Editorial

Um partido em tempo de tréguas

Rui Rio fez tudo certo para anular o santanismo. Mas não estava à espera da audácia de Luís Montenegro, que colocou a liderança do PSD sob o espectro da transição.

Era preciso bem mais que coragem para afrontar a unidade com que Rui Rio tentou blindar o XXXVII Congresso do PSD, ao acolher nas suas listas a facção de Pedro Santana Lopes. Era preciso sensibilidade, bom senso e inteligência estratégica. Luís Montenegro teve esses atributos. No momento ora mais silencioso, ora mais aplaudido do Congresso, o ex-líder parlamentar traçou os limites do sucesso de Rui Rio ao exigir a terceira vitória consecutiva do PSD em legislativas; censurou a mais remota admissão do cenário de um acordo com o PS “dominado pelo Bloco de Esquerda”; salvaguardou o seu poder e a sua influência ao lembrar que, ao contrário do novo líder, “não estive dez anos à espera de disputar eleições no PSD entre desejos alternativos de ser primeiro-ministro ou Presidente da República”; e, como se não bastasse, afrontou o líder com um pedido que soou a ameaça: “Não deixe que o PSD se transforme num grupo de interesses dos amigos de Rui Rio.”

Se Luís Montenegro disse o que disse e mereceu aplausos é porque persiste no PSD a sensação de que o Congresso destes dias foi incapaz de afastar os receios de um partido dividido. Rui Rio é um líder forte, mas não é um líder incondicional como tentou ser ao promover uma solução de consenso. O Congresso não superou o anátema que mais o ameaça desde as directas: o de ser ou poder ser um congresso de transição. Montenegro marcou uma data para se avaliar o limite dessa transição, as próximas eleições legislativas. E reservou um lugar privilegiado para assistir a esse momento. Ao abandonar o Parlamento, colocou-se num papel que o isenta de responsabilidades num eventual falhanço de Rui Rio e lhe garante uma palavra na sucessão caso o PSD falhe a tal terceira vitória eleitoral consecutiva.

Rio, que tinha feito tudo direito para destrunfar a oposição, só pode ter ficado surpreendido com a ousadia de Montenegro — o seu semblante durante o discurso denunciou-o. Se pela frente tem uma equipa da sua confiança e se enterrou de vez o fantasma do santanismo, percebeu que há o fantasma de uma facção de Passos Coelho que teima em perdurar. Pode ver-se neste cenário mais uma prova da vitalidade do PSD ou, até, a persistência do espírito quezilento e inconformado que faz parte da tradição do partido. Mas há uma face oculta nesta perspectiva. Rio pode sair do Congresso com músculo suficiente para impor o seu programa — e, mais crucial ainda, o seu estilo. Mas se acreditou num partido rendido à sua aura, ontem ter-se-á desenganado.