Reportagem

O carvão das minas do Pejão ainda está a arder

Desde os incêndios de 15 de Outubro que os resíduos das antigas minas do Pejão ardem a céu aberto e a olho nu, e nos dias de chuva sente-se ainda mais a nuvem de fumo. Direcção-geral de Energia e Geologia fala em “curiosidade geológica”. População de Pedorido reclama que já chega do cheiro a enxofre

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Adriano Miranda/Público
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Para os entendidos em geologia, dizer que o carvão das minas do Pejão está a arder não será propriamente um erro técnico, mas é certamente uma redundância. Mas foi essa a frase que saiu da boca de Manuel Ferreira, que trabalhou nas antigas minas de carvão de Castelo de Paiva durante 30 anos, e que actualmente vive a menos de 200 metros do que então ficou conhecido como o “campo de futebol”. Foi ele que o disse: “o carvão do Pejão ainda está a arder”.

O director-geral de Energia e Geologia, Mário Guedes, que já trabalhou na empresa de Desenvolvimento Mineiro (EDM), explica o que considera ser “uma curiosidade geológica”: “O carvão no seu estado natural encontra-se continuamente em combustão lenta [à escala geológica, superior a 400 milhões de anos]. Este processo pode ser acelerado em situações onde ocorrem fenómenos catalisadores e que acelerem o dito processo de combustão, como foi o caso dos incêndios florestais”, afirma o director-geral, em resposta às questões colocadas pelo PÚBLICO.

Ou seja, o carvão do Pejão nunca parou a combustão lenta. Mas esta raramente é assim visível, a céu aberto e a olho nu. Por estes dias, e com a chuva a cair mais certinha naquelas encostas que perderam toda a vegetação durante os incêndios de 15 de Outubro (e que dizimaram a quase totalidade da mancha florestal do concelho de Castelo de Paiva) o fumo tornou-se intenso, o cheiro a enxofre também. E quando cai a noite, e mesmo quando há neblina cerrada, o que mais se vê por aquelas encostas são pequenos focos de chamas azuladas, como se o monte tivesse sido tomado por campistas incautos, munidos de fogareiros a preparar a ceia.

Manuel Ferreira foi dos primeiros a vê-las. Primeiro junto à pista de aeromodelismo, que foi construída por cima de uma das antigas escombreiras da mina, e onde funciona o Clube de Aeromodelismo do Porto. Depois, mais perto de casa, onde era o antigo campo de futebol dos mineiros e onde Manuel Santos, encarregado de higiene e segurança da mina aquando do seu fecho, se lembra bem terem sido depositadas toneladas e toneladas de resíduos. “O entulho que saía da mina, depois de extraído o carvão, era depositado aqui. Foram vagonetas e vagonetas, onde naturalmente há muitos resíduos de carvão”, admite Manuel Santos.

“Avisámos quem tínhamos de avisar, mas a verdade é que porventura ninguém levou isto muito a sério”, diz Manuel Ferreira. Das ocorrências junto à cabeceira da pista de aeromodelismo, recorda-se de ter avisado “toda a gente” durante o convívio de Natal que se realizou no local no dia 9 de Dezembro. “Desvalorizaram a questão. Houve até quem dissesse – não sei se a sério se a brincar – que isto até podia aqui trazer turistas, e passar a ser uma atracção como é um vulcão ou umas furnas”, criticou.

Num ponto mais baixo da freguesia, onde está instalado a sede da Associação de Reformados de Pedorido, que assegura a gestão do lar de idosos, onde hoje em dia permanecem 22 utentes, quase todos familiares de antigos mineiros, a situação também foi reportada há já várias semanas.

Luís Costa, presidente da associação, recorda que começou por alertar o proprietário dos terrenos, que comprou uma parte do antigo complexo mineiro para aí desenvolver um projecto de turismo que, décadas depois, ainda não arrancou. “Foi logo a seguir aos incêndios de 15 de Outubro. Chamámos cá o proprietário, mostrámos que aquilo não parava de arder e ele disse que ia ver o que era possível fazer”, recorda. E não fez nada. Luís Costa lembra-se também da tarde inteira em que os bombeiros de Castelo de Paiva estiveram no local a deitar água em cima da fogueira, e que de nada adiantou.

O comandante dos bombeiros de Castelo de Paiva, Joaquim Rodrigues, explicou que o facto de os resíduos se encontrarem a profundidade (15 a 20 metros) impediu a extinção definitiva da combustão. Citado pela Lusa, o comandante explicou que ainda esta semana acompanhou uma visita aos locais por parte de responsáveis da protecção civil distrital e de um vereador da Câmara de Castelo de Paiva, pelo que agora se aguarda “uma solução técnica eficaz”. Foi após essa visita que foi decidido comunicar ao Ministério do Ambiente o que se está a passar, “com o pedido de uma avaliação do risco e de uma rápida solução”.

Depois de notificada a Agência Portuguesa do Ambiente, confirmou o PÚBLICO, “o problema” foi parar à Comissão de Coordenação e Desenvolvimento regional do Norte (CCDRN), uma vez que no topo das preocupações está a qualidade do ar para as populações e quão nocivo pode ser o odor a enxofre que se sente no ar.

A monitorização da qualidade do ar é assegurada pela CCDRN que, apurou o PÚBLICO, tem a sua rede a funcionar e não detectou nada de relevante. Mas, o sensor mais próximo que tem do local está… em Paços de Ferreira, ou seja, a várias dezenas de quilómetros de distância. A existir um problema, mas em menor escala, este passa para a alçada da Empresa de Desenvolvimento Mineiro (EDM), que tem, por concessão, a responsabilidade de acompanhar todos os processos relativos ao encerramento de antigas explorações mineiras. 

“Não é por nada, mas aquilo está a arder a menos de 40 metros das instalações do lar. Não é lá muito confortável. Não é que todos os dias o fumo nos entra pelas janelas dentro, mas, por exemplo, num dia como de hoje [quinta-feira] de manhã com o nevoeiro notava-se muito. Agora à tarde, com o sol, não se nota nada”, argumenta o presidente da Associação de Reformados de Pedorido. Luís Costa vai buscar os papéis e nota a data que está aposta no ofício de que a Câmara de Castelo de Paiva lhe fez chegar cópia sobre a notificação que fez à Direcção-geral de Energia e Geologia (DGEG) a dar conta da ocorrência: 17 de Dezembro. “Até agora não se passou mais nada”.

Manuel Santos e Manuel Ferreira, que frequentam de perto os terrenos do antigo campo de futebol, por razões de vizinhança, chamam a atenção para pequenos abatimentos de terra e, sobretudo, para os gases que consideram tóxicos, mais ainda para quem, como eles, trabalharam anos e anos dentro da mina e sofrem quase todos de silicose – uma doença pulmonar considerada profissional.

Por seu turno, a DGEG assegura que está a acompanhar todos os processos, desde a actividade do fecho da mina (em 1994), até à monitorização dos impactes ambientais, nomeadamente no que se refere aos fenómenos de subsidência, o nome dado aos abatimentos de terrenos nestas situações. E o director-geral acredita que não haverá situação de alarme.

“Neste momento não se registam, há vários anos, qualquer situação a este nível, mantendo-se os marcos de subsidência nos mesmos locais. No processo de fecho da mina, foram confinados e estabilizados diversos taludes e escombreiras, que findo o processo foram reflorestadas com pinheiro bravo e eucaliptos (as zonas planas de maior produtividade)”, explica o director-geral. Sobre o caso “comentado publicamente”, acrescenta, relativo a umas pequenas escombreiras, que se situam nas antigas instalações da lavaria da mina, que agora são propriedade privada, “não constituindo situação de especial cuidado, salientando-se que com a precipitação ocorrida provocam a elevação no ar, no estado de vapor, da água proveniente da chuva”.

Mesmo assim, refere, encontram-se agendadas várias visitas ao local, em articulação com a Câmara de Castelo de Paiva, tanto por parte da DGEG como da Empresa de Desenvolvimento Mineiro, que continua a ser proprietária de uma parte dos terrenos. Foi a EDM quem assinou um contrato com a Portucel para florestar as zonas de maior produtividade.

O presidente da Câmara de Castelo de Paiva, Gonçalo Rocha, confirmou estar a aguardar a visita dos técnicos da EDM para que possam estudar a solução rápida e eficaz para o problema que está a acontecer em Pedorido.