualdade”.

Ao UOL, outras jornalistas partilharam a sua experiência: Natalie Gedra, da ESPN Brasil, conta que se sentia humilhada ao ouvir insultos só por ser mulher (dizendo que era “puta” ou insinuando que estava a dormir com alguém para ter o seu emprego, por exemplo). “Será que eu tenho de passar por isso só para trabalhar?”

Gabriela Moreira, também jornalista da ESPN Brasil, é da mesma opinião, e diz que se trata de “tortura moral”: “Ninguém vai para o seu local de trabalho achando razoável trabalhar com medo. A imagem que eu tenho quando entro no estádio, e já tinha essa imagem antes de trabalhar com esporte, é de que estava entrando em uma jaula com leões. Eu continuo tendo essa imagem, mas não tenho mais medo dos leões”.