Jessica Bruder
Reportagem

América, a vida normal?

Um ano depois de Donald Trump ter chegado à Casa Branca, Nova Iorque diz-se deprimida e o país aprende a viver o quotidiano com o efeito dos tweets do Presidente. A crispação é a nova normalidade na América atenta a sinais de mudança. Eis a vida, normalmente.

Entre Washington e Nova Iorque, o comboio atravessa as traseiras de pequenas e grandes cidades, subúrbios e alguns focos de ruralidade que deixam a nu as camadas que marcaram o desenvolvimento nas últimas décadas. Histórias de sucesso, esquecimento e revivalismo e o modo como a arte e a cultura alternativas se foram apropriando disso. Esse é o lugar onde o país se revela naquilo que esconde. Armazéns sem telhado, gravitações, invadidos por ervas, prédios em construção, casinhotos de madeira com muitos acrescentos, gigantescos parques de estacionamento, carros abandonados em baldios, parques de caravanas, caravanas solitárias, jardins cuidados, jardins onde uma cadeira de baloiço é a única coisa que resistiu ao abandono do que já foi uma habitação familiar. Há alguém que passa, alguém sentado de olhar parado, miúdos de skate, miúdos que fumam, gente drogada, bêbedos, muitas pessoas que correm para o trabalho, restos de gelo no chão, restos de folhas, sobras de comida.

As carruagens atravessam o que parece ser a vida normal quando se sai de Washington a caminho de Baltimore, Filadélfia, Newark e, por fim, Nova Iorque. São as cidades onde pára o rápido que cruza tudo o resto que se interpõe no percurso apressado, tratando-o como uma paisagem que irremediavelmente fica para trás. O que contam esses lugares de passagem? O que podem contar num dia em que essa viagem se faz em sentido inverso à que se fez há um ano quando o caminho foi entre Nova Iorque e Washington para a tomada de posse do 45.º Presidente dos Estados Unidos?

Passaram 365 dias. Em jeito de balanço, há quem fale de um efeito de soco no estômago. Nos jornais, não faltam adjectivos para classificar carácter e administração. Autoritário surge como eufemismo para falar de “um imperador monstruoso”, por exemplo. Ou seja, escreve-se no presente e, sabe-se, isso é pouco acertado; escreve-se quando sai um livro como Fire and Fury, do jornalista Michael Wolff. Mas sabe-se. Trump inaugurou uma nova maneira de governar que abanou as regras do sistema. A cada dia, o americano mais atento ia sabendo como ia o país e a Casa Branca a partir do tweet mais recente do Presidente. O que se seguia era a reacção dos media e do mundo a esse mesmo tweet e às suas possíveis consequências.

PÚBLICO -
Foto
Tomada de posse de Donald Trump Reuters

O Presidente que prometera abanar Washington, limpar o pântano, dar emprego à classe média, travar a imigração, acabar com o programa de segurança social Obamacare, construir um muro, evitar refugiados, combater o terrorismo evitando a entrada de muçulmanos, diminuir impostos, fazer a América grande outra vez desafiava a tradição presidencial de serenar. O Presidente que dramatiza ao vivo a realidade, via redes sociais, abrindo hostilidades com a imprensa livre, indo às Nações Unidas ameaçar destruir a Coreia do Norte, rasgando os Acordos de Paris sobre o clima, sorrindo à Rússia e fazendo cara feia aos aliados.

Esse Presidente mentiu? “Disse inverdades”, sorri Andrea Smith, uma atenta leitora de jornais, a única que dobra e desdobra as páginas da edição do New York Times numa tarde de domingo no metro de Nova Iorque. “Todas as palavras que ele diz são um exercício ao nosso entendimento e um teste aos nossos nervos”, continua esta psicóloga clínica num dia de pausa antes de entrar numa sala de cinema, exactamente o que fez no dia seguinte à vitória de Trump, o “Presidente que nos pôs a pensar acerca do que é a verdade”.    

Metade certa, metade errada

Foi há um ano. Na América do Presidente que governa por tweets, a vida diária decorre normalmente. Ou assim parece, seja lá o que for essa normalidade, pelo menos no eixo entre Washington DC, a cidade para onde se mudou, e Nova Iorque, a cidade onde nasceu e sempre viveu. São 360 quilómetros e uns milhões de pessoas que vivem ou cruzam diariamente esse atlas de raças, classes sociais, expectativas, frustrações, sonhos. Estão no caminho entre a capital política e a capital dos costumes, acordam, trabalham, fazem as suas refeições, deambulam, vão para a escola e regressam para, no dia seguinte, se tudo correr bem, tudo se repetir. Que rotina ou rotinas são estas? 

O comboio que atravessa as traseiras dessa América sai de Union Station, a estação central de Washington DC, às duas e cinco da tarde e pára na Penn Station de Nova Iorque às cinco e 20 dessa mesma tarde. A sensação de quem chega é a de que a cidade está a ser evacuada por uma qualquer emergência. Centenas de pessoas correm em várias direcções, sabendo exactamente onde se dirigir. Uma multidão que se dilui e volta a ser uma massa antes de se voltar a perder em cada uma das entradas para os comboios que as levam de volta a casa depois de um dia de trabalho. É a hora de ponta de regresso. Não se ouve uma conversa. A Babel das ruas desaparece e toda a atenção de cada um dos ex-falantes se fixa num trajecto a cumprir o mais depressa possível. “Um nova-iorquino só sabe andar depressa ou a correr”, dissera uns dias antes Martha, uma rapariga que pedira desculpa por estar a ocupar o lado esquerdo da escada rolante que — regra — deve ser sempre deixado livre aos que correm para baixo ou para cima. Ela distraiu-se e foi brindada com um palavrão, o tradicional vernáculo dos stressados de Nova Iorque. 

Mas nada como a multidão em hora de ponta na Penn Station. O som é dos passos apressados e de uma respiração que abafa tudo. Sarah olha um painel. Tem um trólei na mão direita e aperta a mochila contra o peito. É uma excepção no formigueiro. “Estou a ver a hora do comboio para Princeton.” Volta à universidade depois de uns dias de férias forçadas em casa dos pais, em New Heaven, no estado vizinho do Connecticut. Loura, alta, destaca-se pela calma e um certo ar perdido. “Vou ter de esperar”, diz, enquanto procura um sítio onde se encostar, talvez ler um livro, ver uns mails. Tem 21 anos, estuda Arte e aproveitou para ver a exposição de David Hockney que acaba de se estrear no Metropolitan Museum, uns quarteirões acima. “É emocionante! Gosto daquela espécie de realismo brutal, dos retratos, e gostei muito de um quadro onde há uma estrada, sabe? Costumo fotografar estradas em Princeton. São largas, têm pouco movimento e podemos parar por ali à espera do melhor ângulo.”

PÚBLICO -
Foto
Penn Station Getty Images

Fala de Pearlblossom Highway, de 1986, uma fotografia feita de colagens de uma estrada no deserto americano, paisagem característca do Sul. Princeton não é assim. Árvores, rios, um verde que no Inverno se cobre de branco, de neve e gelo. Mas Sarah tenta a experimentação de Hockney e quando fala parecer abrir-se um imenso espaço entre a conversa dela, ela e a multidão que continua a circular. Sarah não é dali, mas tampouco se deixa intimidar. Já conhece a estação por onde todos os dias passam mais de 600 mil pessoas no chamado commute — palavra que define o quase sempre complexo e determinante percurso casa/trabalho definidor de estilo de vida — entre a cidade e a área metropolitana. Parte dessas pessoas que andam por ali habita as tais traseiras por onde continuam a passar os comboios, antes e depois do dia em que metade da América achava que a outra metade estava errada quando a 8 de Outubro de 2016 elegeu Donald Trump para a presidência do país.

Nesse compacto humano em hora de ponta na Penn Station, nada identifica quem fez silêncio e quem celebrou nesse dia. Só Sarah, porque a deixamos falar. “Fiquei muito triste. Não votei. Achei que não era preciso.” O que é que mudou? “Para já, o muito maior à-vontade com que ouço manifestações racistas entre colegas da universidade... e uma espécie de raiva contida.”

Passou um ano, “apenas um ano”, como salienta Jerry. Tem auscultadores nos ouvidos que tanto servem para ouvir o podcast como para proteger as orelhas do frio gelado. “Parece que está lá há tanto tempo. Já viu tudo o que ele disse, a quantidade de polémicas que criou? Felizmente não tem conseguido fazer muito do que prometeu, à excepção da lei de impostos”, continua, sem desviar a atenção do túnel por onde há-de chegar o E Train — a linha de metro que vai de Jamaica, em Queens, junto ao aeroporto JFK, e o World Trade Center — e o levará até à Baixa, onde trabalha como consultor jurídico num banco. Vive em Monclair, uma pequena cidade no estado de New Jersey maioritariamente habitada por uma classe média que escolheu ter uma casa maior por um preço muito menor do que qualquer T1 em Manhattan.

Tem dois filhos adolescentes, a mulher dá aulas particulares e todos os dias repete a rotina: dez minutos de carro até à estação, mais uma hora e 15, se tudo correr bem até à Baixa de Manhattan. Às cinco da tarde, o mesmo, em sentido contrário. Se tudo correr bem. “Foi uma escolha. Leio, ouço música, dormito um pouco, mas chego a casa e posso ter espaço e os meus filhos têm uma boa escola.”

Entre 500 mil e 700 mil dólares, é possível ser dono de uma casa com três ou quatro quartos, garagem e jardim numa zona com baixos índices de criminalidade, numa área de floresta, servida por bons hospitais, escolas, estradas. No centro de Nova Iorque, o mínimo para um apartamento com um quarto vai entre os 650 mil e um milhão de dólares. O preço médio de uma casa nos Estados Unidos é de 200 mil dólares. Depende se quer viver no Ohio, Kansas, Michigan, S. Francisco ou Nova Iorque.

O metro chega, Jerry passa do pacato cidadão que escuta podcast em mais um commuter a atacar o espaço por um lugar na carruagem cheia. Braços em asa, ar decidido, quer vencer a batalha por mais uns minutos sentado. Conseguiu. O sorriso voltou-lhe ao rosto, ele acena antes de mergulhar outra vez na voz que só ele ouve e o entretém.

Jerry teve tempo para dizer que é um privilegiado. Sozinho ganha mais de 160 mil dólares por ano. O rendimento da mulher é irregular, mas ajuda a que o orçamento comum fique entre os 200 mil e os 220 mil dólares. A média nacional, segundo o U.S. Census Bureau, foi de 59 mil dólares em 2016 e tem registado crescimento nos quatro antes anteriores. Jerry é um dos felizes oito por cento da população americana com rendimento de 200 mil dólares por ano.

Ao volante da “Van Halen”

“A casa leva a grande fatia dos rendimentos, numa percentagem cada vez maior desde os últimos 30 ou 40 anos”, refere Jessica Bruder. É jornalista, especializou-se em subculturas e em questões laborais na era digital. Quando Trump estava a ser eleito, ela terminava Nomadland, um livro sobre quem deixou de ter casa e vive sobre rodas, literalmente. Em carrinhas, caravanas, roulottes, autocarros escolares, uma comunidade itinerante que vive de trabalho precário e cresce desde a crise de 2008. Ou seja, antes de Trump. Para isso, ela fez o que se chama jornalismo de imersão. Pegou ela própria numa van, baptizou-a “Van Halen” e fez-se à estrada para conhecer a vida e as motivações destas pessoas que deixaram de conseguir pagar uma casa e escolheram viver fora do sistema dominante, viveu e trabalhou com elas.

“O salário mínimo federal por hora é de 7,25 dólares [5,9 euros]”, conta ao P2, salientado que isso acontece enquanto os que fazem parte do “1% no topo da pirâmide económica ganham 81 vezes mais”. Ou seja, seguindo este cálculo, “para os adultos americanos na parte mais baixa da escada salarial — cerca de 117 milhões — os rendimentos não se alteraram desde os anos 1970”.

Este não foi, portanto, um problema criado por Trump, mas foi um problema que Trump prometeu resolver: as dificuldades da classe média branca onde terá ido buscar grande parte dos votos. Os homens e mulheres que Jessica encontrou encaixam nesta faixa: maioritariamente de classe média ou média baixa, alguns com formação superior, que, incapazes de sustentar a chamada vida normal”, criaram a sua normalidade feita de trabalho temporário, precário, mal pago.

Estão essas pessoas desiludidas um ano depois? “A maior parte das pessoas com quem falei são o que chamaria  ‘pós-políticas’, apesar de cobrirem quase todo o espectro político. Conheci conservadores, libertárias, liberais. Uma das coisas que as ligam: todas têm uma forte autodeterminação em conseguir viver fora das regras da sociedade dominante. Dito isto, não têm grandes expectativas em relação aos governantes. Ninguém está à espera de que chegue alguém capaz de tornar a economia melhor.” 

Não serão eleitores de Trump zangados. Vai para além disso. Nem tão alienados que queiram que tudo vá abaixo.

PÚBLICO -
Foto
“Como deve calcular, fiquei completamente horrorizada com a Administração Trump. É um pesadelo que todos os dias tem novos capítulos” Todd Gray

A voz de Jessica muda o tom calmo quando passa a falar de si mesma. “Como deve calcular, fiquei completamente horrorizada com a Administração Trump. É um pesadelo que todos os dias tem novos capítulos”, e volta a serenar. “Mas as pessoas que conheci não estão revoltadas. Apenas pensam que têm de fazer qualquer coisa diferente, porque o que estavam a fazer no contexto económico em que se encontravam já não funcionava. Os problemas que existem em relação à desigualdade de rendimentos, de salários entre trabalhadores qualificados, tudo isso é realmente poderoso e sistémico e penso que muitas pessoas estão neste momento a prestar atenção a coisas a que antes talvez não dessem importância. Acho que as pessoas agora querem entender mais que tipo de frustração pode ter permitido o nascimento de uma administração como a de Trump. Acho que o que aconteceu suscitou grande curiosidade, muita gente começou a interessar-se pelo modo como vivem as pessoas com vidas diferentes, olha-se mais à volta em relação a outros espectros económicos.”

Resumindo, para Bruder, um ano depois de Trump, há maior atenção ao mundo dos outros. O mundo da adolescente que segura ao colo um bebé. Ele não terá mais de dois anos.

São oito da noite de outro dia gelado. Há um carrinho cheio de mantas em frente ao banco onde ele e ela estão sentados. Ele palra. Ela beija-lhe o rosto, canta-lhe. Único som numa carruagem de metro cheia de gente. Ao lado, outro adolescente parece dormitar com um telemóvel na mão. Tem os sinais de dependência de crack. Agita-se. O olhar, quando se descobre, é baço. É muito magro, rosto negro de ossos salientes. Indiferente. Ela tocava-lhe. Quer o gorro do bebé. Um passageiro ao lado, ajuda-a. O bebé chora. Ela sobe a camisola e, com um pudor infantil, amamenta-o. Ponta da camisola a tapar a mama, a tapar a boca do bebé que se acalma. Ela descansa a sua cabeça na cabeça dele. O namorado coça-se, não olha. Na estação de sair, como um autómato, levanta-se e prepara o carrinho para receber o filho. São duas crianças mais uma e o incómodo da carruagem inteira a fingir que só tem olhos para os telemóveis. Mentira. Todos receberam aquilo como parte deles. Já existia antes. “Mas continua a existir e pior”, salienta Alex McKenzie, assistente social, com trabalho no Bronx e Yonkers, em bairros pobres a norte de Manhattan.

“Estas pessoas dependem de cuidados de saúde e de educação que só um Estado social, à maneira do que existe na Europa, ou mesmo aqui no vizinho Canadá, poderia financiar. Quando a Administração Trump vem cortar nos impostos aos mais ricos, está a emagrecer os cofres do Estado e o dinheiro vai faltar a quem está mais desprotegido.” 

PÚBLICO -
Foto
"As pessoas que conheci não estão revoltadas. Apenas pensam que têm de fazer qualquer coisa diferente, porque o que estavam a fazer no contexto económico em que se encontravam já não funcionava." Jessica Bruder

Bruder não viu o que se passou na linha C do Metro. Não é uma cena rara. Quem anda de metro — o tal metro que ameaça colapsar em Nova Iorque, velho, com atrasos, avarias, caro, mas ainda “democrático”, como lhe chama Alex — está habituado a ver quem vive mais à margem. Uma viagem numa das linhas centrais de metro dá, aliás, ideia da estratificação marcada daquela sociedade para a qual muito recentemente Jeremiah Moss tem chamado a atenção no livro Vaninshing New York, How a Great City Lost its Soul.

A cidade símbolo da diversidade, o grande porto da imigração nos Estados Unidos, que em 2021 irá receber 67 milhões de turistas — menos estrangeiros e mais nacionais devido, julga-se, ao efeito imediato Trump — está, acusa Moss, a fazer coro com outros nova-iorquinos, a expulsar essa diversidade que tem sido o seu grande pólo, activador da energia criativa que fez dela a grande capital — querem crer os nova-iorquinos — do mundo ocidental e que agora parece transformar-se, gentrificada, na capital de uma civilização em decadência. Será?

Há perguntas que permanecem como ecos. Pessimistas, alarmistas, ouve-se de um lado. Realistas, escuta-se quem se vê remetido a um subúrbio barato, criminalidade alta, dependência de drogas a subir, apesar de o emprego nunca ter estado tão baixo. A nível nacional há tantos anos. O quanto disto se deve a Trump? O quanto disto criou Trump? “Os problemas de que eu falava não são problemas criados por Trump. São problemas sistémicos dos quais não culpo uma administração num curto período. Parece ter-se incrustado na nossa economia, na nossa sociedade”, continua Jessica Bruder.

Os matizes da vida

Mas a Babel permanece na rua. Todas as línguas se escutam. À porta de edifícios administrativos, em lojas, restaurantes, transportes, pequenos grupos de pessoas comunicam nas suas línguas. Pelo modo como se vestem, se comportam, vivem e trabalham ali. Estão ali como em casa. Há um ano, muitas dessas pessoas olhavam as outras nos olhos como quem busca a explicação. Um ano depois, isso parece ter mudado. A vida continua normalmente, assim, à superfície. Em modo mais privado, ouvem-se queixas. Um pai que tem a filha a ser operada não a pode ter no hospital mais de um dia. “A operação é simples, mas requeria uma maior observação. Não vou poder pagar isso e vou arriscar levá-la para casa.”

Trabalha num banco no centro de Nova Iorque, vive em Upper State, uma cidade a uma hora de autocarro, por onde passa por colinas de choupos, campos de cultivo abandonado, fábricas umas desactivadas, celeiros sem função, mais campos de caravanas ou casas temporárias.

Saindo da cidade por cada um dos pontos cardeais, a paisagem devolve sempre a diferença. Peter pára o táxi. Trajecto: Lexington Avenue-Long Island City. Ele mete conversa. “De onde é?” Ouve a resposta. Devolvo a pergunta. “Sou americano”, mas o sotaque indica outra coisa, um inglês carregado de árabe. Percebe a interrogação que gerou. “Sou americano-marroquino. E o meu país dominou o seu.” Ele continua a falar. “Toda a gente diz mal de Trump, mas ele é bom. É firme, é justo, diz o que não gostam de ouvir. Precisamos de ordem.” Votou nele? “Votei, claro!” Acaba por dizer que Peter foi o nome que escolheu quando chegou à América, o nome árabe trazia-lhe “problemas”. E os seus conterrâneos, o que querem vir? “Quem chega primeiro tem de ter privilégios. Isto não dá para todos. É imigrante?”

A pergunta do homem que escolheu chamar-se Peter no país de Trump é a de muitos imigrantes que temem que lhes tirem o que eles conquistaram. “É um sintoma comum em sociedades como a nossa, onde se celebra o sucesso individual”, diz Alex McKenzie, o assistente social que estudou Sociologia e aponta o exemplo das comunidades imigrantes em França ou em Inglaterra que votam nos nacionalistas. 

Um ano depois é pouco tempo, diz Alex. Parece muito tempo, diria Jerry. Entretanto, aumenta o número dos que vão para a estrada, afirma Jessica. “Usa-se muito a palavra ‘liberdade’ para qualificar o modo de vida, a escolha, mas é uma escolha de certa maneira imposta, sistémica.” Como é que eles, os que andam sobre as rodas, se vêem a si próprios; vítimas, sobreviventes, aventureiros, sonhadores? “Sonhadores, de certeza.” Ninguém gosta da palavra homeless que carrega um estigma, a palavra que usam é houseless.

PÚBLICO -
Foto
Jessica Bruder: “Sou mais uma contadora de histórias do que uma activista, mas se houver algum activismo no que faço... talvez seja passar a mensagem, é muito fácil ter estereótipos.” Jessica Bruder

Depois de ter escrito o livro, falei com um sociólogo que gostaria de ter ouvido antes. Disse-me que sim, fazemos escolhas, mas fazemos essas escolhas dentro de uma selecção limitada, escolhas constrangidas. Por isso, quando muitas dessas pessoas dizem escolhi isto, a escolha tem que ver com a manifestação da autonomia, ter uma razão para se levantarem todas as manhãs e manterem um certo controlo sobre as suas vidas. Foi isso que escolheram.”

Jessica esteve três anos a fazer esse trabalho em vários estados. Como eles trabalhou nos armazéns da Amazon, a grande empregadora deste tipo de população, flutuante. A empresa de Jeff Bezos criou até uma campanha para os atrair, a Campforce. Dá-lhes trabalho na época alta de encomendas, três/quatro meses antes do Natal. Mais uma pergunta para Jennifer: como é que este tipo de jornalismo pode ajudar a entender o que se passa, por exemplo, no interior de um país como os EUA, tão distante dos centros de decisão? “A mim ajudou-me muito. Admiro um grande número de jornalistas que fazem esse tipo de trabalho, de imersão; acho que é um jornalismo de empatia e de compreensão e de compaixão. Quase sempre, o que se aprende na estrada é que o que une as pessoas é muito mais do que aquilo que as divide. Quebra o preconceito. Admiro Ted Cornover [autor do livro Newjack, Guarding Sing Sing] em que ele foi guarda prisional de Sing Sing durante um ano. Provavelmente eu tinha alguns estereótipos na minha cabeça sobre as pessoas que acabam por ser guardas prisionais. Depois de ler o livro de Ted, acho que fui capaz de olhar para essas pessoas com compaixão e ver os matizes das suas vidas.”

Foi isso que se propôs. É isso que propõe que faça o espectro que olha pela janela do comboio entre Washington DC e Nova Iorque. Que olhe e imagine como será viver ali. Como será ter Trump Presidente, como será cortar e enfrentar o trânsito, a agressão da cidade, beber a energia que ela tem, ouvir as razões da diferença.

“Sou mais uma contadora de histórias do que uma activista, mas se houver algum activismo no que faço... talvez seja passar a mensagem, é muito fácil ter estereótipos.” Numa sociedade tão polarizada em que se promove o encontro virtual entre semelhantes ideológicos e se fortalece uma rede em que as pessoas só se dão com quem gosta delas, e a só se encontrarem pelas semelhanças, a procurarem quem é igual, é importante que o jornalismo possa ajudar essas pessoas a passar algum tempo com quem é, de algum modo, diferente delas."

Um famoso com outro famoso

Agora há um café quente na mesa. Através dos vidros embaciados, vê-se a neve e o silêncio que ela traz sempre. São poucos os que passam. Encolhidos, quase todos. Ao lado, um homem abre o jornal. Traz na capa Oprah Winfrey no discurso dos Globos de Ouro na noite anterior. A noite em que as mulheres se vestiram de negro contra os abusos sexuais. Lê-se que há quem peça que Oprah se candidate. Vejo-o a abanar a cabeça. Pergunto o que acha. “Acho que quem acha que ela se deve candidatar não percebe nada disto.” Porquê? “porque está a tentar combater um famoso com outro famoso, talvez mais competente, mas o que sabe ela de administrar um país?”

No país do culto da personalidade, quem tem êxito pessoal pode chegar ao comando do país. Foi isso que Trump, para já, mostrou. Há quem lamente que os democratas não avancem com alternativa, que os republicanos se mantenham mais ou menos silenciados por Trump, como quem espera que alguma coisa aconteça. Todos os dias acontece um tweet que faz barulho. É a vida normal há um ano.

E como vai Nova Iorque?, pergunta para outra nova-iorquina. Chegou do meio da neve para partilhar um café. O que se nota neste ano um de Trump? Ela faz uma pausa. Olha a rua como quem procura sinais, não aquelas de que falam os comentadores políticos, os especialistas que parecem ter-se enganado há um ano. Procura a vida normal. “Nova Iorque é uma cidade muito mais deprimida.”

PÚBLICO -
Foto
Um ano depois é pouco tempo Reuters

Linda Schwaub, assim se chama, tem 48 anos e limita a sua resposta à geografia onde vive e conhece melhor. Movimenta-se no mundo da arte, da cultura, dos restaurantes de luxo. Viaja para o estrangeiro. Trabalha como consultora de arte, decora apartamentos na área da grande metrópole, com gente que não conta tostões e maioritariamente até votou em Hillary Clinton. Como ela. “Votei na Senhora Clinton convictamente. Não por a achar a melhor solução para o país, mas porque o adversário nem sequer contava para este campeonato. Era o que eu achava”, diz enquanto encolhe os ombros e esbugalha os olhos numa incredulidade já tantas vezes remoída.

“Além disso, sou democrata, acredito nos princípios da igualdade de direitos, do direito à diferença; revoltam-me o racismo, a clivagem social... Pertenço a um grupo que tem sofrido e parece que vai continuar a sofrer. O Presidente tem instigado discursos xenófobos. Sou uma negra em Nova Iorque, mas pelo menos sou uma negra em Nova Iorque. Uma privilegiada. Se tudo correr mal, posso pagar uma viagem para sair daqui. Passou só um ano, mas os sinais são os que todos os dias lemos e ouvimos.”