Documentos secretos encontrados em loja de bens em segunda mão

Governo australiano já pediu uma “investigação urgente”. Os ficheiros foram descobertos no interior de um armário fechado à chave.

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O primeiro-ministro australiano Malcolm Turnbull ordenou uma investigação ao caso LUSA/DANIEL MUNOZ

Centenas de documentos secretos do Estado australiano foram encontrados numa loja de artigos em segunda mão. A história é contada pelo canal australiano ABC esta quarta-feira e já é considerada como “uma das maiores falhas de segurança nacional” da história do país. O Governo da Austrália já ordenou uma “investigação urgente” para apurar como é que os documentos foram parar a uma loja da capital australiana. O conteúdo dos documentos secretos, apelidados “The Cabinet Files”, denuncia várias falhas de segurança ao longo dos vários governos, nomeadamente a respeito da administração de Tony Abbott e Kevin Rudd.

A falha de segurança é descrita pelos jornalistas da ABC como “alarmante e reveladora”. A ABC destaca que não se tratou de uma “fuga de informação” e fala em preocupações quanto à segurança do país.

Esclarece o canal australiano que quando um novo governo toma posse na Austrália é hábito que se venda a mobília do executivo anterior a lojas de bens em segunda mão, para que os escritórios sejam renovados. Terá sido no interior do armário, entre outra mobília, objecto de uma dessas vendas que os documentos foram transportados para a loja de artigos em segunda mão, em Camberra. Da mobília, comprada por “um preço irrisório”, fazia parte um arquivo, cujas gavetas se mantiveram fechadas durante meses, uma vez que os funcionários não sabiam das chaves. O armário acabou por ser comprado e arrombado. Foi então que o conteúdo dos documentos foi enviado para o canal australiano.

The Cabinet Files põem em xeque cinco governos

As páginas, classificadas como “altamente secretas”, abrangem um período de dez anos e tratam de assuntos da responsabilidade de cinco governos australianos, denunciando constantes falhas ao nível de segurança interna e externa. 

De acordo com os Cabinet Files, a Polícia Federal australiana perdeu cerca de 400 ficheiros de segurança nacional entre 2008 e 2013. Uma troca de emails dá conta que os documentos foram perdidos à data em que o Partido Trabalhista australiano estava no poder, sem especificar a natureza ou o conteúdo dos documentos perdidos pelo gabinete que controla todas as operações das Forças Armadas australianas. No entanto, a ABC nota que, durante este período, os temas mais sensíveis da actualidade e que poderiam ter sido objecto de discussão pelo Governo australiano diziam respeito ao número de militares no Afeganistão e no Iraque, a antiterrorismo e à protecção das fronteiras australianas.

Foi também no final de 2013 que a ministra Penny Wong deixou no seu gabinete cerca de 200 ficheiros altamente secretos e protegidos com palavra-passe, quando o Partido Trabalhista perdeu as eleições. Entre as informações deixadas nos armários estavam pormenores de planos para proteger os Emirados Árabes Unidos do Irão, actualizações sobre a guerra no Afeganistão, informações sobre os vizinhos do país e perfis de suspeitos de terrorismo. A lista completa é revelada pelo canal.

São também reveladas informações e decisões políticas dos anteriores governos. O destaque vai para o facto de que o ex-primeiro-ministro trabalhista australiano Kevin Rudd foi avisado quanto aos “riscos sérios” em relação à segurança de um programa governamental de eficiência energética no isolamento doméstico. O programa acabou por provocar a morte de quatro funcionários responsáveis pela sua instalação, vítimas de electrocução e hipotermia.

Já o Governo do antigo primeiro-ministro Tony Abbott, do Partido Liberal, tinha estudado a possibilidade de negar apoio social a menores de 30 anos. Consta ainda que Scott Morrison, do Partido dos Conservadores, tentou atrasar deliberadamente a entrega de vistos permanentes a refugiados que chegaram ao país no final de 2013.

A ABC dá ainda destaque à intenção do antigo Governo de John Howard de retirar o direito a permanecer em silêncio durante um interrogatório policial.

O Governo não prestou declarações e remete para a investigação em curso. “Dado que a investigação está em curso, não é adequado comentarmos mais neste momento”, lê-se num comunicado.

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