Portugal “condenou” o atentado de Salisbury mas não expulsa diplomatas russos

MNE “acredita que a concertação no quadro da UE é o instrumento mais eficaz para responder à gravidade da situação”. O apoio da Rússia à eleição de Guterres pode ter pesado na posição lusa.

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António Guterres e Augusto Santos SIlva A Lopes/Lusa

Portugal não deverá juntar-se ao grupo de países da União Europeia que anunciou a expulsão dos diplomatas russos pelo ataque de Salisbury contra um antigo agente dos serviços secretos russos e a sua filha, que Londres diz ter sido levado a cabo pela Rússia com uma poderosa arma química.

“Portugal toma boa nota das decisões, anunciadas hoje por vários Estados-membros da União Europeia, relativas à expulsão de diplomatas da Federação Russa neles acreditados”, lê-se num comunicado do Ministério dos Negócios Estrangeiros emitido esta segunda-feira à tarde, onde não se diz claramente se vai ou não seguir aquela indicação. 

No entanto, a posição assumida pelo MNE deixa perceber que não é esse o caminho que vai ser seguido: “Portugal acredita que a concertação no quadro da União Europeia é o instrumento mais eficaz para responder à gravidade da situação presente”. O que indica que não será assumida nenhuma posição portuguesa a título unilateral, mas apenas em “concertação” com a UE.

No comunicado do MNE agora divulgado, afirma-se que “Portugal condenou imediatamente o atentado de Salisbury e expressou com veemência a sua solidariedade com o Reino Unido”. Em particular, lembrou que “além da intervenção em instâncias internacionais como a NATO e a OSCE, [Portugal] participou nos debates ocorridos no Conselho Europeu e no Conselho de Negócios Estrangeiros, de que resultou, designadamente, a decisão de a União Europeia chamar para consultas o seu embaixador em Moscovo”.

O comunicado luso é cauteloso, e tenta fazer a ponte entre os restantes países europeus, nomeadamente o Reino Unido, mas sem assumir uma posição de força perante a Federação Russa – cujo apoio foi fundamental para a eleição de António Guterres como Secretário-Geral das Nações Unidas, em finais de 2016. Nesse processo, que foi considerado uma vitória da diplomacia portuguesa, Portugal teve de reunir o apoio dos países com assento no Conselho Permanente de Segurança da ONU, começando pelo Reino Unido e depois conquistando a não oposição da Rússia.

Num momento em que a generalidade dos observadores e da imprensa internacional diziam que a Rússia não apoiava Guterres, o embaixador António Monteiro relativizou essa leitura: "A Rússia objectivamente ajudou a candidatura de António Guterres ao colocar a Alemanha em sentido" quanto ao eventual lançamento da candidatura da búlgara Kristalina Georgieva, ao "lembrar que havia critérios a seguir e que a Bulgária já tinha candidato", enfatizou na altura o antigo representante de Portugal junto da ONU ao Diário de Notícias.