Hospitais a braços com mais urgências neste Inverno

Para os bastonários dos Médicos e Enfermeiros os dados mostram que as pessoas continuam a preferir ir aos hospitais em vez de escolherem os centros de saúde quando estão doentes.

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Paulo Pimenta

As urgências estão neste Inverno a receber mais pessoas e a fazer mais diagnósticos de infecções respiratórias do que no do ano passado. Já nos centros de saúde, os dados mostram um decréscimo do número de consultas, totais e por gripe.

O PÚBLICO analisou, com base na informação que consta do Portal do SNS, os efeitos da gripe e das infecções respiratórias no sistema de saúde entre os dias 1 de Dezembro de 2017 e 6 e 7 de Fevereiro deste ano (centros de saúde e hospitais, respectivamente) em comparação com o período homólogo de 2016/17. Este intervalo permite ver o que aconteceu durante duas épocas gripais, sendo que este ano a gripe começou mais tarde.

Para os bastonários dos Médicos e Enfermeiros e para o presidente da Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares (APAH) os números mostram que as pessoas continuam a preferir os hospitais em vez dos centros de saúde quando estão doentes. E os três apontam vários motivos: desde logo, a acessibilidade e a sensação de segurança, mas também a falta de recursos humanos que limita o trabalho de prevenção que os cuidados de saúde primários deveriam fazer, evitando que as pessoas ficassem tão doentes.

A Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) contesta o período escolhido pelo PÚBLICO para fazer esta análise, dizendo que “a comparação entre a época gripal de 2017 e a de 2018, por períodos mensais homólogos, conduz a uma análise enviesada, na medida em que os dois períodos de pico não coincidem em termos mensais” num ano e noutro. Na época 2016/17 o pico da gripe foi em Dezembro; na de 2017/18 foi em Janeiro. A análise do PÚBLICO contempla ambos os meses, nos dois períodos.

De acordo com o boletim de monitorização da gripe, elaborado pelo Instituto Nacional Ricardo Jorge (Insa), a taxa de incidência gripal deste Inverno é menor em relação à época anterior, mas é preciso ter em conta que existem outros vírus respiratórios em circulação (como acontece todos os anos). Também segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera este tem sido um Inverno mais frio do que do ano passado.

Os dados, disponíveis na área da transparência do Portal do SNS mostram que entre o 1 de Dezembro de 2017 e 7 de Fevereiro deste ano registaram-se mais 10.358 episódios de urgência com diagnóstico de infecção respiratória — onde se inclui gripe, síndrome gripal e outras infecções respiratórias — do que no período 2016/2017. Número calculado com base na taxa de infecções respiratórias sobre o total estimado de episódios de urgência.

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A mesma base serviu para calcular a média diária de urgências com este tipo de diagnóstico. Este Inverno registou uma média diária de 2217 casos; no período homólogo foram 2067. Os dados mostram também que a quantidade de dias de urgências com diagnóstico de infecções respiratórias acima da média foi claramente superior à do Inverno anterior: 43 versus 32.

Já no que diz respeito às urgências por todas as causas, o número estimado é também superior: 1.253.067 — mais 61.970 urgências do que no período homólogo, o que significa um acréscimo de 5,2%. Neste Inverno, em 47 dos 69 dias em análise houve mais episódios de urgências do que nos dias homólogos de 2016 e 2017.

Contudo, para os centros de saúde — a janela temporal de análise é de 1 de Dezembro de 2017 a 6 de Fevereiro de 2018 versus período homólogo — o comportamento mostra-se diferente. Houve uma redução do número total de consultas (onde se inclui consultas programadas e não programadas), que passou 5.396.161 para 5.296.306. Também neste período, de acordo com o Portal do SNS, as consultas de gripe nos cuidados de saúde primários registaram a mesma tendência, passando de 64.809 para 60.813.

Questionado sobre o aumento de diagnósticos de síndrome gripal este ano nas urgências hospitalares, o Insa refere que o valor “neste Inverno é próximo do observado no Inverno passado”, considerando que “como a gripe não acontece sempre na mesma altura não é correcto comparar períodos homólogos”.

Já sobre se este acréscimo poderia ser explicado com a presença de outros vírus respiratórios, adiantou que estes “foram detectados em 17% dos casos de síndrome gripal” analisados no seu laboratório. Explica, contudo, que “as pessoas mais idosas estão em maior risco de ter infecções mais graves e de descompensar outras doenças, habitualmente crónicas, o que pode levar a uma maior procura de cuidados de saúde”.

"Uma resposta adequada”

O PÚBLICO questionou igualmente o Ministério da Saúde e a ACSS sobre estes resultados. A ACSS assegura que “tem-se verificado uma resposta adequada”. Contestando também a comparação em período homólogo, prefere comparar apenas os meses do pico da gripe num época e noutra. Ou seja, 7 de Dezembro de 2016 a 2 de Janeiro de 2017 e de 24 de Dezembro de 2017 a 6 de Fevereiro de 2018. Concluindo que “a média de episódios de infecção respiratória no período de época gripal de 2018 é ligeiramente inferior” à do Inverno passado.

Quantos aos centros de saúde, os dados que envia são apenas do total de consultas, sem desagregar qualquer valor relacionado com as consultas específicas de gripe. Assim, em Dezembro de 2016 realizaram-se 2.218.726 consultas quando no mesmo mês de 2017 foram 2.021.986. Já em Janeiro de 2017 foram 2.701.752, ao passo que em Janeiro de 2018 foram 2.831.036. A ACSS salienta o alargamento de horário em 231 centros de saúde, a abertura de mais 1350 camas nos hospitais e o reforço da contratação de profissionais ao abrigo do plano de contingência.

É a contratação de profissionais que a bastonária dos Enfermeiros aponta como sendo uma das causas que levam os centros de saúde a ter um papel secundário. “Não basta dizer que se alargam horários, se não os alargam o suficiente, se não têm enfermeiros ou pessoas que atendam o telefone. Se um doente precisar de um exame, o centro de saúde envia o doente para o hospital. As pessoas perguntam-se o que vão fazer ao centro de saúde. Procuram logo o sítio onde acham que podem fazer tudo. É também de falha de literacia, porque faltam enfermeiros para a prevenção”, aponta Ana Rita Cavaco.

“Falência da política de saúde”

A falta de enfermeiros, afirma, faz-se sentir também nos hospitais, “levando ao encerramento de camas”. E com isso, menos capacidade de resposta, mais tempo de espera e maior pressão nas urgências. Também para o bastonário dos Médicos, “os serviços de urgência continuam a ser, como aparentemente mostram estes dados, o recurso principal quando as pessoas têm problemas agudos, urgentes ou não urgentes”.

“Há uma falência da política de saúde”, considera Miguel Guimarães. “O ministro da Saúde não conseguiu que mais doentes fossem aos cuidados de saúde primários em vez de irem às urgências” e, em consequência, houve “mais gripe nos hospitais, mais tempo de espera no atendimento dos doentes”. O médico salienta também o aumento do encaminhamento feito pelo SNS 24 para as urgências, “que era o que teoricamente devia evitar”.

A escolha das urgências em vez dos centros de saúde, aponta o presidente da APAH, passa “pela segurança que as pessoas sentem”, ao ficaram “mais descansadas por conseguirem fazer um raio-x ou exame”. Mas é também “uma questão de cultura” que levará tempo a mudar. Dá o exemplo da Holanda, onde há centros de saúde disponíveis 24 horas e os doentes podem contactar o seu médico.

Sobre o efeito deste aumento de procura nos hospitais, Alexandre Lourenço afirma que a pressão continuada no tempo aumenta o desgaste nas equipas. Que o bastonário dos médicos lembra já estarem no limite. Qualquer pequeno acréscimo de procura agudiza a capacidade de resposta dos hospitais. Mas mais do que a procura, é a percentagem de doentes a precisar de internamento, considera Alexandre Lourenço, que cria maiores constrangimentos. “Temos uma população cada vez mais envelhecida, em situação de exclusão social que leva a mais doença. Há pessoas que têm de optar em comparar medicamentos ou bens essenciais e um quarto das pessoas não tem dinheiro para aquecer a casa."

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