Opinião

O carrossel da competência

Administram tudo e não deixam nada. Bendita Pátria que de tais competências dispõe!

Basta um singelo ábaco para contabilizar o carrossel. Ou, tecnocraticamente, a placa giratória. São sempre os mesmos. Ou quase. Notáveis, competentíssimos, indispensáveis. Economistas engenheirados ou vice-versa, financeiros de tecnologia de ponta, juristas alcandorados a gestores MBA, fiscalistas em regime offshore, egrégios sociólogos armados em tudólogos, diplomatas em fim de carreira e reformados pró-activos e sobretudo pró-influentes.

Os lugares são multifuncionais e, como agora sói dizer-se, customizados. Quer dizer, às vezes não são as pessoas para os cargos, antes são os cargos para as pessoas. Há de tudo, e sobretudo, com a plasticidade que convém aos curricula, à idade, ao estatuto, à proveniência partidária, à loja maçónica ou a outras referências das chamadas elites. Há os cargos sempre apetecíveis porque seguramente não executivos, ou seja, fazendo pouco, exibindo credenciais e, acima de tudo, recebendo uma prebenda bem aconchegada. É escolher entre presidente não executivo, administrador não executivo, presidente ou vogal (mas sempre consonante) de um qualquer denominado conselho geral, de supervisão, de auditoria, de vencimentos, de reestruturação, etc. Há depois a figura de presidente ou membro de uma boa assembleia-geral de accionistas supostamente tranquila e meramente formal, mas que dá uns trocos indexados a qualquer coisa, menos ao salário mínimo ou ao Indexante de Apoios Sociais. Por fim, há os sempre apetecíveis Conselhos Fiscais, onde pouco se fiscaliza que, para isso, há sempre o “operário” de serviço, o Revisor Oficial de Contas.

O universo também está bem delineado. Em primeiro lugar, as empresas ex-públicas, pois que algumas privatizações foram bem orientadas por “pequenos núcleos” entre o caderno da privatização e a “nova gestão”, e tanto melhor quando são monopólios ou fortes oligopólios de bens ou serviços para a comunidade pagadora. Depois, toda a parafernália de empresas (e, evidentemente, das suas holding e sub-holding) que têm de ter boa representação em certos corredores do poder e dos poderes. Há ainda e cada vez mais as que beneficiam do capital de contactos e relações com economias em desenvolvimento, onde é importante tratar a cleptocracia e a corrupção com bajulação e “sentido de Estado”.

Entre os ungidos do sistema nacional de elevadas competências, há vários grupos: os que a quem nunca se ouviu uma opinião frontal e corajosa sobre qualquer minudente assunto, os que passam o dia num notável equilíbrio entre os pingos da chuva, os que vão a tudo e a todos, proclamando tautologias com ar de sábio, os “talvezeiros” que são uma espécie de especialistas condicionais, os que sabem de tudo, desde mecatrónica a bitcoins e desde redes virtuais a rotas aéreas, os bem-falantes em inglês ainda que mal-falantes em português, os repatriados depois de tudo absorverem na xenofilia sempre sedutora, os que são “flexíveis” e têm dado provas de saber (sabiamente) mudar de opinião ou de acção, os que jamais levantarão qualquer problema incomodativo numa nova versão de “múmias paralíticas” no domínio da gestão, os que ascendem ao clube do estrelato vindo directamente de doutas sociedades de advogados e jurisconsultos, os ex-jotas encartados depois de cargos governativos. Há ainda os “papa cargos” em regime de colecção e dom de ubiquidade e os administradores independentes, raramente independentes administradores, mas que o convidante e o convidado fingem acreditar no reclamado estatuto de independência.

Administram tudo e não deixam nada. Bendita Pátria que de tais competências dispõe!