Entrevista

“Decidimos não investir mais em Portugal, não vale a pena”

António Costa Silva, presidente da Partex, diz que há no país uma política energética muito errática e um “clima de hostilidade” em relação às empresas. No caso do projecto de gás no Algarve, diz que se governou “em função do que dizem os autarcas e a opinião pública”. Com o fim dos investimentos que fez também em Peniche e no Alentejo, a empresa viu desaparecerem 25 milhões de dólares.

No passado, mostrou-se crítico em relação ao facto de Portugal ter vendido posições substanciais na EDP e na REN a empresas estatais chinesas. Como é que olha, neste momento, para o facto de empresas do sector renovável, como a própria Generg [do fundo NovEnergia, do qual a Gulbenkian era a maior investidora e que vai ser vendida a outro investidor chinês], passarem a ser controladas por empresas chinesas?
A minha função aqui é defender a Partex e dar caminho à Partex com o novo accionista. O que no passado falámos tem a ver com o pensamento estratégico do país. Acho que vivemos num país que tem uma fraquíssima inteligência estratégica, pensa pouco e está absorvido pelo curto prazo. É evidente que, quando há aquisições que vão todas num sentido, o país tem de reflectir, e foi isso que pensei no passado e exprimi. A realidade é o que é, e o país, infelizmente, planeia pouco e vê pouco o futuro, não olha para os seus recursos endógenos. É evidente que tem sido feito um caminho, penso que este Governo tem feito coisas positivas na redução do défice, do controlo das finanças públicas e da diminuição do desemprego, mas precisamos de muito mais. O investimento caiu 49% entre 2001 e 2015, é uma queda brutal. Temos um problema gravíssimo de renovação do stock de capital do país e isso, pura e simplesmente, não se pensa.

E por isso percebe que tenha sido travada a polémica taxa sobre as renováveis com a justificação da protecção do investimento estrangeiro?
Até tenho uma boa opinião do secretário de Estado da Energia, penso que é uma pessoa com boas intenções, mas penso que ele está um pouco prisioneiro de uma visão ideológica e extremista de certos sectores que apoiam o Governo e que não é boa, porque hostiliza as empresas, mata o investimento, os investidores saem e acumulam-se processos judiciais e não se resolve problema nenhum.

Fala em investidores que saíram. Há algum caso concreto?
Temos uma política energética muito errática, porque hostiliza o projecto de gás do Algarve [em que a Partex era parceira da Repsol], que acaba por fechar, e hostiliza também as energias renováveis e, portanto, pode render dividendos políticos, mas é muito populista e é por isso que o país avança pouco. Há uma espécie de clima de hostilidade em relação às companhias, mas quem cria riqueza são as empresas. Uma política que hostiliza as empresas e o lucro não cria condições amigas do investimento e do desenvolvimento do país.

Relativamente ao Algarve, falou-se na possibilidade de contestarem a rescisão do contrato. Isso aconteceu?
Nós, pura e simplesmente, decidimos não investir mais em Portugal, não vale a pena. Nós apostámos no projecto do Algarve e no de Peniche porque existia um Governo em que o ministro Álvaro Santos Pereira, que foi muito criticado, tinha a preocupação de desenvolver os recursos naturais e percebeu muito bem que o país precisava de uma onda de reindustrialização e que isso criaria riqueza e emprego. Quando mudou o Governo, passámos para o ciclo oposto, que é governar em função do que dizem os autarcas e a opinião pública, sem haver uma visão clara da importância que o projecto do Algarve poderia ter. É um projecto executável e plausível, nós fizemos as campanhas sísmicas e as reservas de gás estão lá, são entre dez e 15 vezes superiores às reservas que há no Sul de Espanha, que foram exploradas pela Repsol e que geraram riqueza para o país.

No extremo oriental da Europa, os israelitas descobriram dois grandes campos de gás, Chipre fez descobertas muito importantes, o Egipto fez uma descoberta que é das mais importantes do mundo nas últimas décadas e os gregos também fizeram descobertas de gás. E agora têm o East Med, o pipeline que vai ligar Israel à Itália, apoiado pela União Europeia. Na parte ocidental do Mediterrâneo matamos os projectos e na parte oriental – mesmo sendo um projecto com muitos desafios porque há vários países com disputas políticas – apoiam-se os projectos. É muito importante que a União Europeia o tenha apoiado, precisamente porque muitos destes países podem, através da economia, ultrapassar algumas das divergências políticas e criar um pólo de riqueza no Mediterrâneo.

Passámos ao lado disso?
Passámos ao lado, falhámos completamente.

Em Peniche também saíram? E daí a imparidade de 17 milhões de dólares em 2016?
Fechámos tudo. Quando não há do poder político uma visão clara e um apoio, antes pelo contrário… Isto aconteceu no meio de uma eleição autárquica.... Agora não se pode pedir às companhias “suspendam tudo e voltem daqui a dois anos”, quando as companhias têm sondas à espera para perfurar um poço e têm compromissos assumidos.

O Algarve também representou uma imparidade?
Sim, ainda investimos cerca de cinco milhões. Na totalidade, entre Algarve, Peniche e também no Alentejo, onde estivemos no passado, a Partex investiu cerca de 25 milhões de dólares.

Foi dinheiro perdido?
Ficámos com a informação e o conhecimento, mas se não há uma mudança e definição das políticas públicas e de acomodação destes projectos, será muito difícil voltar.

Assumindo que o novo accionista quer investir nas renováveis, face à desconfiança que demonstra, isso significa que esse investimento não será em Portugal?
As políticas públicas são muito importantes. Não podemos ter uma política hoje e amanhã muda o Governo e mudamos completamente a política. Para as empresas, é o pior que há. Há muitos colegas de empresas estrangeiras que vêem isto e… não se pode trabalhar nestas condições.

O feedback que tem tido em relação a Portugal é negativo, é isso?
É, porque Portugal ainda não amadureceu o suficiente para manter nas questões fulcrais uma continuidade que atraia o investimento e permita o desenvolvimento dos projectos.

Muitas das medidas têm sido justificadas com a necessidade de reduzir os custos que os portugueses suportam com a energia. Vê a necessidade de fazer esse esforço de redução?
Acho que há necessidade de reduzir custos. Sou favorável a que haja apoios e subsídios às energias renováveis, porque não há nenhuma forma de energia – incluindo o petróleo – que se tenha imposto sem o apoio inicial dos Governos. É por isso que a posição de Winston Churchill foi crucial para o petróleo poder entrar na matriz energética mundial, porque ele decidiu, de um dia para o outro, substituir a hulha, que movia toda a armada britânica, pelo petróleo. Em Portugal, não podemos deitar o bebé fora com a água do banho. As energias renováveis são um recurso fulcral do país e podem ser pólos de riqueza, mas os projectos, eventualmente, podem ter sido mal desenhados e mal executados. Tem de se chamar as companhias, tem de se discutir. Se optamos por uma via de força, há muitos investidores estrangeiros que estão acoplados a esses projectos e é uma mensagem errada que se passa, há várias maneiras de fazer a coisa. Não podemos confundir alguns erros no design e na operatividade destes projectos com a importância que eles podem ter para o futuro. Esta maneira de tratar as empresas pode conduzir a um beco sem saída.

Mas admite que pode ter havido subsidiação em excesso?
Admito. Não conheço os pormenores, mas há uma coisa que sei: somos muito fracos naquilo a que se chama os design mechanisms. Tem de ser desenhado um sistema de incentivos, mas depois estes não podem durar para sempre e tem de se deixar o mercado falar e regular. Mas os preços podem ser reduzidos com mais talento, mais pensamento e mais trabalho com as empresas e não com hostilidade permanente, como estamos a assistir.