Marroquino que viveu em Portugal acusado de recrutar para o Daesh

Suspeito foi acusado de oito crimes todos associados à sua alegada actividade terrorista.

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ALAA AL-MARJANI/REUTERS

O Ministério Público anunciou esta sexta-feira ter acusado um cidadão marroquino, de 64 anos, que viveu em Portugal de integrar a organização terrorista Daesh, além de recrutar elementos para a mesma organização e de a financiar.

Segundo um comunicado da Procuradoria-Geral da República o suspeito, que se encontra preso preventivamente no estabelecimento prisional de alta segurança de Monsanto, foi acusado de oito crimes, todos associados à sua alegada actividade terrorista. Da lista de ilícitos fazem parte quatro crimes de uso de documento falso com vista ao financiamento do terrorismo, um de financiamento do terrorismo e outro de recrutamento dessa actividade. Abdessalam Tazi, um antigo agente da polícia de Marrocos, está ainda acusado de um crime de adesão a organização terrorista internacional e de outro de falsificação com vista ao terrorismo. 

"De acordo com a acusação, o arguido, tendo aderido à organização terrorista internacional Daesh, procedeu em Portugal, preferencialmente junto do Centro Português de Refugiados, à radicalização jihadista e ao recrutamento de jovens marroquinos para integrarem essa organização terrorista", afirma a nota. E adianta: "Terá, designadamente, recrutado um cidadão que foi, depois, detido em França pela tentativa de realização de ataque terrorista naquele país".

Trata-se de Hicham el Hanafi um jovem ao qual Portugal também concedeu asilo político e que acabou detido em França, em Novembro de 2016, quando tinha 26 anos. Tal ocorreu durante uma operação levada a cabo em Estrasburgo e Marselha que culminou com a detenção de outros seis suspeitos jihadistas, de nacionalidade francesa e afegã, que preparariam um ataque terrorista.

Cartões de crédito falsos

Para financiar a sua alegada actividade terrorista, Abdessalam Tazi terá usado cartões de crédito falsos, utilizando depois esses fundos em acções que seriam levadas a cabo por jovens por si radicalizados.

Abdessalam Tazi foi detido na Alemanha e tinha, em Março do ano passado, quando foi entregue às autoridades portugueses, 63 anos. O antigo polícia chegou a Portugal em finais de 2013, vindo de outro país africano com estatuto de refugiado. 

Abdessalam Tazi chegou a viver em Aveiro com Hicham el Hanafi. Quando chegaram passaram pelo centro de acolhimento de refugiados da Bobadela e estiveram depois a morar num centro social do distrito de Aveiro, o Cesda, da Igreja Evangélica Metodista Portuguesa. “Estiveram no nosso centro de acolhimento entre Novembro de 2013 e Junho de 2014. A partir dessa data autonomizaram-se”, contou a responsável por este centro de acolhimento temporário, Liliana Marques, que garante que ali nenhum deles levantou suspeitas na altura: “Eram utentes normalíssimos.”

O facto de passarem grande parte do tempo a viajar para fora do país alertou as autoridades. Desde 2015 que estavam a ser investigados. Ainda em 2014, pouco depois de chegar ao Centro de Instalação Temporária do Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, inspectores do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras reportaram à Judiciária movimentações estranhas do antigo polícia. 

Na Alemanha, Tazi foi detido no Verão de 2016 e cumpriu pena de prisão por crimes económicos. A sua extradição, na sequência de um mandado de detenção internacional emitido pelo Ministério Público português, só aconteceu em Março do ano passado porque se esteve a aguardar a sua saída da prisão.

No decurso da investigação, refere o Ministério Público, descobriu-se que o suspeito tinha processos-crimes de natureza idêntica na Alemanha e na França, tendo este último país chegado a emitir um mandado de detenção europeu contra o suspeito. A investigação, dirigida pelo Departamento Central de Investigação e Acção Penal em colaboração com a Unidade Nacional Contra Terrorismo da Polícia Judiciária, obrigou à troca de informações com os países da União Europeia e a reuniões de coordenação ao nível da Eurojust, refere a nota. 

O último Relatório Anual de Segurança Interna, relativo a 2016, dá conta que nesse ano foram registados em Portugal seis crimes de terrorismo, todos de carácter internacional. Os dados não revelam se nesse ano foi registado algum crime de terrorismo a nível nacional, porque a tê-lo sido o número é a inferior a três e, por isso, está protegido pelo segredo estatístico. Em 2016, a PJ partilhou informações com a Europol em 153 casos de terrorismo (no ano anterior tinham sido em 106) e com a Interpol em 19, mais sete do que no ano anterior.