Crítica

O motel da aventura

Quase sem sair de um pardieiro da Flórida, Sean Baker constroi uma polaroid à la minuta de uma realidade americana para a qual ninguém costuma olhar. Com uma miúda de seis anos a roubar o filme como quem não quer a coisa.

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É um olhar sobre a América que merece ser arrumado ao lado de American Honey

Já conhecíamos o nome de Sean Baker dos idos do IndieLisboa (que mostrou Prince of Broadway já lá vão uns aninhos), e é por isso que vê-lo, finalmente, cumprir as promessas que já então sentíamos tem qualquer coisa de deslumbrante. Baker chegara próximo com Tangerine, o seu desarmante retrato do quotidiano de transsexuais em Los Angeles rodado com um iPhone, e The Florida Project prolonga a sua prática de ficcionar a realidade americana para a qual ninguém olha: aqui, são os pobres white trash, sem competências profissionais para fazerem mais do que sobreviver de ordenado a ordenado. O “truque” de Baker é fazer-nos ter consciência desta realidade pelos olhos de uma miúda de seis anos: Moonee, que vive com a mãe solteira que não tem emprego fixo e se porta mais como uma irmã adolescente mais velha, alugando à semana um quarto num pardieiro. Para Moonee, que conhecemos a cuspir com os amiguinhos para os pára-brisas dos carros do motel vizinho, cada dia é uma aventura e uma descoberta desembaraçada que viaja pelos condomínios abandonados, pelo quiosque dos gelados ou pelos descampados por trás do motel. Só quando está bem estabelecido que esta miúda à solta está a viver uma infância normal (mesmo que em condições precárias) é que a verdade sobre o mundo que a rodeia se começa a infiltrar no filme, levando-nos a questionar as opções de uma sociedade que se recusa a olhar para os menos afortunados com a dignidade que eles merecem.

É uma vitória de Baker que o filme não se torne panfleto social: dele e dos actores, sobretudo da “força da natureza” que é Brooklynn Prince, a miúda, e de Willem Dafoe, no papel do gerente do motel que percebe que estas pessoas são pessoas, são seres desamparados por uma sociedade que lhes prometeu ilusões e não foi capaz de lhes dar nada. Tudo sem que o filme pareça desesperado, é obra – e é um olhar sobre a América que merece ser arrumado ao lado do que Andrea Arnold fez com American Honey. Não por acaso, também este passou ao lado dos Óscares que lhe seriam melhor entregues.