Editorial

Um humano sublime

É fácil elogiar um homem superior como Stephen Hawking. Mas é bem mais difícil que, enquanto espécie, estejamos à altura do seu intelecto.

A determinação de Stephen Hawking será o aspecto mais assinalável de uma vida longa e muito mais rica do que seria de esperar. Ele foi um dos nossos maiores, não só do século XX mas da espécie, ultrapassando obstáculos tremendos para continuar o trabalho a que se propôs.  

O cientista britânico depressa foi colocado junto dos maiores vultos da ciência do século XX. De um lado Albert Einstein, proximidade explicada pela associação à cosmologia e ao fascínio pelas grandes teorias da física. Do outro o enorme Carl Sagan, figura pop por excelência da ciência que motivou gerações inteiras a procurar a biologia, a física e a matemática como projecto de vida — tal como Hawking fez, o homem dos buracos negros, do Big Bang e da cadeira de rodas.

Mas Hawking foi mais do que isso. Foi um exemplo de superação — da doença, mas acima de tudo da capacidade plástica de adaptação do intelecto humano a um raciocínio abstracto que vai muito para lá da capacidade de compreensão tradicional. A forma como o seu cérebro superou as limitações físicas do corpo em que estava, como se moldou a reter, processar e comunicar informação. As suas teorias são extraordinariamente complexas e impossíveis de verificar, colocando-o numa classe à parte de pensadores que cruzam fronteiras de conhecimento e limitações teóricas. Mas nada disso alguma vez o impediu de dominar a sua própria narrativa e de comunicar a sua ciência — sempre com um sentido de humor muito peculiar.

A força bruta dos computadores será exponencialmente superior à do cérebro humano e eles conseguirão realizações magistrais. Mas será difícil esperar que uma máquina alguma vez mostre a capacidade de adaptação, de resiliência, de genialidade que o humano atinge. Sim, geneticamente somos indistinguíveis dos macacos. Mas temos este órgão anormalmente evoluído que nos permite ser muito mais do que aquilo a que soma dos genes nos condenou. Pena é que o usemos tão pouco.

Ironicamente, esta capacidade plástica do cérebro humano, bem representada pela mente brilhante de Hawking, poderá ser instrumental na nossa adaptação aos desafios da computação. Estamos a entrar numa era em que a nossa inteligência vai ser ampliada, primeiro, e desafiada, depois. Se será condenada à irrelevância vai depender das decisões que tomamos hoje, como o próprio cientista britânico alertou.