Medronheiro: uma receita contra fogos, despovoamento... e gripes

Governo quer reintroduzir plantas autóctones, entre elas o medronheiro, que já deu provas de resistência às chamas e de onde brota o fruto que dá nome a uma potente aguardente.

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pbc pedro cunha

O fogo passou, queimou, mas os medronheiros renasceram das cinzas nos anos seguintes. A partir deste facto, ocorrido após os grandes incêndios de 2003/2005, nas serras de Monchique e Caldeirão, o Algarve (re)descobriu o valor ecológico de uma planta que nasce selvagem, que mas já está a ser clonada. No Verão passado, na zona centro, outros casos revelaram que esta espécie pode servir de travão ao avanço das chamas, desde que seja plantada de forma ordenada.

José Martins, em Lisboa, está atento à oferta e compra de prédios — dedica-se, profissionalmente, à mediação imobiliária —, mas tem em Pampilhosa da Serra raízes afectivas e um investimento florestal. Numa zona fustigada pelo dramático incêndio de Outubro, tinha plantado cerca de 50 hectares de medronheiros. “O fogo entrou, atacou, mas o medronheiro resistiu.” Das 12 parcelas que possui, diz, “todas foram afectadas, mas não arderam na totalidade”, ao contrário do que se passou com outras espécies que desapareceram por completo. Quando o fogo perdeu o pé e desceu das copas dos pinheiros — recorda o técnico da Direcção Regional de Agricultura e Pescas do Centro, João Gama —, baixou a força destruidora no confronto com os medronheiros. O economista, de 49 anos, acredita, a partir da experiência vivida, que o combate aos fogos passa, sobretudo, pela gestão florestal.

É por isso que, a juntar-se às medidas preventivas contra incêndios, em que se inclui as “cabras-sapadoras”, vem aí mais uma medida. “O Governo quer incentivar sistemas agro-florestais, dando desde já um sinal com a abertura de candidaturas no Pinhal Interior [Pedrógão Grande e zona limítrofe] ao Programa de Desenvolvimento Rural”, afirmou ao PÚBLICO o secretário de Estado das Florestas e Desenvolvimento Rural, Miguel Freitas, adiantando que o “medronheiro é uma das espécies a privilegiar”.

Mas esta espécie é muito mais do que um corta-fogo. No Algarve, Monchique é onde estão os testemunhos mais antigos da transformação do medronho em aguardente. Mas o fruto pode também ser transformado em vinagre, doces, compotas ou sobremesas.

Um investidor norueguês, no rescaldo da grande depressão que se abateu sobre as áreas ardidas na costa vicentina, comprou, há 12 anos, uma propriedade com 271 hectares para se dedicar à produção de medronho. Mas não queria um fruto qualquer. “Só do bom e do melhor”, diz Ricardo Jacinto, o engenheiro florestal que estava a trabalhar no Ministério da Agricultura e foi contratado para desenvolver um projecto inovador: produção de clones, plantas padronizadas, com alto rendimento. O resultado “superou as expectativas”, diz o técnico, referindo-se ao rendimento das plantas e à qualidade.

Ricardo Jacinto trocou o trabalho na função pública pelo sector privado. “A Direcção Regional de Agricultura deixou de ter capacidade para fazer investigação”, lamenta. No Monte Ruivo (Odeceixe) plantou 160 hectares de medronheiros, contrariando o que se fazia em seu redor — reflorestação de eucaliptos. A família norueguesa, para quem foi trabalhar, investiu nesse projecto 300 mil euros. “Se tivesse plantado eucaliptos, teria uma pequena fortuna em madeira. Assim está longe de ser rentável”, admite.

Mas há outros números a ter em conta quando se fala de floresta mediterrânica e sustentabilidade do mundo rural. “O medronheiro é das culturas que mais se adaptam às alterações climáticas e das que mais rapidamente recuperam em caso de incêndio”, defende Ana Arsénio, técnica da In Loco, a associação de desenvolvimento local que leva cerca de duas dezenas de anos de trabalho na serra do Caldeirão, lançando sementes de esperança a quem lá vive. Monchique, Silves, Loulé e Tavira são os principais concelhos da região onde esta cultura tem tradição na produção de aguardente. O mel e o leite de cabra completam o mealheiro das poucas famílias que ainda resistem ao abandono das terras do interior.

Rota do medronho

Face à importância da árvore e do fruto que gera a cada vez mais afamada aguardente, Miguel Freitas pensa que faz “todo o sentido a criação de uma rota do medronho” no Algarve, divulgando este património natural associado a uma cultura milenar que se mantém viva. “Este é um trabalho a desenvolver de forma integrada entre municípios, envolvendo os agentes do turismo e da economia”, diz. A Associação de Produtores do Medronho do Barlavento Algarvio (Apagarbe) já requereu o registo como indicação geográfica protegida (IGT) procurando, desse modo, preservar a marca “Algarve”.

Na Universidade do Algarve (Ualg), Ludovina Galego limpa a laboratório para analisar as amostras de aguardente que lhe começarão a chegar dentro de uma ou duas semanas. A colheita foi boa? “Nem por isso”, diz José Manuel Nunes, de 70 anos, do Monte da Cartaxinha, Monchique. O Verão quente e prolongado, afirma, deixou as plantas sob stress hídrico. Por isso, existe alguma expectativa sobre o resultado final do produto. A singularidade desta bebida espirituosa, acrescenta Ludovina Galego, reside “no cunho pessoal que cada produtor gosta de imprimir à bebida, obtida de forma artesanal e com alguns segredos pelo meio”.

A fama do medronho do Algarve vem de longe. As qualidades que lhe são atribuídas (mezinhas, na linguagem popular) vão para além do que está provado pelas ciências, mas as crenças também contam para a história. No combate às constipações e outras maleitas, dizem os apreciadores, “nada melhor do que um anti-gripe da serra — medronho e mel”.

Quando a associação In Loco, no início dos anos 90, procurou identificar e valorizar os produtos do Caldeirão para travar o despovoamento que já então se fazia sentir, Ludovina Galego era uma jovem investigadora. Nessa altura conhece Giuseppe Versini do Laboratório de San Michel All’Adige, em Itália, que a ensinou a detectar os aromas do medronho à medida que iam conhecendo as destilarias. Desse modo, tomou-lhe o cheiro, deixou-se seduzir e não mais largou este fruto vermelho, com altas propriedades antioxidantes. Por isso, quando foi criada a Câmara de Provadores de Aguardente de Medronho, em 1997, não estranhou que fosse ela a mulher escolhida pelos homens para identificar a “preciosidade” da região. No princípio, recorda, “o que davam a provar eram umas bebidas ácidas — aquilo queimava tudo”. Então, como é que se conhece uma boa aguardente de medronho? “Bem, eu não consumo bebidas alcoólicas”, começa por advertir a especialista, que só pelo cheiro detecta as subtilezas das bebidas espirituosas. “Macia, suave, aromática” são alguns dos adjectivos que vêm à ponta da língua, na prova sensorial. Mas é no laboratório que se tiram as dúvidas para saber se o metanol, elemento que entra na composição química da aguardente, se encontra no valor de concentração aceitável. Caso exceda certos parâmetros, avisa, “pode causar dores de cabeça, vómitos”, entre outros sintomas.

“Os produtores estão cada vez mais atentos à necessidade de apresentar qualidade”, sublinha.

O “antigripe” da serra

Na loja do medronho e do mel, em Monchique, Américo Telo, diz que os agricultores daquela zona — apesar de ser não obrigatório a rotulagem — optaram por divulgar as características da bebida. “Chegou-se à conclusão que era uma mais-valia”, diz o consultor da associação da Apagarve, a trabalhar neste sector há vários anos. A venda directa ao consumidor faz-se numa loja situada no centro da vila. Quem está ao balcão, ao fim-de-semana, são os próprios artesãos. Chegam os turistas e o diálogo acontece de forma natural, mesmo para quem não domina línguas estrangeiras: “Vai um medronhinho?” é a pergunta habitual, a qualquer hora do dia. O freguês não precisa de acenar com a cabeça, porque o copo de aguardente acompanha as palavras e a rejeição é reacção quase impossível. Quem bebe pela primeira vez, admite Américo Telo, “por vezes faz caretas, mas são poucos os que não compram uma garrafa para mais tarde recordar”.

O presidente da Apagarbe, José Paulo Nunes, destaca a importância da investigação científica, desenvolvida em parceria entre o Instituto Superior de Engenharia da Ualg e o Instituto Politécnico de Coimbra/Escola Superior Agrária, no apuramento da qualidade. “O medronho é uma bebida forte”, diz, referindo-se ao teor alcoólico da aguardente do medronho, que chega a atingir os 50% (o uísque varia entre os 43% e os 45%). Porém, acrescenta, “desde que seja suave, os sabores até se tornam mais nítidos com a graduação elevada”. Ludovina Galego fez “algumas sugestões para baixar o teor alcoólico, mas tem havido alguma resistência por causa da tradição”. O dirigente desta associação, com cerca de uma centena de membros, admite que a investigadora tem razão, “mas há costumes que não se mudam com facilidade”, ressalva.

O medronheiro, tradicionalmente, é explorado no estado selvagem. Porém, na última década, tem-se assistido à introdução de plantas seleccionadas, dispostas de forma ordenada no terreno. Não são conhecidos números oficiais sobre a extensão ocupada, mas os pedidos de subsídios ao Ministério da Agricultura, em 2016, apontavam para uma área aproximada de 1200 hectares de medronheiros em todo o país, distribuídos por 300 produtores.

As serras de Monchique e do Caldeirão, no Algarve, são as zonas de maior representatividade da aguardente de medronho. No entanto, a zona centro do país está a fazer uma grande aposta em novas plantações, dirigidas para a comercialização do fruto em fresco. O preço de uma embalagem de 125 gramas varia entre os 3,50 e os 4 euros. A transformação em bombons, muesli, snacks, bolos e bolachas são outras das aplicações que estão a ser experimentadas nos institutos universitários. O preço de uma garrafa de 70 centilitros de aguardente de medronho algarvio varia entre os 20 e os 32 euros. A dificuldade, por vezes, está na escolha — só Monchique tem 55 marcas diferentes e há ainda produtores da serra do Caldeirão.

No ano passado, foi editado um guia com as recomendações para o fabrico da aguardente de medronho. É o Manual de Boas Práticas para a Cultura do Medronheiro, da autoria de Goreti Botelho, do Instituto Politécnico de Coimbra/Escola Superior Agrária, e de Ludovina Galego, do Instituto Politécnico da Universidade do Algarve. De resto, é na zona centro que se verifica a maior dinâmica na produção (clonagem, por micropropagação) de plantas seleccionadas. João Gama, técnico da Direcção Regional de Agricultura e Pescas do Centro (DRAP), que também colabora nesta publicação, identifica duas empresas de Coimbra a trabalhar nesta área e uma outra de Guimarães.

Este técnico tem já 12 anos de experiência a trabalhar com o medronheiro, procurando que esta árvore, com uma altura média de 1,5 metros, possa funcionar como “corta-fogo” na floresta. Mas só agora, com os dramáticos fogos do Verão passado, é que o seu trabalho passou a ser observado com um olhar mais atento. “A Câmara de Pampilhosa da Serra, na faixa de protecção às aldeias, propôs substituir o pinhal e mato pelo medronheiro, criando desta forma uma zona tampão aos fogos”, exemplifica.

Com esta plantação fica a promessa de protecção, mas também a oferta de um fruto profícuo para várias utilizações. A aguardente, porém, continua a ser a mais incontornável.

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