Rio parte para congresso com liderança da bancada em aberto

Pedro Pinto garantiu que não votará nas próximas eleições da bancada.

Foto
Rio comunicou no sábado a Hugo Soares — eleito há sete meses com 85% dos votos dos deputados do PSD — que deseja vê-lo substituído Daniel Rocha

Rui Rio prepara-se para protagonizar um congresso com um líder parlamentar de saída, mas em funções, com a bancada dividida sobre a sua continuidade e com vozes já a avisar que não vão votar nas próximas eleições para o novo líder do grupo parlamentar. De um lado turbulência, do outro um sinal de união: Rio convidou Pedro Santana Lopes para liderar a lista ao Conselho Nacional.   

No próximo domingo, quando forem anunciados os novos órgãos nacionais do PSD, quem subirá ao palco como líder parlamentar? Pode ser Hugo Soares que ainda está em funções, mas que não será o verdadeiro titular do cargo. Esse - um candidato ainda desconhecido - irá a votos na próxima quinta-feira, dia 22, depois do congresso, em eleições convocadas esta quarta-feira pelo ainda líder parlamentar.

Foi uma reunião de bancada algo quente, depois de Hugo Soares ter anunciado aos deputados – e depois confirmado aos jornalistas – que iria convocar eleições para a liderança do grupo parlamentar. A decisão surge depois de Rui Rio lhe ter transmitido a vontade de trabalhar com outra direcção. Nessa conversa, no passado sábado, Rio terá alegado que foram ouvidos alguns deputados e que, salvo algumas excepções, todos estavam contra a continuidade de Hugo Soares. Essa informação enfureceu os parlamentares sociais-democratas. Houve depois várias intervenções – como de José Matos Correia, Carlos Costa Neves, Paula Teixeira da Cruz – que consideraram um erro a mudança do líder da bancada para um outro que esteja subjugado ao presidente do partido, colocando em causa a autonomia do grupo parlamentar.

Uma das intervenções mais duras foi a de Pedro Pinto, líder da distrital de Lisboa, que anunciou que não votará nas eleições da próxima quinta-feira. Outros poderão seguir o exemplo, segundo fontes contactadas pelo PÚBLICO, o que pode tornar a eleição de um sucessor a Hugo Soares uma dor de cabeça para Rui Rio. As mesmas fontes consideram que não é admissível que Rui Rio tome uma decisão sobre a direcção da bancada, ouvindo apenas alguns deputados e de forma indirecta. Hugo Soares não o disse, mas muitos interpretaram que essas opiniões foram colhidas num jantar realizado na semana passada, com um grupo de apoiantes do líder eleito e que foi convocado por Salvador Malheiro, presidente da Câmara de Ovar e director de campanha de Rui Rio.

Quase todas as intervenções de apoio a Hugo Soares – ou contra futuras soluções – vieram de antigos apoiantes de Pedro Santana Lopes. Emídio Guerreiro, apoiante de Rui Rio, falou para agradecer ao ainda líder parlamentar. De resto, os que estiveram ao lado do líder eleito ficaram em silêncio, o que também foi registado por aqueles que estão a favor da continuidade de Hugo Soares.

O certo é que Hugo Soares não será candidato e comunicou isso mesmo aos deputados na reunião da bancada após o debate quinzenal com o primeiro-ministro. Aos jornalistas, Hugo Soares referiu que há sete meses obteve 85% dos votos. Recusou estar desiludido e disse estar “muito orgulhoso do trabalho” feito pela bancada nos últimos meses. Questionado sobre se a autonomia do grupo parlamentar fica em causa com esta atitude de Rio, Hugo Soares disse não ter dúvidas de que a bancada continuará a “ser uma forte oposição ao PS”.

Quanto à sua própria posição, o ainda líder disse que estará “na linha da frente no combate” aos socialistas. E recusou fazer interpretações sobre o sinal que reflecte esta atitude do líder eleito. Mas chamou a si a responsabilidade da decisão. “A decisão é minha e eu é que tenho de perceber se da parte do doutor Rui Rio há ou não há confiança política e vontade de continuar a trabalhar com a actual direcção parlamentar”, afirmou.

Ao “devolver a palavra aos colegas deputados”, como disse o ainda líder da bancada, a questão não parece de fácil solução, já que não há nenhum nome consensual em cima da mesa para a sucessão. Nas últimas semanas, nem mesmo entre os apoiantes de Rio se tem assistido a uma convergência sobre o sucessor de Hugo Soares, com muitos deputados a defender a continuidade deste. Fernando Negrão, que é um dos nomes apontados, não é visto como a melhor solução, sobretudo para protagonizar o duelo com o primeiro-ministro nos debates quinzenais.

A turbulência na bancada sentiu-se logo na manhã desta quarta-feira, quando Carlos Abreu Amorim, vice-presidente da bancada, confirmou a notícia do jornal i, que dava conta de que se demitira desse cargo por discordar da moção estratégica de Rui Rio. Uma saída que se soma ao anúncio de outros dois vice-presidentes - Amadeu Albergaria e Sérgio Azevedo - que colocaram o lugar à disposição logo após as directas. 

Enquanto decorria a reunião da bancada, a SIC-Notícias e o Expresso noticiaram que Rio e Santana chegaram a acordo para que o ex-primeiro-ministro lidere a lista ao Conselho Nacional. Um sinal de que o líder eleito não desperdiça os 45% de votos obtidos pelo seu adversário nas eleições directas de 13 de Janeiro. É um convite semelhante ao que Passos Coelho, quando ganhou as eleições do partido em 2010, fez ao seu adversário de então, Paulo Rangel, para liderar o Conselho Nacional.