Afinal, Câmara de Chaves e projectistas sabiam que nascia água quente nas termas romanas

Ex-presidente da câmara diz que ninguém sabia da existência de água quente no local quando o projecto do Museu das Termas Romanas – que está com graves problemas de humidade – foi feito. Mas relatório das sondagens arqueológicas de 2006 aponta para o contrário.

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Nelson Garrido

O edifício que abriga as maiores termas medicinais romanas da Península Ibérica, projectado pelos arquitectos Cândido Lopes e Nicolau Lopes, enfrenta graves problemas de humidade porque as altas temperaturas das águas das nascentes termais foram esquecidas. O ex-presidente e actual vereador António Cabeleira desculpabilizou os arquitectos, argumentando que quando a câmara encomendou o projecto “a escavação não estava feita” e ninguém sabia “que nascia água quente dentro do espaço”. Mas, em 2006, uma equipa de arqueólogos convidada pela Câmara Municipal de Chaves para fazer sondagens de arqueologia preventiva já tinha alertado para a existência de uma nascente. E um artigo publicado no mesmo ano na Revista de Ciências e Técnicas do Património da Faculdade de Letras da Universidade do Porto – e disponível para consulta pública – é prova disso.

O documento intitulado de “Novos dados sobre o urbanismo e história da cidade de Chaves” resume as conclusões das sondagens arqueológicas, feitas entre 2005 e 2006, e foi o primeiro a revelar a descoberta de um complexo termal romano onde se planeava construir um parque de estacionamento subterrâneo. Neste artigo, é apontada a existência de “uma nascente de água quente” e é incluída uma fotografia indicativa do “local onde brotava a água quente”.

O coordenador das sondagens arqueológicas e co-autor da publicação em causa, Armando Coelho, garante ao PÚBLICO que a sua equipa descobriu e documentou a existência de água quente no local num relatório entregue à câmara a Julho de 2006. O arqueólogo e professor catedrático jubilado da Faculdade de Letras da Universidade do Porto adianta, ainda, que a nascente encontrada jorrava água “em abundância”. O arqueólogo da câmara, Sérgio Carneiro, confirma: “Eles fizeram a sondagem e apareceu água quente. E esteve à vista durante muito tempo, toda a população viu.”

Contactado pelo PÚBLICO, António Cabeleira, que em 2006 era vereador, diz não conhecer o relatório em causa e afirma que “a grande nascente de água quente” só foi encontrada nas escavações. E acrescenta: “Em função do conhecimento existente, os técnicos projetistas consideraram que a ventilação passiva seria suficiente para fazer a ventilação e a retirada do vapor de água.” Aquando a elaboração do projecto do futuro museu, Sérgio Carneiro já tinha alertado projectistas de que a ventilação passiva nunca seria suficiente, mas não foi ouvido.

Actualmente, sem um sistema mecânico de renovação do ar instalado, a água que atinge os 65 graus condensa-se nas paredes do edifício e cai em pingas nas ruínas, pondo em perigo a sua conservação. A câmara aguarda agora o visto do Tribunal de Contas para avançar com a segunda fase de obras, que irá resolver este problema. Os trabalhos vão arrastar-se durante um ano e o museu, que representa já um investimento de cerca de 3 milhões e 200 mil euros, só deverá abrir ao público no primeiro semestre de 2019.