Crítica

Desaparição

Uma adaptação inerte do romance de Vergílio Ferreira

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Para a sua quarta longa-metragem — primeira em 12 anos, numa carreira que tem sido feita entre a produção e a realização para televisão — Fernando Vendrell “atira-se” a Vergílio Ferreira, escritor difícil (mas não impossível) de traduzir em imagens. E falha redondamente: esta interminável e desastrosa Aparição, baseada no romance de 1959, parece nunca saber por onde quer seguir. A transmutação da experiência pessoal em ficção? A adaptação, em finais dos anos 1950, de um jovem professor idealista a uma cidade de província fechada e conservadora que parece derrotar todas as tentativas de evasão? O romance toca-e-foge desse professor com uma jovem que procura resistir ao cinzentismo dominante e manter a sua identidade de mulher livre?  Vendrell quer estar em todas, prestar igual atenção a todos esses fios condutores, mas apenas acaba por dispersar o filme sem nunca criar um centro narrativo, nem conseguir tornar visível a passagem do tempo, central ao desenrolar dos acontecimentos. Tudo é agravado pela passividade tolhida de Jaime Freitas, que tínhamos visto tão bem no Amor, Amor de Jorge Cramez e que aqui se limita a uma presença neutra, apagada, inerte. Ao querer filmar a obra de Vergílio Ferreira segundo uma lógica narrativa acessível de “romance iniciático”, mas sem afectar a dimensão filosófica da trama, Fernando Vendrell acaba por não fazer justiça ao livro e por desbaratar o que de bom por ali anda (o cuidado na ambientação de época, a presença de Victoria Guerra, a banda-sonora de Eduardo Raon). Desde os primeiros planos, com aquela voz-off abstracta, Aparição parece nado-morto, mera colagem de retalhos, sem ritmo nem tempo, de um filme mais longo que ficou por fazer ou por acabar.