A música da Lisboa invisível tem milhões de cliques no YouTube

Fazem música à margem da indústria, mas não são underground. Têm milhares – ou milhões – de visualizações no YouTube, andam em concertos por vários países, mas nem uma biografia disponível na Internet. Percurso pelos subúrbios de Lisboa à procura dos (outros) grandes hits do momento.

Foto
Nuno Ferreira Santos

São jovens, vivem na periferia de Lisboa, fazem música praticamente sozinhos. Muitos começaram no computador, em casa. O circuito comercial oficial não os conhece. Não estão nos tops de vendas das grandes lojas de discos. Funcionam como uma espécie de mercado paralelo da música, mas poucos conseguem viver do que criam. Os seus hits têm milhares de visualizações – alguns chegam aos milhões. Actuam no bairro onde vivem, só que a dimensão da popularidade extrapola esse território: há quem faça concertos em França, Luxemburgo, Suíça, Espanha, Cabo Verde, Angola…

Isto mesmo foi o que notou o investigador em Estudos Urbanos António Brito Guterres na sua Tedx Talk do ano passado, A cidade invisível de Lisboa – a TED é uma organização dedicada ao lema “ideias que merecem ser compartilhadas”, e a Tedx é um programa organizado localmente de forma independente com o mesmo espírito.

Nesta intervenção que pode ser vista no YouTube, Brito Guterres passa em revista as mudanças da cidade-centro e a formação das periferias, marcadas pelas migrações internas e pelas imigrações. Conta a história de uma professora de um dos subúrbios que queria conhecer melhor os seus estudantes através da música, mas não conseguia encontrar o que ouviam em lado nenhum (justamente porque o que ouviam estava nos circuitos que ela desconhecia).

Mostrando o top 10 da loja Fnac, o investigador escolheu seis dos singles dos artistas aí representados, como David Fonseca ou Ornatos Violeta (no YouTube há vários anos) para concluir que têm pouco mais de 100 mil visualizações. Comparou com os dados de alguns singles de rappers feitos nos subúrbios, gravados em armários de quarto, cantados em crioulo e com letras duras sobre a realidade, e chegou a números muitíssimo superiores: nenhum abaixo dos 500 mil, três a bater ou a superar o milhão. “Não conhecer a cidade toda é normal, agora não conhecer algo a esta escala…”, comentava. “Um artista que tem um milhão de visualizações é artista aqui, em Londres, em Nova Iorque…” – e em todo o lado.

PÚBLICO -
Foto
Nuno Ferreira Santos

Afinal, quem são estes artistas que estão à margem da “cidade vigente”, têm milhares de fãs, mas nem uma biografia sobre eles está disponível na Internet? O que cantam que os torna tão populares? Como gerem essa popularidade desconhecida pela indústria formal? Visita guiada por vários territórios onde a música da “cidade invisível” se faz ouvir alto e bom som.

Do bairro para Cabo Verde

Do bloco onde vivem os pais de Loreta miram-se o castelo e os prédios de Sintra – daí o nome dado a esta localidade, Mira-Sintra. Loreta, que canta sobretudo em crioulo, tem videoclips como Mata um genio, onde aparece de armas em punho, ao lado de uma mulher loira que carrega uma espingarda, ou outros, como Vida sta mariado, a partir de uma música de Orlando Pantera, num cenário mais descontraído e de lazer.

Com contas no Spotify e no iTunes, duas plataformas que colocam à disposição do utilizador um cardápio vastíssimo de música, tem uma legião de seguidores – no Facebook são mais de 17 mil fãs, no Instagram cerca de 12 mil, a página do seu colectivo KBA tem 26 mil likes e há vídeos com mais de meio milhão de visualizações no YouTube – um dos vídeos, Nha identidade, chegou a ter um milhão.

O fundador dos KBA, 28 anos, dois filhos, mudou-se recentemente do apartamento dos pais, no Bairro Fundação D. Pedro IV, mas é lá que nos recebe, com a mãe a abrir a porta. A população é maioritariamente composta por pessoas realojadas no início de 2000, misturando raças e etnias – brancos, ciganos, negros, afro-descendentes.

Loreta começou a tentar fazer música aos 11 anos, no bairro de lata onde vivia. Experimentava com cassetes, tentava repetir partes de músicas que ouvia. O pai toca acordeão e funaná. “Cresci a ouvir música. Lembro-me de ser pequeno e os meus irmãos porem música de Cabo Verde."

A partir dos 13, com um amigo cantavam em festas da comunidade. Começaram a ganhar gosto e a ser convidados para outras festas. Gravaram pela primeira vez com o estúdio móvel do produtor e músico Primero G, num mini-disc – tinham uns 15 ou 16 anos.

Mais tarde organizou-se com outros amigos para “juntar as pontas”: um comprou o microfone, outro comprou uma torre, outro comprou um ecrã e montaram o home studio, que ia girando por casa uns dos outros. A primeira mixtape que criou, “para aí em 2007 ou 2008”, nem foi ele que a colocou na Internet. Eram cerca de 11 músicas e Loreta lembra-se de ter ficado surpreendido com os convites para tocar em outros bairros. “Começámos a acreditar: o people está a gostar disto, também gostamos, vamos continuar.”

As coisas mudaram quando conheceu o “Katana” das Katana Produções, que tinha um estúdio em Odivelas onde gravaram o primeiro álbum em 2013: Desde Sempre para Sempre. Depois veio Buling, e a seguir Loreta iniciou-se a solo com os álbuns DMT, Last Hope, e, agora, Santos e Pecadores.

Loreta foi mobilizador comunitário, colaborou com a organização não-governamental Olho Vivo e com o programa Escolhas, do Alto Comissariado para as Migrações, trabalhou nas obras, mas neste momento está no desemprego. A música não chega para pagar as contas. “Tenho uma casa arrendada, só com a música é impossível viver.”

Numa loja tradicional não é possível comprar a música de Loreta. Antigamente, ia a uma fábrica, fazia uns 500 CD e em cada espectáculo vendia 20. “Não sinto que tenha uma obra digna de estar à venda num circuito mainstream, porque é preciso money, horas de estúdio, é mais a qualidade do produto final, ter qualidade suficiente para passar numa rádio.”

Foi só em 2014 que actuou pela primeira vez em Cabo Verde. Quando chegou à Cidade da Praia, tinha pessoas no aeroporto à espera, a tirarem fotos em cada passo; na rua era reconhecido, os miúdos abordavam-no em massa. Abriram o concerto de Anselmo Ralph, e foram actuar em mais um par de sítios na ilha de Santiago. “Sempre a abarrotar. No show do Tarrafal estivemos duas horas para sair do palco.”

Loreta tem mais de 200 músicas que nunca pôs na Internet, trabalha a “toda a hora”. Acha que é popular por ter conseguido dar uma versão “século XXI à cabo-verdianidade”, “fácil de perceber para quem é de Cabo Verde e para quem nasceu na Europa”.

Filho de cabo-verdianos que nasceu em Portugal mas não tem nacionalidade portuguesa, sente que pertence a uma geração de “afro-tugas”, um “bocado sem terra”. Da música que faz diz que é um diário ou uma chamada de atenção, “o trabalho do jornalista”, coisas que observa e acha que estão erradas. “Não sigo uma linha. Faço intervenção, mas também vou falar sobre um dia espectacular que tive.” Fala sobre realojamentos, injustiças, violência policial. “A violência e brutalidade policial são das coisas que mais me indignam. Isso significa pôr tudo no meu saco. Todos os dias brancos roubam, todos os dias pretos roubam. Não se vê o puto de mochila branco a ser encostado à parede e revistado, mas vês acontecer isso aos jovens africanos ou descendentes de africanos." Disso trata A bófia apontou-me uma arma.

Mas, diz, só “30% a 40%” das músicas falam de temas mais duros. “Quando somos músicos 100% de intervenção, não nos tornamos populares, e isso faz com que nem toda a gente consiga ouvir a nossa voz. Se conseguir tornar-me popular para que quando abrir a boca um milhão de pessoas me ouça, então consigo intervir.”

PÚBLICO -
Foto
Miguel Manso

Vai cantar no Algarve, no Porto, em Lisboa, tem um público diverso, mas acha que “a grande força” são jovens como ele, “descendentes de cabo-verdianos”. A maioria dos likes na sua página do Facebook é de Lisboa; em segundo lugar vem Luanda, depois Paris, Cidade da Praia… Já foi cantar várias vezes ao Luxemburgo e a França, à Espanha, à Suíça, a Cabo Verde, com “casa sempre acima da média”.

Há um lado nele que não tem a certeza de querer fazer parte da indústria. “O CD para vender a um público maior tem de fugir um bocado ao que tenho feito. Tinha de fazer mais músicas em português, que dessem para passar num clube, e com outros conteúdos, não tão crus.” Mas não se importava de ter os seus discos em lojas como a Fnac, “claro!”. O que ganha com visualizações no YouTube “é mínimo”: "Menos de meio cêntimo por visualização…”

O que era preciso para viver da música? Ter alguém que lhe agendasse dois concertos por mês, pelo menos. “Os organizadores de eventos ainda têm o pé atrás por o rap ser uma música de rua, de bandidagem, e ainda não perceberam que é um mercado novo por explorar e tem muitos seguidores.”

O segredo da sua popularidade é “bastante básico”: “A música quando é boa tem pernas próprias. Quando se ouve uma boa música, mostra-se ao amigo, que mostra ao amigo, e aquilo alastra-se.”

Música para curtir

De Mira-Sintra ao Vale da Amoreira, na Moita, são quase 2h30 de caminho em transportes públicos, comboios. Atravessamos a ponte sobre o Tejo de carro, numa manhã de sol. Do centro de Lisboa não demora mais de 30 minutos. Passamos de uma localidade com uma população de pouco mais de cinco mil pessoas para outra com cerca de dez mil, segundo os dados oficiais. Aqui vivem maioritariamente portugueses. Há também população cigana e de origem cabo-verdiana, angolana, guineense.

Deejay Telio, 19 anos, e o seu colectivo Somos a Família (SAF) são mesmo uma família – a entrevista será feita em grupo, num dos pátios dos prédios do bairro, com Deedz, Dino e Ericsson. O lema dos SAF é: “Pomos a lealdade acima de tudo.”

 É aquela história do pão, né?, diz Ericsson

 Eh! Já esqueci!, comenta Telio. O pão é o essencial. Estava no Minipreço a comprar pão. Este estava a comprar o fiambre  aponta para Ericsson –, este o queijo, o outro manteiga, vai apontando para os outros membros do grupo

 No meio disso a gente se encontrou na caixa e viu que dava para formar uma coisa, completa Ericsson, a rir.

O single oficial de Deejay Telio e Deedz, Não atendo, tem quase cinco milhões de visualizações. Que safoda, só áudio, tem quase três milhões – a mesma música, noutro clip, chega quase aos 3,5 milhões, ou seja, mais de seis milhões no total.

“Muita gente pensa que gravei o Que safoda bêbado”, ri-se Telio, cinco mil amigos e 13 mil seguidores no Facebook, 44 mil no Instagram. “Estava em casa a fazer beat, deu-me uma ‘nóia’ e gravei. Fui-me deitar. Depois a música ficou quatro, cinco meses em casa a apanhar pó. E quando saiu foi o boom, explodiu!” O segredo do sucesso? “É mais pela palavra, que 'safoda', ‘não quero saber de nada’."

Começou a fazer música no dia em que o primo lhe disse que tinha descoberto o programa com que o rapper americano 50 Cent fazia os seus beats, conta a rir. Já dançava kuduro, tinha uns 11 ou 12 anos. “Fiquei duas semanas no PC, era escola-casa, escola-casa, faltava ao treino e tudo." O computador era da escola, tinha “uns phones normais”. E sozinho pôs-se a fazer beats para kuduro. “Lembro-me da minha primeira batida. A primeira música completa foi em 2009.”

Telio saiu de Angola com uns quatro anos, cresceu na mesma casa do Vale da Amoreira em que vive, cresceu com o “povo PALOP”. A mistura no bairro, até mesmo dos calões angolano e cabo-verdiano, reflecte-se na música.

No ano passado, lançou Karanganhada – um EP que não chegou a ir para as lojas de música, foi vendido online, e em cabeleireiros e outros estabelecimentos, num circuito informal; este ano sairá Karanganhada 2, uma palavra de origem cabo-verdiana que quer dizer “festa, curtição, ambiente de convívio”. Telio quer que o seu estilo seja identificado como “karanganhada”, embora as influências nos seus beats sejam várias: pode ter trap, bongos, trompete, funaná… Fala sobretudo de animação e festa. Não aborda problemas. “Para quê falar de problemas? Quando estou ao microfone, esqueço o que está lá fora.”

Os SAF estão mais próximos do circuito comercial oficial do que nunca. Os lucros já dão para pagar as contas dos quatro elementos. Vendem música mas também t-shirts, óculos, bonés… No dia em que os encontrámos, tinham acabado de chegar de um concerto em Paris, no Vila Moura Club. O seu público é muito variado. “Estava cheio, umas 1500 pessoas. E foi a segunda vez que fomos para essa discoteca. Já estamos na fase em que damos voltas a discotecas em que estivemos." O mercado é sobretudo em Portugal, e tocam maioritariamente em discotecas. Mas já actuaram em Angola, França, Luxemburgo, Suíça, Inglaterra – e têm marcação para Cabo Verde no Verão.

Neste momento, querem negociar com as grandes cadeias como a Fnac. O estúdio, porém, ainda é caseiro.

PÚBLICO -
Foto
Nuno Ferreira Santos

O produtor que guia os novos

Na Arrentela, Seixal, há quase 30 mil pessoas, segundo os dados oficiais. Subimos as escadas do prédio de Primero G que tem os corredores com ventilação natural. É aqui que tem o seu estúdio Ligação Directa, uma divisão do apartamento onde vive com a mulher e o filho há nove anos.

É preciso subir mais escadas dentro de casa para ir até ao sótão onde estão o computador, o material de produção, e uma colecção de vinis que são usados para samplar, com Quim Barreiros, Roberto Carlos, o hino da Internacional Socialista e muitos outros. Há cadeiras e almofadas, mas o espaço é exíguo. Primero G é o produtor de muita malta nova, alguns estão a começar, outros não. Foi fundador dos TWA, participou em filmes como Outros Bairros, de Inês Gonçalves, Vasco Pimentel e Kiluanje Liberdade.

Com o estúdio consegue ir conhecendo (e influenciando) novos talentos. Serve-lhe também para ir ganhando algum dinheiro nos intervalos de outros trabalhos. Faz de “tudo” naquela divisão: álbuns, EP, batidas, misturas, design para os artistas, tudo como autodidacta.

O do-it-yourself é regra neste percurso que fazemos por alguns dos territórios do rap. Primero G é do tempo em que não havia Internet. Lançou o seu primeiro CD sem essa alavanca. Neste momento trabalha com cerca de dez artistas, organizando-os e orientando-os. Muitos querem falar do que ele falava há 20 anos: vida de rua, fumar ganzas, revolta com a polícia, falta de oportunidades…

Há uma faceta de líder em Primero G que está bem presente e que ele não esconde. Assume o papel de monitor social, ou melhor, de mentor, até no estúdio – uma pele que vestiu quando vivia na Pedreira dos Húngaros, o grande bairro de lata na zona de Algés/Miraflores, desmantelado no final dos anos 1990.

Também ele trabalhou para vários projectos de intervenção territorial e de acção social. “Tive a sorte de ter várias direcções ao longo da minha vida, se não… Cedo aprendi a sair do bairro e a conhecer outras pessoas que não têm nada que ver comigo." E fê-lo através da música, cantando em vários espaços, e depois convidando pessoas de Lisboa para irem cantar ao bairro. “O que a gente passa toda a gente sabe. O que fazia sentido era levar isso para fora do bairro.” No bairro onde vive agora, a polícia não incomoda, é só “pais e avós”, não se passa nada; mas nos bairros sociais as coisas são um pouco diferentes, porque a polícia entra quando quer, desabafa.

Muitos rappers apareceram no estúdio de Primero G com a cena do trap, um estilo americano que ele caracteriza como mais “básico” na construção – no rap é preciso saber samplar, no trap não. "Trap" quer dizer ratoeira. Mais músicos querem fazer trap, mas é uma música “muito dark”. “Os miúdos falam de coisas muito agressivas, porque passam por coisas muito agressivas. A gente tem de interpretar: aquilo é uma forma de promoção, de ganharem moral, ou de ‘venham ver’? Toda a gente quer uma vida bacana.” Ele próprio quando era jovem fez músicas mais negras, mas hoje fica contente por não as ter gravado, não sentiria orgulho, se o filho as ouvisse.

Primero G não consegue fazer contas exactas a quanto ganha com o estúdio – é sazonal e variável. Vive também de pequenos biscates. Sente que precisava de mais tempo e espaço para desenvolver de forma sustentável aquilo que faz. Ainda não vive da música. Mas espera um dia viver.

Tem um disco no circuito comercial, um álbum que chegou à Fnac: Miraflor, de 2002, com Lord G e DJ Kronic. Foi criado numa altura que era importante mostrar que se podia fazer música em casa – o single é um clássico do rap crioulo, e fala da experiência de realojamento da Pedreira dos Húngaros. Tem mais material na gaveta, mas está à espera do momento certo para lançar. Na Internet e no YouTube tem “bué de coisas”. “Por exemplo, este ano estou em dez trabalhos, porque produzi, participei.” Deu passos em momentos importantes, agora é preciso diversificar, defende. Quer escrever um livro.

Qual o impacto da música que ele produz e cria? “Não se vê, mas é grande. Temos miúdos que estiveram connosco há não sei quantos anos e que hoje estão a rebentar – por exemplo, Vado do Bairro 6 de Maio, o Loreta… Quando eles brilham, a gente também está ali, fizemos parte desse processo."

Brilham não no circuito comercial, mas noutros lugares. “O que acontece é que eles não retiram da indústria o que ela consegue dar. A gente cresceu revoltados com a indústria. Hoje em dia olho para os rapazes do Rapública e não os vejo muito diferentes de nós. No entanto, expuseram-se. Olho para a indústria como autodestrutiva: dá bué dinheiro, mas também suga muito, põe-te lá em cima, mas também te tira.”

PÚBLICO -
Foto
Nuno Ferreira Santos

A excepção à regra

No Monte da Caparica há blocos de prédios que foram construídos em várias fases e que pertencem a cooperativas, são realojamentos, edifícios dos anos 1990, habitados por quem se mudou do interior do país e por imigrantes. Juana na Rap, nome artístico, 24 anos, cresceu a ouvir crioulo, algo que integrou de forma natural. “Aconteceu. Nasci e cresci nesse meio, é claro que me identifico com a cultura em si”, responde, admirada, quando lhe perguntamos sobre a sua relação com a cultura negra.

Portuguesa, branca, sem ligação familiar a Cabo Verde, fala e canta na língua cabo-verdiana. “A ouvir aprende-se”, diz. “Desde a infância no bairro, de tanto ouvir percebe-se." Mas claro que existiu um esforço, embora houvesse o convívio diário. “Sinto-me muito mais à vontade a divulgar o que tenho para dizer em crioulo do que em português. Em crioulo consigo explicar e especificar o assunto.” Também tem temas (poucos) em português.

De vez em quando Juan na Rap vai trançar o seu cabelo louro e liso, mas hoje tem-no apenas apanhado em rabo-de-cavalo. Está vestida com roupa desportiva. Nos vídeos produzidos pela Ligação Directa de Primero G é assim que aparece. Muitos foram filmados na rua onde estamos agora para a conhecer.

Rodeada de homens nesses vídeos, Juana na Rap canta a vida da “street”. Acabou de lançar o seu segundo álbum. Leva-nos para debaixo de umas arcadas onde foi filmado outro vídeo, e é lá que conta, sentada no muro, que viveu no Bairro do Beato, em Lisboa, na Charneca e agora no Monte da Caparica, onde está desde os 13 anos. Começou a fazer rimas na escola, “freestyle”, improvisava com amigos. Tinha uns 15 anos e alguma “vergonha”. Disseram-lhe que podia escrever letras e assim foi. Ela e outra rapariga eram as duas únicas no meio de rapazes. “Começávamos a improvisar na escola, vinham todos a correr a pensar que era porrada”, lembra, a rir.  

Juana na Rap escrevia músicas em que falava da escola ou de amizades, sem um “tema directo a alguma coisa”, como agora. Agora fala de injustiças, do Estado, do Governo, da polícia, do que vê no bairro e não acha correcto. Exemplo: “Estamos aqui, se passar um carro da polícia se calhar vai parar, quer revistar, e só porque não temos documentos quer-nos levar para a esquadra."

Também ela, actualmente desempregada, não consegue viver da música. Os seus CD, um lançado em 2013, Juana na Rap (“A falar mais de mim”), e outro no início de 2016, Tcheu Barreras, onde trata temas mais gerais, dão-lhe de lucro "zero" cêntimos. “Quem não gostava de viver da música?” Entrar na kizomba ou noutro estilo mais comercial não está nos seus planos: “Tenho o meu estilo, quero manter aquela inocência."

Passou uns anos sem conhecer ninguém que a produzisse, até que um amigo, Klicklau, a levou a Primero G. “Foi uma evolução rápida, porque não tinha tido oportunidade. Antes de ir ao Primero G gravei duas ou três vezes, mas não era o trabalho que tinha em mente fazer.”

Hoje, Juana na Rap inspira-se no que vê à sua volta, na vida de rua. Ser mulher num mundo essencialmente masculino não faz dela uma rapper diferente, diz. “O que se passa no dia-a-dia é mais ou menos o mesmo. O que interessa é o que se está a dizer, mas não sinto diferença. Eu estou na luta!”

Talvez seja difícil uma mulher sobressair no mundo dominado por homens, reconhece sem querer desenvolver. “Sou uma rapariga que cresceu no meio dos rapazes, sempre joguei à bola, sempre fui maria-rapaz. Nunca senti aquela diferença e no rap também não sinto.”

É Primero G quem diz: “[Juana] é tropa, pensa como nós.” O nós são os homens. “Não se nota essa sensibilidade, mas ela existe”, comenta. É preciso deixar passar o tempo.

Marcar terreno

Mynda Guevara é o grito de guerra dela. Aliás, na sua página de Facebook tem como taglinefemale power”. O apelido, inspirado em Che Guevara, apareceu porque ela quer fazer uma revolução no rap: não quer ser mais uma. “Quero levar o rap feminino o mais longe possível, quero revolucionar o rap feminino”, diz, com convicção.

PÚBLICO -
Foto
Nuno Ferreira Santos

Sentada no Espaço Jovem da Associação Cultural Moinho da Juventude, o premiado projecto social da Cova da Moura, Mynda, 19 anos, estudante de Marketing e Comunicação e estagiária na Fnac, fala com assertividade de um percurso que começou aos 14 anos.

É fim de tarde de Maio e há muitos jovens a entrar e sair do estúdio onde ela se iniciou na música: um dia estavam a precisar de uma voz feminina, e ela apareceu. Desde então começou a cantar com Ridell, Dani G e outros – há vídeos no YouTube onde Mynda aparece neste bairro da Amadora habitado maioritariamente por afro-descendentes, sobretudo de Cabo Verde, com uma população estimada em cinco mil pessoas. O facto de ali haver um estúdio de gravação ajudou muito, foram lá as suas primeiras experiências.

Mynda e Ridell fizeram uma dupla e há “dois/três anos” arriscou lançar-se sozinha com Mudjer na rap krioulo, primeiro som a solo. A música fala justamente do facto de ser mulher e cantar rap, da forma como teve de “marcar o terreno” e de se “impor”. “Queria que quando se falasse em rap não se lembrassem que existem só rapazes a cantar, ou que o rap tem género. O rap não tem género, é para quem quiser libertar o que sente através de rimas e melodias.”

O objectivo é conseguir que cada vez mais mulheres cantem rap, “provar que têm tanta ou mais ambição do que os homens”. Para Mynda Guevara o rap é a vida. “Não consigo passar um dia sem ouvir rap. Acordo, estou a ir para o estágio e a ouvir rap.”

Recebe mensagens de vários sítios, já teve convites para ir tocar a Cabo Verde, Luxemburgo e Londres. Tem cantado à noite em eventos de rap crioulo, onde habitualmente o cartaz é feito de homens. Por enquanto não sabe contabilizar visualizações – uma pesquisa rápida mostra que as suas músicas têm milhares. O seu grande hit a solo é Li sta mudjer, com mais de 19.500 visualizações; Objectivos, parceria com Ridel, tem cerca de 220.500. Defende que o rap tem como objectivo ensinar e tem uma vertente activista. “Eu escrevo para ensinar, não escrevo para desviar."

Quando acabar o curso, quer fazer algo “mais elaborado”, que vá além das sete faixas soltas que já tem. “Não quero que vão ao YouTube, escrevam o meu nome e apareçam só as participações. Quero um trabalho elaborado, uma mixtape ou um álbum. Isso ajuda.” O seu sonho: cantar em Cabo Verde, de onde são os pais.

Música cigana? Talvez não

Foi na sala de sua casa que Nininho Vaz Maia, 28 anos, gravou um vídeo que se tornou viral, Música linda cigana. Aparece sentado no sofá em tronco nu, com uma guitarra e um pormenor no tornozelo: uma pulseira electrónica.

Atravessamos o pátio onde miúdos jogam à bola e subimos ao apartamento de Nininho, agora orgulho da família. Tinha ido ao ginásio de manhã. Vê-se que gosta de cuidar do corpo e há até um vídeo recente de um amigo na sua página do Facebook a brincar com isso. Não são raros os comentários femininos ao seu aspecto físico.

A filha brinca com um iPad onde mostra vídeos do pai. Incrustado na parede está um ecrã plasma onde passam programas da tarde.

Estamos no bairro que hoje ocupa a extinta Curraleira, em Lisboa, onde vive com dois filhos e a mulher. Foi a circunstância de estar em prisão domiciliária que fez Nininho começar a cantar. O primo gravou o vídeo, a prima colocou-o no YouTube em Outubro de 2013. E, de repente, tinha-se tornado num hit. Música linda cigana é uma canção de amor com dois minutos, 800 mil visualizações e quase 500 comentários.

Hoje Nininho tem duas páginas no Facebook com milhares de seguidores: na sua página pessoal são cinco mil amigos e mais de oito mil seguidores, na página de artista tem quase 10 mil likes.

PÚBLICO -
Foto
Nuno Ferreira Santos

A história do tal hit não tem nada de extraordinário: um dia ouviu o primo, que vive na casa ao lado, cantarolar uma música. Estava a escovar os dentes às 6h, desceu as escadas, e pôs-se a tocar aquilo que assim “saiu” naturalmente, conta. “Sei que não são modos para estar no vídeo, em calções. Mas tenho a noção que ajudou, o vídeo está natural e fez com que as pessoas comentassem: ‘Já foste ver aquele cigano de pulseira a cantar?'”

Segundo conta, esteve preso porque foi sair à noite, um amigo começou “à porrada” e ele acabou apanhado pela polícia. Em casa passou “muitas horas sozinho”, durante um ano e 15 dias. Descobriu que sabia compor e que “o ser humano acaba por se adaptar a tudo”. Em tempos um monitor que orientava jovens nos trabalhos de casa, num projecto social do bairro, Nininho sente que continua a ser um bom exemplo, apesar de ter estado preso. “Agora ainda sou mais."

Na Curraleira, um bairro maioritariamente de habitação social, vive a “família toda”. Da parte do pai, de etnia cigana, são uns 50 primos. A família da mãe, não cigana, também é enorme.  Desde muito pequeno que canta em festas.

Depois do tal vídeo, fez outro, e a seguir outro – até ser convidado para cantar ao vivo no ano passado. Hoje “está cada vez mais sério”. Já vive da música, mas também de um negócio de venda de carros que tem com o primo. “O que me alegra é estar a alegrar outras pessoas. Tirar milhares de fotografias, ser conhecido em todo o lado: isso já cansa!”

Quando o vídeo foi para o YouTube, achava que ia ter um par de visualizações no bairro. Logo no primeiro dia teve mil, ficou “cheio de vergonha”. “Nunca imaginei que ia ter centenas de pessoas a pagar para me ir ver, pessoas em filas, a chover, à espera.”

Músicas suas tem umas “dez ou 11”. Mas não canta muito do repertório pessoal  canta mais covers de kizomba e outros géneros de música, algumas que adapta “para cigano”, muitas nem sabe de que autores são. “Tanto canto cigano como canto à senhor, como dizemos. Misturo. E isso vende.” Também é criticado por não cantar só “à cigano”, ou só “à senhor”. Seja como for, já notou que há uma mudança: as pessoas estão a procurar mais música cigana.

O Alentejo é a região que o mais convida para cantar em discotecas e em festas. “Digo muito que o Alentejo ficou a minha segunda casa.” Dá concertos todas as semanas para um público vasto, diz que é “ouvido por toda a gente: brancos, ciganos, africanos”. E por todas as classes sociais: por exemplo, foi à Feira da Golegã actuar para uma plateia muito diversa com umas 800 pessoas.

Não é assim tão diferente a escala de muitos destes músicos e a de alguns artistas agenciados, com empresas discográficas e marketing a trabalhar para eles. O que é diferente é a legitimação que alguns conseguem ou não atingir do circuito mainstream – um carimbo que nem todos procuram necessariamente, mas que acaba por funcionar como bitola. É através da Internet, do Facebook ou do YouTube que chegam aos fãs e aos outros músicos. O mercado paralelo da música acontece aqui  mas será que é mesmo paralelo?