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Joana Gonçalves
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Paulo Freitas tem 26 anos Joana Gonçalves

“No mundo dos que são grandes”, Paulo fala da bola dos anos 90

No podcast “No mundo dos que são grandes”, Paulo Freitas fala de clubes, jogadores e curiosidades do futebol dos anos 90

De pai para filho: o slogan que serve de mote a muitos grupos organizados de adeptos de futebol representa, na grande parte dos casos, o trilho que a paixão futebolística segue. No caso de Paulo Freitas, natural do Porto, foi o avô que o levou pela mão ao antigo Estádio do Bessa para o seu primeiro jogo. As memórias dessa experiência nunca serão esquecidas: "Tinha oito anos. Foi um Boavista-Belenenses e o Boavista ganhou 1-0 com um golo de Gilmar", dispara rapidamente o jovem actor de 26 anos, ao telefone com o P3. A semente plantada pelo avô deu frutos e Paulo Freitas é, 18 anos depois, o autor do podcast No mundo dos que são grandes, que relembra jogadores, treinadores e clubes da década de 90 e inícios dos anos 2000.

O primeiro episódio foi lançado a 23 de Janeiro e agora, todas as terças, quintas e sábados, Paulo leva os seus ouvintes a viajar no tempo pelos meandros do passado do futebol português. "Foi o futebol que eu comecei a ver e a gostar", diz Paulo, justificando desta forma o afastamento da actualidade. Sócio boavisteiro, não esconde a preferência clubística no programa, garantindo que trata "toda a informação de forma factual", sem qualquer rivalidade.

Assim ficamos a conhecer, por exemplo, Ion Timofte, romeno que em Portugal passou pelo Boavista e pelo FC Porto, destacando-se pelo exímio remate a média e longa distância. Conquistou cinco títulos pelos "dragões" e dois pelos "axadrezados", mas, tal como muitos, não é um jogador que seja lembrado por todos. São justamente estas figuras que — apesar de conhecidas — não estão cravadas na memória colectiva dos adeptos de futebol que o programa pretende reavivar. 

O futebol antigo versus a "guerra" do moderno

A explicação para esta opção cronológica — que diferencia o seu podcast desportivo dos restantes — está relacionada com a inocência característica da infância: "Pelo facto de ser criança [nos anos 90], concentrava-me apenas no que se passava dentro de campo. Agora tenho noção do discurso de ódio que as estruturas têm e que contamina os adeptos". Para ele, o futebol do final do século passado ainda possui a pureza que o desporto-rei dos dias de hoje já não carrega: "Naquela época víamos uma maior dedicação dos jogadores e não havia tanta profissionalização. Era um jogo mais amador e mais próximo do adepto".

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Hoje, não é tão fácil para os amantes de futebol chegarem aos jogadores: "Os jogadores não falam tanto. Os próprios clubes, naquela época, eram mais acessíveis". O facto de os protagonistas serem, mais do que meros desportistas, marcas muito lucrativas, dificulta essa tarefa. O próprio conceito de "boa imagem" mudou muito, nas últimas duas décadas: "Agora já não há jogadores de bigode", diz, entre risos, Paulo. "Lembro-me, inclusive, de estar a ver um jogo do Manchester United e o guarda-redes estar a tapar o sol com a luva. Lembrei-me logo de que, noutros tempos, os jogadores levavam bonés para o relvado. Isso, hoje, é impensável." 

O actor que se aventura na rádio

Durante a sua — ainda curta — vida, o jovem natural do Porto seguiu um percurso académico afastado da área desportiva. Sempre quis ser actor e aos 15 anos, quando ingressou num curso de representação, apercebeu-se que o seu caminho não poderia ser outro. Desde então, tem trabalhado como freelancer na Cabeças no Ar e Pés na Terra, companhia de teatro de Ermesinde que se dirige sobretudo a um público escolar.  

No entanto, a paixão pela compilação de conhecimento sempre o acompanhou, ainda que em áreas muito particulares, como o desporto. "Quando era miúdo tinha um lado muito arquivista, sem perceber. Lia as revistas do início e final da época com as estatísticas", refere o jovem. E o facto de o futebol ser um mundo em constante mutação fez Paulo querer saber mais. "Queria descobrir os jogadores que comecei a ver no final da carreira ou os jogadores que nem cheguei a ver jogar", conta. Os vários clubes por onde passaram, o número de golos marcados, qualquer facto curioso: gostava, simplesmente, de absorver as informações.

Numa fase inicial, Paulo pensou usar o seu conhecimento num jogo de perguntas e respostas, um quizz para apresentar em bares e cafés. Porém, de forma repentina, decidiu experimentar o formato radiofónico e criar o podcast. O programa existe há cerca de dois meses, mas ainda é cedo para conclusões definitivas. Para já, e ao fim de 12 episódios, o balanço é positivo. "No início", conta, "foi um boom e isso ainda acontece sempre que há um episódio novo — formou-se uma base leal de ouvintes que ouvem todos os episódios".

Enquanto houver histórias, fica a promessa de que o podcast vai continuar. Para levar aos ouvintes mais nostálgicos histórias de uma época futebolística que, para o bem e para o mal, já não volta mais.