Nas livrarias de Nova Iorque o mundo é tumultuoso

Em que mundo vivemos segundo os livros que vamos encontrando numa ronda pelas livrarias da cidade que ainda dita o que se lê no Ocidente? Um mundo tumultuoso.

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No dia seguinte ao lançamento do livro de Michael Wolff não havia exemplares à vista nas livrarias de referência na cidade. O mau tempo atrasou as entregas. Os que chegaram a algum lado, esgotaram Justin Sullivan/Getty Images

Em Novembro de 2014, a escritora Ursula K. Le Guin (Califórnia, 1929) escrevia no seu blogue (ursulakleguin.com) sobre a chamada segunda vaga do feminismo, considerando que este se tinha alimentado da zanga, da raiva das mulheres. “Fizemos o seu elogio e cultivámo-la como uma virtude. Aprendemos a gabar-nos de estarmos zangadas, a arrogar a nossa zanga, a jogar com a fúria”, começava, para acrescentar logo depois que por si só a fúria, apesar de ser útil e justificada, apenas servia a defesa pessoal e essa raiva corria o risco de ser inútil na defesa dos direitos das mulheres e podia mesmo ser perigosa. O ensaio saiu agora em livro em pleno movimento “me too”, juntamente com outros textos que Le Guin foi publicando online nos últimos anos. São pensamentos sobre escrita, arte, política, acerca da velhice, do tempo, da rotina. Nele, Le Guin faz desfilar o pensamento sobre quase tudo, de forma irónica e despudorada, lúcida. Concorde-se ou não com as suas opiniões, é vibrante o modo como esta mulher de 88 anos se manifesta. Usando a primeira pessoa — a sua, não ficcionada — justificando porque é vista como uma das grandes estilistas da escrita. O livro chama-se No Time to Spare e pode ser lido como o símbolo de um momento: o actual, na América de Trump, mas também na América que o produziu e fabricou um ideal de grandeza que persiste. 

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Pensamentos sobre escrita, arte, política, velhice, sobre o tempo. Ursula Le Guin faz desfilar o pensamento sobre quase tudo, de forma irónica e despudorada: No Time to Spare  Dan Tuffs/Getty Images
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Numa ronda pelas livrarias de Nova Iorque pode concluir-se que esse momento é tão íntimo quanto político. No Time to Spare está em destaque em todas as livrarias de Nova Iorque. A cobertura do livro pela imprensa, a oportunidade do seu conteúdo, a viragem do país leitor que parece procurar nomes tidos como referências de um pensamento dito alternativo, justificam o destaque deste volume em todas as livrarias, sem excepção. “Le Guin é muito respeitada, tem leitores fiéis e outros que a descobrem agora fora da sua ficção”, refere Michael, vendedor de uma das lojas da agora única grande cadeia livreira na cidade, a Barnes & Noble. Confirma a grande procura deste tipo de livros capazes de “situar as pessoas no mundo, no tempo”. O livro de Ursula Le Guin alia pensamento, solidez narrativa, cria o efeito de cumplicidade com o leitor. É tão duro quanto sedutor. É capaz de produzir intimidade e reflexão. É íntimo e político. Cruza fronteiras. Vê-mo-lo ao lado de livros que contam vidas privadas. Está nas estantes junto à biografia, memória, autobiografia, junto aos de história, sobre racismo, colonialismo ou feminismo. “Os anos anteriores foram os da distopia, agora há um interesse pelo real”, acrescenta o vendedor da Barnes & Noble, olhando para a montra de Union Square feita de romances que tratam da identidade, pessoas que vivem à margem, sagas familiares, biografias de figuras referenciais para a história da América. Políticos, músicos, escritores, artistas plásticos, cientistas. “Quando o pessimismo está consumado há que encarar o real”, remata.

O que se lê, o que se recomenda, o que retrata o momento actual olhando apenas as livrarias de uma cidade? A ideia é esquecer os sites, as encomendas online e andar pelas lojas de livros, percorrendo uma vasta geografia, o mais vasto altas literário norte-americano que, para o bem ou para o mal, ainda dita as tendências do que se lê no Ocidente. E, nessa caminhada, tentar perceber o que se lê e o que se quer vender. O percurso a partir daqui faz-se pelas livrarias independentes. The Astoria Bookshop, Strand, McNally Jackson, Greenlight, Word Up Books, Community Bookstore, The Drama, Word. De Queens, cruzando Manhattan e voltando a atravessar o East River rumo a Brooklyn. É um caminho feito de muitos títulos novos. Eles revelam tumulto e alguma dispersão. As escolhas em destaque são comerciais, mas também reflectem ideologia e a preocupação em servir uma clientela tão urbana quanto local. É uma cidade onde mora o mundo, visitada pelo mundo, onde se falam todas as línguas e, como salienta a sorrir uma vendedora, “todos os dias há gente a perguntar por um autor que nos é estranho de um país que não sabemos onde fica”.

O que está e o que vem

Fernando Pessoa e a recentíssima edição do Livro do Desassossego está à vista em quase todas, como estão os livros mais premiados do ano que agora acabou. Entre eles espera-se a edição portuguesa de Sing, Unburied, Sing, o mais recente romance de Jasmyn Ward, a rapariga do Mississippi que se confirma como uma das mais brilhantes escritoras da sua geração. Aos 40 anos, acaba de vencer pela segunda vez o National Book Award. A primeira foi em 2011 com No Coração da Tempestade (Porto Editora), história de sobrevivência ao furacão Katrina que parte da experiência pessoal de Ward. Agora, ao terceiro romance, narra uma saga familiar centrada no Mississippi actual com a raça é o grande tema. 

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Jesmyn Ward, a rapariga do Mississippi confirma-se como uma das mais brilhantes escritoras da sua geração: Sing, Unburied, Sing David Levenson/Getty Images
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Outro livro esperado em Portugal, onde deverá chegar esta Primavera, pela Quetzal, é o elogiado Manhattan Beach, de Jennifer Egan, autora, entre outros, de O Regresso do Brutamontes. Neste caso, a escritora de 54 anos opta por um padrão romanesco mais clássico para contar a história de uma família de Brooklyn nos anos que se seguem à Grande Depressão. Não há livraria onde o livro não surja sublinhado e recomendado pelo staff.

Outra mulher, outra premiada, outro livro esperado, outra latitude americana: o Minnesota e o Dakota do Norte com a escritora de ascendência indígena Louise Erdrich, autora de A Casa Redonda (Clube do Autor, 2013). O seu romance mais recente chama-se Future Home of The Living God, fábula sobre a actualidade com o pé na distopia que afinal persiste, onde Erdich questiona através das suas personagens, os efeitos do progresso enquanto fim absoluto. 

Erdrich surge ao lado um volume de ensaios assinados por mulheres. São mesmo as protagonistas dos livros em destaque. Courage is Contagious reúne textos de Chimamanda Ngozi Adichie, Alice Waters e Charlamagne tha God sobre a influência que Michelle Obama teve na política e nas mentalidades. 

Os livros de comportamento, que antes ocupavam lugar privilegiado, estão em segundas e terceiras prateleiras. Ao nível dos olhos, os livreiros, desde Astoria a Brooklyn, expõem nomes seguros da ficção universal, ensaios políticos, novidades de escritores mais jovens premiados, reedições de nomes que ressurgem graças à actualidade do seu pensamento. James Baldwin é o caso mais flagrante. Mantém-se no topo dos escaparates desde o filme/documentário I am Not Your Negro, de Raoul Peck, sobre a participação de Baldwin e activista no movimento dos direitos civis em finais dos anos 50 e 60. Toda a obra do escritor do Harlem está disponível ao lado de nomes como o de Ta-Nehisi Coates, o jornalista que há dois anos se destacou com Entre Mim e o Mundo (Ítaca, 2016). No final de 2017, Coates publicou We Were Eight Years in Power, conjunto de ensaios onde considera a eleição de Trump como uma borracha que apagou os anos de Obama. Tragédia, escreve, que podia ter sido evitada, acrescenta ainda. Um livro que não reúne o consenso do anterior, mas traz argumentos para uma discussão que continua acesa nas livrarias de Nova Iorque.

Como a questão Trump. No dia seguinte ao lançamento de Fire and Fury, Inside the White House, do também jornalista Michael Wolff, não há um um exemplar à vista na Strand, na Word, na Greenlight, algumas das livrarias independentes de referência na cidade; também não se vê na montra da Amazon, em Columbus Circle. Nem na McNally Jackson, no Soho. O livro de que se fala está numa espécie de virtualidade. Nem um exemplar em papel apesar de andar a circular pela internet desde o seu lançamento. Os que chegaram a algum lado, esgotaram. “O mau tempo, toda esta neve, atrasou as entregas. Estamos a anotar encomendas; na próxima semana deverá chegar”, diz uma vendedora na Word, em Brooklyn. Também a Greenlight pede desculpa aos clientes no seu site, anunciando que há uma lista. 

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Jennifer Egan: em Manhattan Beach, a escritora de 54 anos conta a história de uma família de Brooklyn nos anos que se seguem à Grande Depressão Anthony Pidgeon/Redferns
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É a promessa de entrar no íntimo que atrai? De entender o homem que, escreve-se lá, não esperava nem queria ganhar as eleições e se vê presidente? O íntimo vende. “As histórias de vidas”, afirma Chris, na McNally. As biografias parecem nunca ter ocupado lugar tão grande em todas as livrarias. Biografias literárias, musicais, artísticas, históricas, políticas, memórias, correspondência. Ernest Hemingway, Sylvia Plath, Franklin D. Roosevelt, Calder, Prince, Joe Biden, Steeve McQueen, Jack Nicholson. Mas também as relações. Como foi o processo de escrita do ultimo livro de São Shepard, segundo Patti Smith, que o acompanhou na escrita; a correspondência entre Hannah Arendt e Gershom Sholem...

 “Se quer entender a América é preciso ter em conta esta diversidade”, diz Alex, 27 anos, a olhar para a estante da Greenlight que alinha autores de todas as idades e géneros... “e raças”. Lá estão todos os contos de Kurt Vonnegut numa edição volumosa; The Colected Stories, de Susan Sontag, e há-de estar a chegar, já com lugar reservado, o livro póstumo de Denis Johnson, que morreu em Maio do ano passado. Chama-se The Largesse of The Sea e é um dos mais aguardado deste mês. Poderemos lê-lo em português? Outra celebração: os escritos dispersos — ensaios, perfis, artigos para jornais e revistas  — de um dos grandes autores americanos, James Salter. Acaba de sair. O título? Don’t Save Anything, e a promessa da escrita límpida de Salter. 

E há Blind Spot, o livro de e sobre fotografia de uma das vozes mais originais e artista de curiosidade ilimitada: Teju Cole. É uma volume para ler e guardar, um álbum para voltar sempre, em destaque na Strand perto de um dos títulos que está a causar sensação: a biografia do fotógrafo Richard Avedon. Avedon, Something Personal, de Norma Stevens & Steven M. L. Afonson. A fundação com o nome do fotógrafo já contestou a edição que diz estar cheia de incorrecções, mas isso só parece abrir o apetite aos leitores.

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Louise Erdrich: Future Home of The Living God é uma fábula sobre a actualidade com o pé na distopia Ulf Andersen/Getty Images
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O livro de Tina Brown, a ex-directora da Vanity Fair, é um dos mais requisitados para entender um certo tempo. Em The Vanity Fair Diaries, Brown conta a história dos bastidores sociais, políticos, da moda, o gossip de Nova Iorque nos anos 80. Mais literário, o crítico e ensaísta Daniel Mendelsohn escolhe o nome de um épico para contar a sua relação pessoal com os clássicos. An Odissey está entre os mais cotados desta temporada. 

Da África do Sul, um escritor que viveu muitos anos na América, pensa sobre autores, obras, tendências. O livro encontra-se entre os eleitos deste Janeiro por estas paragens. Ele é J. M. Coetzee, o Nobel, que em Late Essays reúne uma série de textos que prometem o melhor do pensamento do autor de Desgraça.

Estes títulos encontram-se entre muitos que tentam desmontar novos discursos, novos conceitos. Fake news, o papel do jornalismo, a ideia de sonho: The Far Away Brothers, a história de dois jovens migrantes e a construção do que se chama a vida americana, de Laurence Markham; Bunk, de Kevin Young, sobre plágio, plagiadores, pós-factos;  The Last Republicans, de Market K. Updegrove, sobre a relação entre Bush pai e Bush filho, os dois ex-presidente dos Estados Unidos; a biografia do general Grant, de Ron Chernow; Real American, a memoir, de Julie Lythcott-Haims.

O volume de títulos é incompatível com tempo e bagagem. Diz-me o que lês, vê-se num deles. Serve para a urgência que decorre da falta de tempo e espaço. Serve para perceber o momento que o futuro irá descrever com maior precisão. Quantos destes livros restarão? O que dizem eles sobre o que somos agora?