Schulz cede à pressão do SPD e renuncia ao ministério dos Negócios Estrangeiros

Censurado dentro do partido por ter aceitado uma pasta no novo Governo alemão, social-democrata abdica do cargo de ministro para que os militantes possam viabilizar a renovação da “grande coligação”.

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Bases do SPD não gostaram de saber que Schulz iria fazer parte do Governo alemão EPA

Foi com Martin Schulz na liderança que o Partido Social Democrata (SPD, na sigla em alemão) obteve o pior resultado eleitoral da sua História do pós-guerra e foi também com ele ao leme que abraçou a missão de se revitalizar a partir da oposição e nunca – nas suas palavras – num novo Governo de coligação com a União Democrata Cristã (CDU). Mas isso não o impediu de aceitar o cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros na solução encontrada na quarta-feira com o partido de Angela Merkel e com a União Social-Cristã (CSU), para pôr fim ao limbo político alemão, em vigor desde o final de Setembro do ano passado.

A pronta disponibilidade de Schulz para abraçar um lugar de topo num executivo que durante largos meses prometeu que não viabilizaria causou um enorme descontentamento junto da juventude partidária e da ala mais à esquerda do SPD, que puseram em causa a sua credibilidade. A estes juntou-se o actual detentor do posto, Sigmar Gabriel, que em declarações ao grupo Funke, lamentou o que considerou ser uma  “falta de respeito” da parte do ex-presidente do Parlamento Europeu. A tese acabou por ganhar adeptos junto de outros elementos da cúpula do partido e depois de um ultimato lançado na manhã desta sexta-feira, revelado pelo Bild, Schulz não teve outro remédio senão voltar atrás e abdicar do lugar.

“Anuncio a minha renúncia em juntar-me ao Governo federal, ao mesmo tempo que desejo sinceramente que [esta decisão] ponha fim aos debates dentro do SPD”, informou Schulz, através de um comunicado, fazendo figas para que esta sua decisão possa ajudar os cerca de 460 mil militantes a votarem a favor da renovação da “grande coligação” com Merkel, no referendo que terá lugar entre os dias 20 de Fevereiro e 2 de Março e cujo resultado será conhecido no dia 4. “As minhas ambições pessoais devem ser colocadas atrás dos interesses do partido”, sublinhou ainda o dirigente político.

A renúncia à pasta da diplomacia acaba por corresponder ao desejo dos muitos militantes que se sentiram incomodados com a alteração de postura de Schulz ao longo dos últimos quatro meses e que encararam a possível integração daquele no Governo como a gota de água. De acordo com uma sondagem Forsa, apresentada pela Reuters, quase três quartos dos alemães torceram o nariz à possibilidade do social-democrata poder estar à frente do ministério dos Negócios Estrangeiros.

“[Schulz] deveria saber que isto ia enfurecer as bases, tendo em conta o actual estado de espírito do partido. Foi um erro não ter elaborado uma narrativa qualquer para explicar a decisão de entrar no Governo, depois de originalmente ter dito que não o faria”, já tinha apontado ao Financial Times o deputado do SPD Jens Zimmermann, antes do comunicado do líder do partido.   

Citada pela Deutsche Welle, a previsível sucessora de Schulz à frente dos destinos dos sociais-democratas – anunciara que abandonava o posto no início do próximo mês para integrar o futuro Governo –, Andrea Nahles, disse ter “o maior respeito” por uma decisão que sabe “não ter sido fácil”, mas fora do círculo partidário são mais as críticas que os elogios. Marco Buschmann, do Partido Liberal Democrata (FDP), disse à agência noticiosa DPA que a nova coligação “está a desmantelar-se ainda antes de entrar em funções” e defendeu que esta decisão de Schulz apenas mostra um SPD “claramente mais preocupado com os cargos do que com o país”. Já a líder parlamentar do Die Linke (esquerda), lamentou que o líder social-democrata não tenha percebido mais cedo a incoerência da sua postura. “Teria sido muito melhor se Schulz tivesse percebido qual a decisão correcta sozinho e não sob pressão”, atirou Sahra Wagenknecht.