Opinião

Itália: mais do mesmo

Na prática, Bruxelas perde um aliado confiável no curto prazo, porque a instabilidade em Roma vai continuar.

A improvável coligação de direita venceu e manteve a Itália no caos. Salvini, o demagogo extremista, quer ser primeiro-ministro, liderando uma coligação temerária com Berlusconi — e empurrando para a oposição o mais votado 5 Estrelas.

O Partido Democrático de Renzi teve um péssimo resultado e a liderança ficou deserta. Com ele, o centro político entrou em coma, dada a pulverização de resultados para os extremos. O caos não é propriamente uma situação inédita para a Itália. A jovem república — que, convém recordar, vem apenas da segunda metade do século XIX — tem um historial de soluções governativas rocambolescas que passaram por enormes coligações de partidos com visões opostas e soluções de poder em que a instabilidade era a norma.  

Importa perceber que, numa primeira análise, isto teve muito pouco que ver com a Europa no sentido estrito. Ninguém votou numa determinada postura face à Europa, até porque o tema foi convenientemente deixado de lado durante a campanha — os partidos do centro por medo de que a defesa da Europa lhes tirasse votos, os partidos dos extremos a não quererem ser honestos no seu cepticismo para não afastar os eleitores do centro. Como se tem verificado de forma consistente nos últimos anos, a estratégia resultou para os extremistas e saiu pela culatra aos partidos do centro. Não é por acaso que a derrota mais estrondosa e inesperada dos extremistas na Europa tenha sido em França, onde o vencedor Macron empunhou com orgulho e sem ambiguidades a bandeira da Europa e a partilha dos seus valores.

Mas claro que as consequências para a Europa são mais do que muitas. Na prática, Bruxelas perde um aliado confiável no curto prazo, porque a instabilidade em Roma vai continuar. Do ponto de vista financeiro, o cenário também não é o melhor: assim que os resultados foram conhecidos, a bolsa caiu, porque a instabilidade é a pior inimiga dos mercados. O pior é que o poder está do lado dos eurocépticos, tornando mais difícil qualquer acordo de fundo com um fundador original da Comunidade Económica Europeia, membro do G8 e o quinto país mais populoso do continente. A única questão “europeia” de que se falou nas eleições, e ainda assim de forma convenientemente superficial, foi a dos imigrantes, a quem dá jeito assacar os males da Itália — cuja abordagem populista terá dado mais alguns votos a Salvini. Não vão ser tempo fáceis, nem em Itália nem em Bruxelas.