Crítica

Chover no molhado

Não há nada de mal nem de mau com A Forma da Água; só não há é nada de novo nesta variação americana sobre O Labirinto do Fauno.

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Del Toro está a ficar prisioneiro do seu labirinto
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A Forma da Água é aquele raríssimo caso de filme que parece ter reunido o consenso da indústria, da crítica internacional e do público, entidades que raramente se encontram do mesmo lado. Depois de ter vencido o Leão de Ouro em Veneza, o filme de Guillermo del Toro entra em 2018 como favorito absoluto para os Óscares, com 13 nomeações em todas as categorias principais. E confirma o mexicano como um dos mais peculiares autores (e aqui a palavra faz sentido) a trabalhar hoje em dia no cinema, qualquer que seja o seu país. Del Toro é um fanboy vindo do cinema de género que se tem conseguido impôr a sua marca ao sistema hollywoodiano — A Forma da Água é o seu terceiro projecto idiossincrático financiado por um grande estúdio, depois do filme de monstros gigantes e robôs Batalha do Pacífico e do gótico-giallo A Colina Vermelha, fitas que estiveram longe de serem os êxitos que se desejavam.

Até aqui tudo bem, e é até revigorante ver como Del Toro coloca a bom uso a sua cinefilia em A Forma da Água: tudo se passa numa Baltimore estilizada de início dos anos 1960, em plena Guerra Fria, jogando com toda a iconografia do cinema americano da época. A nossa heroína, uma mulher da limpeza muda (uma excelente Sally Hawkins), mora nas águas-furtadas de um cinema que exibe um dos pastelões bíblicos típicos do período, e há sempre um televisor a mostrar musicais antigos dos anos 1930 com Shirley Temple ou Alice Faye. O catálogo de referências cinéfilas é reconfortante, mas também sinal das limitações do projecto, cuja maior referência acaba por ser uma auto-citação: por onde se quiser ver, este conto de fadas assumido sobre a amizade que se trava entre a mulher da limpeza e uma estranha criatura anfíbia capturada pelas agências secretas americanas remete para O Labirinto do Fauno (2006), o filme que, com as suas seis nomeações para os Óscares, elevou faz agora uma década Del Toro à “primeira divisão”.

É, outra vez, a luta contra a opressão e o conformismo, o papel da magia e da capacidade de acreditar no futuro, a solidariedade entre “os outros” que se encena, mas transferindo a sua história da Espanha dilacerada pela guerra civil para a América da Guerra Fria. É um filme que parece feito à medida do momento Trump, sim, com o seu gentil apelo à resistência, mas que saberá a muito pouco para quem conhece a obra do realizador. Quem viu O Labirinto do Fauno encontrará aqui pouco ou nada de novo, e mesmo os recém-chegados à obra do mexicano poderão sentir que A Forma da Água está mais interessado no universo feérico e estilizado que cria (que tem, aqui e ali, preocupantes pontos de contacto com o Fabuloso Destino de Amélie de Jeunet, mesmo que muito menos folclórico) do que na história que nele decidiu instalar. Está tudo no sítio certo, as imagens são deslumbrantes, os actores são todos óptimos (embora tanto Michael Shannon como Octavia Spencer se limitem a fazer o que já se espera deles), mas (como já se sentia em parte na Colina Vermelha) — Del Toro está a ficar prisioneiro do seu próprio labirinto. Não há nada de mal, nem de objectivamente mau, com A Forma da Água; há apenas uma certa sensação de decepção e de chover no molhado.

P24 O seu Público em -- -- minutos

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