John Gavin (1931-2018), um galã de Hollywood que falava fluentemente português

Actor que trabalhou em filmes de Hitchcock e Kubrick morreu aos 86 anos. Foi também embaixador dos EUA no México.

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Comecemos pelas extravagâncias citadas nos obituários do actor norte-americano John Gavin: falava fluentemente português (também o espanhol) e foi o primeiro embaixador dos Estados Unidos no México no tempo da Presidência de Ronal Reagan. Mas se começarmos pelo princípio é preciso dizer que este galã de Hollywood, que morreu na sexta-feira aos 86 anos em Beverly Hills, trabalhou com Alfred Hitchcock e Stanley Kubrick, além de Douglas Sirk.

John Anthony Golenor nasceu em Los Angeles em 1931, a quinta geração a viver na cidade do lado do seu pai, descendente de proprietários espanhóis da Califórnia colonial, enquanto a sua mãe, diz a Variety, era uma aristocrata mexicana. Foi o pai de John que quis mudar o nome de família para Gavin. Não revelando qualquer interesse pela profissão de actor durante os seus estudos, John Gavin formou-se na Universidade de Stanford em Economia e Assuntos da América Latina. Apesar dos antecedentes familiares, não era rico, tendo frequentado a faculdade com uma bolsa, como contou numa entrevista nos anos 60. Com a Guerra da Coreia, Gavin entra para a Marinha, mas mesmo depois do final do conflito fica ao serviço do almirante Milton E. Miles, por causa da sua fluência em espanhol e português, até ser dispensado em 1955.

A sua entrada no cinema é perfeitamente acidental. Um amigo da família estava a fazer um filme sobre um porta-aviões e o Gavin ofereceu-se como conselheiro técnico. Mas o emprego que arranjou, depois de um teste em frente à câmara, foi um contrato com a Universal: “Eles ofereceram-me tanto dinheiro que não pude resistir.”

Alto, com olhos escuros e um rosto de arrasar-corações, na descrição do obituário do New York Times, deram-lhe sucessivos papéis ao lado das protagonistas: de Lana Turner (Imitação da Vida, 1959) - já tinha feito também com realização de Douglas Sirk Tempo para Amar e Tempo para Morrer — a Katharine Hepburn (A Louca de Chaillot, 1969). Foi ainda o namorado de Janet Leigh no clássico de Alfred Hitchcock Psico ou Júlio César no Spartacus de Kubrick. Os críticos da época descrevem a sua actuação como rígida e John Gavin rapidamente começa a aparecer na televisão, fazendo papéis como actor convidado até 1981 — vimo-lo na série Barco do Amor em 1977. Falhou o regresso ao cinema em dois James Bond — Diamonds Are Forever, em 1971, e Live and Let Die, em 1973.

De Hollywood e da Universal, ficou a amizade com Ronald Reagan. Em 1981, John Gavin, que na década anterior já tinha tido algumas missões diplomáticas relacionados com a América Latina, foi nomeado embaixador no México, fazendo a sua entrada na política. Depois de uma carreira como diplomata envolta em muita polémica, regressa aos EUA em 1986, onde começa uma carreira de sucesso como empresário.

“Um dia triste. O meu grande amigo John Gavin morreu esta manhã. Um dos melhores homens que já conheci e foi como um irmão para mim. Descanse em paz”, escreveu no Twitter o cineasta William Friedkin, director do clássico de terror O Exorcista.