Rui Rio entre o mal-estar na bancada do PSD e as incógnitas do congresso

A escolha de Fernando Negrão para líder do grupo parlamentar não é pacífica. Como não o deverá ser a reunião-magna que hoje começa em Lisboa. O 37.º congresso do PSD ameaça ser vivo, como os conclaves de outros tempos.

Passagem de testemunho é esta sexta-feira
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Passagem de testemunho é esta sexta-feira daniel rocha

A candidatura de Fernando Negrão à liderança da bancada do PSD gerou mal-estar na bancada, mesmo entre os deputados que são apoiantes de Rui Rio. O nome do antigo magistrado não é consensual no grupo parlamentar, mas o próprio assume estar preparado “para qualquer resultado”. Basta um voto para ser eleito – se não houver outro candidato – mas os brancos e nulos são a forma que os deputados têm de mostrar a sua discordância.
Para já, o deputado e  ex-ministro do governo de Santana Lopes desvalorizou eventuais votos brancos: “Os consensos são muito importantes mas quem almeja os 100% às vezes almeja falsos consensos.”

A polémica em torno de Fernando Negrão está sobretudo relacionada com as capacidades de intervenção na tribuna, especialmente, quando tiver de interpelar o primeiro-ministro nos debates quinzenais. Há deputados que receiam que o PSD fique em desvantagem sobretudo quando o actual líder parlamentar tinha um estilo acutilante e que era apreciado na bancada.  

Na conferência de imprensa no Parlamento em que se assumiu como candidato – depois de ter informado por mail os deputados – Fernando Negrão assumiu que falou com Rui Rio antes de se candidatar e que teve outra conversa depois, transmitindo que era candidato, e já depois das eleições convocadas para a próxima quinta-feira. O deputado quis dar uma ideia de distanciamento entre Rio e a sua iniciativa, mas acabou por admitir que a conversa já supunha uma mudança quando questionado pelos jornalistas sobre se defendeu que Hugo Soares deveria continuar à frente da bancada. “Falámos sobre a possibilidade de nomes para a liderança parlamentar. Teremos partido os dois do princípio que esta liderança não se manteria”, afirmou, adiantando que terá falado com colegas deputados sobre a sua iniciativa, mas que não vai fazer um esforço de união: “Não vou fazer nada para unir, porque não vou fazer nada para votarem em mim”.

Se na conferência de imprensa Negrão pareceu desprendido, no e-mail que enviou aos seus pares o candidato tocou num ponto sensível para os deputados – os cargos de coordenação da bancada - ao dar nota que se candidata “com uma forte vontade de inclusão, através da valorização das equipas de coordenação”. 

Com 12 vice-presidências, a direcção da bancada pode ficar reduzida a sete, segundo a vontade do líder eleito do PSD. Um já é conhecido e foi revelado pelo próprio Negrão como candidato a primeiro vice-presidente: Adão Silva, que tem a área da Segurança Social.

Da bancada para o congresso

Com a bancada em alvoroço, o 37.º conclave do PSD não será um passeio para o líder que foi eleito, a 13 de Janeiro, com 54% dos votos dos militantes. Rui Rio chega ao Centro de Congressos de Lisboa com uma lista de desafios e incógnitas a que precisa de dar resposta, a bem da unidade interna. 
O adversário directo de Rio, Pedro Santana Lopes, pode estar certo para liderar a lista do líder ao Conselho Nacional, mas isso não significa que as vozes mais críticas se calarão. Há sementes lançadas. 

Pedro Pinto, Miguel Pinto Luz, Pedro Duarte e Luís Montenegro, entre outros, já deram a entender (uns de forma mais clara que outros) que subirão ao palco para fazer exigências relacionadas com o voto do PSD no Orçamento do Estado, a escolha do cabeça de lista para as europeias, a definição de um programa eleitoral, o posicionamento do PSD face ao PS ou a escolha de uma direcção abrangente. 

Caberá a Rui Rio fazer as opções certas para garantir a união, mas também para assegurar a renovação e a requalificação do partido que muitos pedem. Além do seu núcleo duro, que o acompanha nalguns casos desde a Câmara do Porto, Rio precisa de dar sinais de abertura na equipa que escolher. E quer dá-los. Uma das ideias que foi debatida pela sua candidatura durante a campanha foi a realização de convenções para agremiar pessoas de fora do partido, o que será útil, mais tarde, na elaboração das listas de deputados ou até num futuro governo.

Mas antes disso, Rio terá pela frente o desafio de construir um discurso económico simultaneamente afastado de Pedro Passos Coelho e de António Costa, de modo a surgir como uma verdadeira alternativa tanto ao passado, como à esquerda. O primeiro momento em que essa clarificação se tornará necessária é quando o Governo der a conhecer o seu próximo Plano de Estabilidade. Só depois disso virá o Orçamento do Estado para 2019. 

Que caminho escolherá Rio, quando tem pela frente um crescimento económico positivo, um défice baixo, uma taxa de desemprego a descer ou exportações a subir? Como se prepara um discurso alternativo, a um ano de eleições, com um cenário económico que chega a ser desfavorável para a oposição e quando já não se pode usar o argumento de que o Diabo tarda, mas há-de chegar?

Há ainda outras respostas que têm de sair do congresso e que têm a ver com o posicionamento do PSD relativamente ao PS e ao CDS. Rio já disse que o seu objectivo é ganhar as eleições sozinho, em primeiro lugar, e só depois com o CDS. Cristas apressou-se a explicar, de seguida, que os centristas não pretendem ir coligados às eleições europeias de 2019. 

Este aparente afastamento do CDS não significa que o PSD esteja definitivamente atirado para os braços do Bloco Central (muito pelo contrário, terá apenas a ver com estratégia de sobrevivência do CDS), mas a verdade é que essa é uma incógnita que aflige muitos sociais-democratas: afinal, a que consensos está o líder disposto a chegar com António Costa? Na Assembleia, para já, tem à sua espera a lei do financiamento dos partidos, a descentralização, o Portugal 2030 e o pacote da transparência, entre outros temas menos relevantes.

A escassez de informação em relação ao futuro é tal que mesmo altos representantes do partido souberam do convite a Pedro Santana Lopes para presidir ao Conselho Nacional pelos jornais, e o mesmo aconteceu com o anúncio da candidatura de Fernando Negrão. “É uma coisa à Cavaco, é um padrão que se estende mesmo a membros do seu inner circle”, diz quem já trabalhou com ele.

É por isso que, mais do que as pessoas ou os cargos, a expectativa é em relação às linhas de força das intervenções do líder: que agenda será delineada, com que grau de surpresa e com que músculo, mas sobretudo se Rio vai conseguir falar para fora, captar o cidadão comum. 

Há quem espere um discurso populista de Rio, e que diga que isso pode introduzir um factor de sucesso inesperado. Mas esse é o cenário optimista. O pessimista teme que tudo corra mal e o partido passe por tempos difíceis no futuro próximo. com Leonete Botelho