Crítica

A utilidade do riso, pueril ou grotesco

Em Um Cavalo Entra num Bar, David Grossman interroga a eficácia do riso para chegar à verdade.

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enric vives-rubio /arquivo

O bom do humor é que se pode rir dele, mesmo, ou sobretudo, quando falha no acto de provocar o riso. David Grossman, o israelita de 66 anos autor, entre outros, de Ver: Amor e Até ao Fim da Terra (D. Quixote), escolhe agora a comédia para questionar até que ponto a verdade faz parte da vida e o que esconde cada narrativa pessoal ou nacional. 

Um Cavalo Entra num Bar (título inspirado na frase com que começam muitas anedotas israelitas) tem como protagonista um comediante de stand-up, um homem de 57 anos, Dovaleh Grinstein, que faz espectáculos de humor sofríveis na cidade de Natania. Sabemos dele a partir do narrador, um juiz reformado que conheceu Dovaleh eram os dois adolescentes. Viveram a vida adulta longe um do outro até ao dia em que Dovaleh lhe telefona a pedir que assista a uma das suas perfomances e lhe dê a sua sentença acerca do que vê. Ele seria uma espécie de juiz implacácel, contratado como “quem contrata um assassino para matar”. O que sobraria do humorista subversivo que se quer desnudar perante alguém que conhece o seu passado e perante a severidade reconhecida do julgador?   

É difícil gostar de Dovaleh Grinstein no início deste romance breve de David Grossman, escritor que escreve sobre o humor depois de se ter ocupado do seu luto pessoal em Até ao Fim da Terra, volumoso poema em prosa escrito depois da morte do filho. Será a passagem de um registo para o outro o que mais pode causar espanto. Mas não há ruptura. É o mesmo fio de pensamento, o escritor é inevitavelmente o mesmo. Não foge do luto. Consuma a sua permanência seguindo caminho pelo que causa o riso e o que o riso nos provoca. Há, pois, comédia em Um Cavalo Entra num Bar. Mas o livro está longe de ser uma comédia.

A piada faz parte do espectáculo de Dovaleh e na assistência não se ouvem risos. É Grossman, no sucesso e, sobretudo, no infortúnio do seu protagonista a construir uma narrativa sobre a possibilidade de existência de outra narrativa. Isto é: quando se escreve sobre o que se vive, essa escrita contém o que se deixou de viver. É sempre uma narrativa sobre a perda. É dessa matéria — o percurso individual enquanto falha — que se faz o humor de Dovaleh, alguém de que se vai gostando cada vez mais (e também desprezando) quando se descobre nele um passado de perda — de país, de terra, de identidade. É aí também que começa, aos poucos, a jogar-se um jogo de identificação.

Ele vai-se revelando ao público e ao velho amigo. “Como é que ele conseguiu, penso comigo próprio, sim, como é que num tempo tão curto conseguiu transformar a assistência, e eu próprio até certo ponto, em familiares da sua alma? E em seus reféns?”, interroga-se o amigo. A história daqueles dois rapazes cúmplices, agora adultos desconhecidos, vai-se aproximando. Tudo isto decorre intercalado com o desfiar de anedotas, mas o tom não é de brincadeira. Há humor como meio para questionar o trauma e o próprio riso como superação de um acontecimento que fez com que a vida de alguém fosse vivida ao lado do que era suposto. No palco e fora dele, o contador de piadas lida com o trauma, traindo primeiro a expectativa de quem espera rir, mas não ri. Há frustração, depois incómodo. Há a rudeza do humor, o mau gosto, o abjecto. Há também a partilha do incómodo e do trauma. Rir ou não rir não é uma opção, há verdade na gargalhada, e Dovaleh sabe. Ele é um humorista porque conheceu cedo o riso dos outros, o dos que não riam com ele mas dele. Na infância e na adolescência ele era a piada má, e agora, adulto, quase velho, quer olhar-se de frente, pela primeira vez.