Mynda Guevara

Guerreira do rap

Nome promissor da nova geração do rap crioulo, Mynda Guevara reivindica um lugar para as mulheres nos circuitos do hip-hop português. 2018 é ano de novas canções.

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21 anos. Nasceu na Cova da Moura e sempre conviveu com o rap. Na sua lista de referências cruzam-se nomes como Beto di Ghetto, Chullage, IAMDDB, Lauryn Hill ou Teresona. Este mês dá a conhecer Ken Ki Fla, o segundo single de avanço do seu EP de estreia, Mudjer Na Rap Nuno Ferreira Santos

“O rap está em primeiro lugar, o resto vem por acréscimo.” Mynda Guevara fervilha de convicção. Sabe bem o que quer – “fazer do rap vida” –, mesmo quando isso significa ter de fazer um grande esforço para pagar as gravações das músicas e investir em videoclipes. “Sou eu que pago tudo o que faço. É complicado, mas tem de ser.” Esta postura aguerrida faz parte dela e faz parte da sua música. Chega-se à frente numa voz combativa, sem truques, sem vacilar, cheia de vida lá dentro. Nome promissor da nova geração do rap crioulo, é hora de ouvirmos Mynda Guevara – 2018 também é o ano dela. Ano de novas canções, que serão depois reunidas no seu EP de estreia.

Nascida e criada na Cova da Moura, filha de cabo-verdianos, Mynda sempre conviveu com o rap. Em casa, o irmão mais velho punha-a a ouvir rap de intervenção feito nos bairros de Lisboa, de Chullage, Valete, Beto di Ghetto, Primero G e Kromo di Ghetto, a quem juntava alguns nomes lá de fora, como Wu-Tang Clan e Nas. Nas ruas, o hip-hop fluía; era mais um elemento da paisagem. “O facto de ter crescido na Cova da Moura também é importante para a música que faço. O rap crioulo tinha muita força aqui”, afirma a rapper, que já deu concertos em espaços lisboetas como as Damas, Casa Independente e O 36.

Começou a cantar quando era criança. Aos 13 anos, passou a frequentar o estúdio do bairro, integrado na Associação Cultural Moinho da Juventude. Logo à primeira, estava no sítio certo, no momento certo. “Na primeira vez que fui ao estúdio, o Dani G e o Saliu estavam a precisar de uma voz feminina para uma música e convidaram-me para cantar o refrão.” Seguiram-se colaborações com vários rappers da Cova da Moura, entre eles Ridell e Naote.

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Nuno Ferreira Santos

Entretanto, Mynda começou a querer mais. Já não lhe bastava cantar com os outros, para as músicas dos outros. Decidiu então “lançar-se na aventura” de escrever as suas próprias letras, cantá-las, procurar produtores para fazer os beats. Ao mesmo tempo, não conseguia deixar de pensar sobre o quão dominado por homens era o circuito que a rodeava. Tudo isto deu origem à sua primeira canção a solo, Mudjer na Rap Krioulo, em 2014. Funcionou como um manifesto e uma declaração de intenções. “Quis lembrar às pessoas que também há mulheres a cantar rap e que o rap não tem género. E que eu estava aqui para marcar terreno”, recorda Mynda. Nessa altura foi buscar o apelido a Che Guevara, precisamente pela “essência revolucionária” que procurava.

Construir o seu caminho não foi fácil. “O rap é um meio um pouco machista. Nós, mulheres, temos de provar constantemente que somos capazes de fazer as coisas. Temos de trabalhar a duplicar ou a triplicar em comparação com os rapazes. Já senti isso na pele, principalmente no início. É preciso muita força de vontade”. Ao longo do percurso foi colhendo cada vez mais referências de rappers mulheres, entre elas Lauryn Hill, Young M.A., IAMDDB e Paigey Cakey, e encontrando mais cúmplices à sua volta, como Juana na Rap, Teresona, G Fema, Lady N ou a rapper da velha escola Telma Tvon – foi, inclusive, ao lado de algumas delas que Mynda esteve a falar sobre os desafios de ser mulher neste circuito no encontro RAPensando as Ciências Sociais e a Política, em Coimbra, no ano passado. Para ela, é preciso tirar da invisibilidade o trabalho das rappers portuguesas e desconstruir as expectativas sociais de género que tanto intoxicam o rap como a vida em geral. “Ter uma mulher a cantar rap é pouco natural na cabeça de muitas pessoas. Acho que é uma coisa transversal: uma mulher que desempenhe uma função que se normalizou como sendo desempenhada por um homem é sempre olhada de forma diferente.”

Por isso, e para “dar força a outras raparigas que queiram entrar no movimento”, o foco das suas letras é “o poder da mulher”. É esse o tema do próximo single, Ken Ki Fla, que chega já este mês e que sucede a Nha Mundo, um relato íntimo e político sobre a Cova da Moura e o primeiro avanço do EP Mudjer Na Rap, com lançamento previsto para este ano. O plano é ir pondo cá fora algumas das novas canções, em formato videoclipe, até à edição do disco. “O videoclipe é o modo mais eficaz de chegar às pessoas”, considera Mynda. “Elas querem ver a tua atitude, como cantas, como te moves.”

Mudjer Na Rap conta com beats originais de produtores como Charlie Beats, Lilocox ou L-Vin Beats. Passará por várias gramáticas do hip-hop, do trap ao hardcore, do boom bap a uma linhagem mais soul, fazendo valer a versatilidade de Mynda Guevara. Tanto há audácia rítmica, agressividade, melodia e tonalidades dulcíficas na sua voz, como se pode conferir em Nha Guerrero, Hey Mana, Sempri Foi Assi ou na mais recente Nha Mundo, músicas disponíveis no YouTube e que contabilizam milhares de visualizações – apesar da maior parte do rap feito nos subúrbios de Lisboa passar ao lado da quase generalidade dos programadores de salas do centro da cidade e de muita da imprensa portuguesa, não falta quem o ouça.

Por agora, Mynda Guevara vai continuar “no combate”. “Trabalho para poder ter meios para fazer a minha cena, para fazer o que gosto”, diz a rapper formada em Marketing e Comunicação, de momento a trabalhar na área da restauração. Esteja onde estiver, o caderno de apontamentos é companheiro fiel. “Vou escrevendo sempre.” Não esqueçamos que, para ela, o rap é quem mais ordena.