Os gins para serem bebidos sozinhos ou (quase sozinhos) são os que mais facilmente morrem afogados

É raro o gin que não tenha um sabor horrendo. Os produtores explicam que são feitos para serem bebidos com água tónica.

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Começou a Primavera e o gin volta a sair do armário. A procura do perfect serve é muito interessante porque se estão a discutir milhares de combinações possíveis.

O caminho oposto é considerar o gin só por si. Até agora têm sido muito poucos os gins que querem ser bebidos sem mais nada. Há um Beefeater envelhecido em velhos cascos de Lillet — o Burroughs Reserve — e há o Oxley. O Burroughs Reserve é batota mas é uma batota usada pelos whiskies escoceses e irlandeses. O resultado é desconcertante. Se calhar estamos programados para conceber o gin como uma bebida fresca — num gin tónico, num cocktail ou num dry martini.

O Oxley é produzido segundo um processo complicado e engenhoso (vale mesmo a pena ler como se faz) que dá um gin etéreo e fresco, diferente de todos os outros.

Pode dizer-se o único gin realmente sério, já que pede que o bebamos sozinho, só com um twist de toranja. O Oxley é mais caro do que os outros gins mas custa muito mais a produzi-lo (desta vez a propaganda corresponde à verdade), vem em garrafas de litro com uma graduação alcóolica de 46 graus. Feitas as contas, custa tanto como os outros gins mais caros.

Provei à temperatura ambiente, arrefecido no congelador (a garrafa presta-se a isso) e num dry martini. Morno deixa-se beber, embora não seja agradável por causa do álcool. Frio é melhor. O zimbro é leve e fresco. Não é propriamente tão bom como uma Williamine ou outra eau-de-vie de fruta mas é bebível. É capaz de ser o único gin que sobrevive a esta nudez. É, aliás, nu que este gin mais se distingue. É tão delicado que mal se nota num dry martini. Num gin tónico desaparece completamente.

O Oxley faz lembrar uma Zubrowka ou uma Akvavit (ambas mais baratas e melhores para acompanhar comida). Aproxima-se das vodkas de ervas mas é muito mais subtil, harmonioso (com sussurros de casca de laranja) e evanescente.

Em vez de perder tempo a arranjar maneiras de bebê-lo (sem ser simples com um twist de tângera), parece-me ser mais interessante procurar comidas que seja capaz de acompanhar. Para já porta-se mal com peixe fumado e azeitonas. Permanece, por enquanto, um mistério — mas um mistério à espera de ser descoberto e possivelmente resolvido.

Há muitos gins que dizem que são feitos para serem bebidos em dry martini — geralmente são os mais bem feitos, menos preocupados em serem disfarçados pela água tónica. A melhor maneira de testá-los é bebê-los frios sem nada e depois ir acrescentando gotas de vermute branco extra-seco.

Um dos melhores é o No.3 feito pela Berry Bros, uma excelente e antiquíssima companhia de vinhos, inventora do whisky Cutty Sark. Quem a produz é a De Kuyper, uma destilaria holandesa ainda mais antiga que também produz alguns licores intragáveis.

O No.3 é um gin reaccionário. Tem poucos botânicos. É simples. No entanto, é delicioso precisamente por equilibrar o zimbro. É também muito mais versátil do que diz, brilhando num gin tónico com Fever Tree normal.

Embora custe mais do que duas garrafas de Beefeater ou Tanqueray, faz com que esses gins pareçam histericamente azimbrados. Eles gritam enquanto o No.3 canta. É um gin calmo e arredondado, discreto e cordato.

A melhor maneira de provar um gin antes de comprá-lo é prová-lo à temperatura ambiente num pequeno copinho de plástico: isto é, sem favores nenhuns. É assim que fazem nas melhores lojas de Londres.

É uma experiência estranhíssima provar assim gins que toda a vida bebemos com muito gelo e água tónica. É raro o gin que não tenha um sabor horrendo. Os produtores explicam que são feitos para serem bebidos com água tónica. Mesmo assim, é facílimo descobrir os defeitos de um gin porque eles saltam-nos para a boca e para as narinas.

Só os melhores gins é que sobrevivem. São muito poucos — e nada têm a ver com os nossos favoritismos. É preciso coragem para ser desiludido. Valerá a pena saber como temos sido enganados? Acho que sim.