O.J. Simpson confessa ter matado ex-mulher e amigo. "Hipoteticamente"

A confissão "hipotética" consta de uma entrevista gravada em 2006 e só revelada agora. Fox diz que a cassete esteve "perdida" e foi recentemente encontrada.

O.J. Simpson tem hoje 70 anos
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O.J. Simpson tem hoje 70 anos Reuters/POOL

O.J. Simpson construiu uma carreira de sucesso como jogador de futebol americano na década de 70. Nos anos 90, a fama cresceu e tornou-se global, mas não graças ao futebol. O atleta e também actor foi julgado pelo duplo homicídio da ex-mulher, Nicole Brow, e de Ronald Goldman, amigo desta. O mediático julgamento terminou com a sua absolvição em 1995. Agora, duas décadas depois, o canal Fox exibe uma entrevista datada de 2006 e arquivada desde então onde O.J. confessa ter sido “hipoteticamente” responsável pelas duas mortes.

A entrevista foi para o ar este domingo, num especial de duas horas de duração. Em O.J. Simpson: The Lost Confession (O.J. Simpson: A Confissão Perdida, numa tradução livre), o antigo jogador conta o que terá acontecido a 12 de Junho de 1994, colocando-se no papel do homicida mas ressalvando sempre que se trata de um cenário hipotético. À data da entrevista, em 2006, o ex-atleta estava prestes a lançar o livro If I Did It (Se eu tivesse feito). É, aliás, à responsável pela edição do livro, Judith Regan, que O.J. Simpson concede a entrevista onde descreve como teria matado Nicole Brown e Ronald Goldman. A publicação acabou por ser cancelada.

Numa entrevista que soa mais a confissão do que a suposição, O.J Simpson pormenoriza elementos da cena do crime — “sangue e outras cenas” — ao mesmo tempo que sublinha relatar um cenário hipotético. O ex-jogador diz que naquela noite estava acompanhado por um amigo chamado “Charlie” quando se deslocou à casa da mãe dos seus dois filhos. Conta ainda que foi “Charlie” que lhe disse para ir a casa de Nicole.

Simpson refere-se ainda a Ronald Goldman como "um tipo" que não reconheceu. “Podia já tê-lo visto antes, mas não o reconheci”, contou. Teria sido “Charlie”, diz ainda O.J., quem lhe entregou a faca utilizada como arma do crime.

“Quando as coisas ficaram mais tensas, lembro-me que a Nicole caiu e magoou-se e este outro tipo começou a fazer uma posição qualquer de karaté. Perguntei-lhe: Achas mesmo que me consegues bater?”, disse. “Depois peguei na faca — lembro-me que a tirei ao Charlie — e depois, para ser honesto não me lembro do que aconteceu, excepto que estava ali em pé e estava rodeado de todo o tipo de ‘cenas’ à minha volta”, acrescentou.

“Que tipo de ‘cenas’?”, perguntou-lhe a mulher que conduz a entrevista. “Sangue e outras cenas”, respondeu Simpson, acrescentando que "nunca tinha visto tanto sangue na vida". Depois riu-se e lembrou que estava “apenas a falar hipoteticamente”. “Odeio dizer isto, mas tudo isto é hipotético. Mas não acredito que duas pessoas pudessem ter sido assassinadas da maneira que foram sem terem ficado cobertas em sangue”, justifica.

Quando questionado sobre uma luva encontrada no local do crime, uma peça central da acusação contra o atleta durante o julgamento, Simpson voltou a falar assertivamente na primeira pessoa. “Não tenho memória de o fazer, mas obviamente devo ter tirado a luva depois do crime uma vez que eles a encontraram lá”, comenta O.J. Simpson, que disse ainda que se terá livrado das roupas que tinha. Mais uma vez, “hipoteticamente”.

Depois da exibição da entrevista, a hashtag DidOJConfess (qualquer coisa como #OJConfessou?) tornou-se num dos assuntos mais populares na rede social Twitter.

Para Christopher Darden, um dos procuradores que fez parte do julgamento de 1995, “Charlie” é na realidade uma espécie de alter-ego de O.J Simpson. “Isto não é hipotético. Eu acredito que ele confessou o crime”, diz.

De acordo com a rede televisiva norte-americana — dona da editora que estava a preparar a publicação do livro —, a cassete estava “perdida”. Na altura, a Fox recuou com a decisão de exibir a entrevista, em resposta à onda de críticas que o anúncio gerou, recorda a CNN.

O julgamento do duplo homicídio, que foi transmitido em directo nos principais canais de televisão dos EUA, deu lugar, em 2016, a uma série de televisão intitulada The People v. O.J. Simpson: American Crime Story, que venceu vários Globos de Ouro e Emmys.

Apesar de ter sido absolvido no caso de duplo homicídio, O.J. Simpson chegou mais tarde a cumprir uma pena de prisão noutro caso, este remontando a Setembro de 2007, em que foi condenado a 33 anos por assalto à mão armada, sequestro e formação de quadrilha. Acabou por ser libertado em 2017, após nove anos atrás das grades.